Terça-feira, 7 de Agosto de 2018

Recordando... Vasco Gato

ENVOLVO-ME NO SILÊNCIO

 

Envolvo-me no silêncio da tua

chegada. O espelho turvo

do teu nome acelera em mim

a evidência deste corpo em

que persisto.

Fazes-me espesso, orgânico,

compacto em torno do absurdo forte

de nos imaginar reciprocamente

despenhados.

Porque sinto que caminho já no ar,

cada passo mais distante,

à espera da tua levitação, que me entendas

a um palmo do peito, enfim caídos

por consequência da rendição.

Entre nós e o mundo há

quinhentos metros

de grito.

 

In “Cerco Voluntário”

13º da colecção "Cadernos do Campo Alegre"

 

Vasco Gato

(N.1978)

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Sexta-feira, 25 de Março de 2016

Recordando... Vasco Gato

SEMPRE

 

sempre que uma praia se levanta

és sempre tu que me tocas

e sempre tu quem aceita o sorriso

é sempre o sol embrulhado em terra pura

e sempre pura a voz que a terra canta

 

porque se ouvires a água na pedra

a água que sempre nos meus lábios sabe a ti

se ouvires a água na pedra tens a lua

a manhã o cereal de espuma que não pára de crescer

nos lábios teus que a água dos meus conhece

como o sol procura o dia e sempre acha a noite

e é na noite que sempre te digo

que sempre te juro as mãos enormes

e levanto a praia que tu levantas

quando sempre acordamos

e na nossa nudez se esconde a noite

em que lábios nos lábios criámos o mar

 

In "Um Mover de Mão"

Assírio & Alvim

 

Vasco Gato

(N. 1978)

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Domingo, 19 de Janeiro de 2014

Recordando... Vasco Gato

O TRUNFO DO TEMPO

 

As flores que nascem contigo
são o leito onde hás-de morrer.

Neste dia a ilha dispensou o sol.
As águas opacas poderiam esconder
reluzentes peixes que nada
seria hoje revelado.
Respirávamos por baixo da cinza,
vagarosamente,
e crescia uma levíssima morte
que talvez nos lançasse
já noite
nas memórias vivas.

Antes, havíamos conhecido o privilégio.
Tivéramos tempo para construir
a muralha que sustentaria o céu.
Encontrámos as raízes puras
da nossa idade, éramos enormes
diante do fogo, como árvores
que chegassem de muito longe
para povoar o inóspito.
Havia esse saber secreto:
vem das árvores o ar
com que o fogo as consome.

O tempo conhece os seus trunfos.

As flores preparam-se para te receber.
E tu tens os olhos esculpidos pela febre,
a brancura, o frio nas mãos,
todos esses contrastes que antecedem
a chegada da primavera incalculável.
Sentes-te estalar desde o coração.
Há uma tapeçaria de gritos e silêncios
urdindo-se dentro de ti.
Pétalas no chão.

E agora és a primavera
em que todas as aves partiram,
levando consigo a ilha,
as memórias,
a dura revelação do rosto.

In “Imo”
Editora Quasi Edições – 2003

 

Vasco Gato
N. 1978

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito

.Eu

.pesquisar

 

.Novembro 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.Visitas desde Agosto.2008

contador grátis

.Ano XIII

.posts recentes

. Recordando... Vasco Gato

. Recordando... Vasco Gato

. Recordando... Vasco Gato

.arquivos

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

.tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds