Quinta-feira, 1 de Agosto de 2019

Recordando... Vítor Nogueira

SEMENTES

 

É claro que me lembro. Havia dois atalhos

pelo meio do pinhal, direcções espantosamente

precisas, animais que não voltei a ver.

 

Enquanto as colheitas amadureciam nos campos,

havia talismãs pendurados nas árvores e mercúrio

para tratar certas lesões, uma peça vital

do equipamento. Havia girassóis à volta da casa

e as palavras imortais dos espantalhos, uma forma

de evitar que endoidecêssemos. E havia um muro

que era preciso saltar, a manhã gloriosa

da escalada, a ciência das grandes migrações.

 

Mas não vale a pena entrar em mais detalhes.

Este é o meu corpo. Esta é a minha mente.

Conhecem-se desde a infância e cumpriram pena juntos.

 

Do futuro nada sei. Apenas que vem aí.

 

In “Segunda Voz”

Averno - 2014

 

Vítor Nogueira

(N.1966)

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Terça-feira, 7 de Novembro de 2017

Recordando... Vítor Nogueira

SE TUDO ACONTECER COMO PREVISTO

 

Se tudo acontecer como previsto,

o Senhor Gouveia acordará

um pouco antes do almoço, mesmo a tempo

de descer as escadas e esperar pelo carteiro.

Se acaso receber correspondência,

há-de tirar o chapéu a uma senhora.

Se não lhe chegar nenhuma carta,

fará exactamente a mesma coisa.

Na vida como na escrita, o Senhor Gouveia

utiliza sempre a mesma rima. Os seus gestos

são alexandrinos medidos ao milímetro,

coisas dificilmente publicáveis

já em meados da década de cinquenta,

quando pela primeira vez tirou o chapéu

a uma senhora

 

(e nunca mais lho devolveu).

 

In "Senhor Gouveia"

Averno - 2006

 

Vítor Nogueira

(N.1966)

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Segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2016

Recordando... Vítor Nogueira

VARANDAS

 

A procissão dividiu a rua a meio,

como é costume fazer-se a uma noz.

Na varanda de Dona Joaquina, a colcha

mais bonita da cidade, peça antiga

de família, que em tempos lhe foi dada

para juntar ao enxoval.

 

Em meados da década de cinquenta,

o Senhor Gouveia e a Dona Joaquina

estiveram, vai-não-vai, para se entender.

Depois, enfim, aquele jeito de poeta,

aquele modo de tirar o chapéu

a uma senhora... E nunca mais se falaram

desde então, razões certamente ponderosas

que ninguém conhece ao certo.

 

Mas, no dia em que passa a procissão,

o Senhor Gouveia pode olhar, demorado,

a sua musa. Esperará por si, ainda hoje,

a solteira Joaquina? E até que ponto

era capaz de lhe dizer do seu desejo

(da maneira como o diz em sonetos

desde sempre guardados no armário)?

 

Entretanto, examina o velho busto

recortado pela colcha que jamais o acolheu.

 

In "Senhor Gouveia"

Averno - 2006

 

Vítor Nogueira

(N.1966)

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