Sexta-feira, 1 de Setembro de 2023

Recordando... Sophia de Mello Breyner Andresen

FUNDO DO MAR

 

No fundo do mar há brancos pavores,

Onde as plantas são animais

E os animais são flores.

 

Mundo silencioso que não atinge

A agitação das ondas.

Abrem-se rindo conchas redondas,

Baloiça o cavalo-marinho.

Um polvo avança

No desalinho

Dos seus mil braços,

Uma flor dança,

Sem ruído vibram os espaços.

 

Sobre a areia o tempo poisa

Leve como um lenço.

 

Mas por mais bela que seja cada coisa

Tem um monstro em si suspenso.

 

In “Obra Poética I”

Editorial Caminho

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

(1919-2004)

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Terça-feira, 1 de Novembro de 2022

Recordando... Sophia de Mello Breyner Andresen

O MAR DOS MEUS OLHOS

 

Há mulheres que trazem o mar nos olhos

Não pela cor

Mas pela vastidão da alma

E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos

Ficam para além do tempo

Como se a maré nunca as levasse

Da praia onde foram felizes

 

Há mulheres que trazem o mar nos olhos

pela grandeza da imensidão da alma

pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...

Há mulheres que são maré em noites de tardes...

e calma

 

In "Obra Poética"

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

(1919-2004)

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Terça-feira, 13 de Abril de 2021

Recordando... Sophia de Mello Breyner Andresen

PRAIA

 

Os pinheiros gemem quando passa o vento

O sol bate no chão e as pedras ardem.

 

Longe caminham os deuses fantásticos do mar

Brancos de sal e brilhantes como peixeis.

 

Pássaros selvagens de repente,

Atirados contra a luz como pedradas

Sobem e morrem no céu verticalmente

E o seu corpo é tomado nos espaços.

 

As ondas marram quebrando contra a luz

A sua fronte ornada de colunas.

 

E uma antiquíssima nostalgia de ser mastro

Baloiça nos pinheiros.

 

In "Mar”

Editorial Caminho

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

(1919 - 2004)

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Terça-feira, 7 de Julho de 2020

Recordando... Sophia de Mello Breyner Andresen

ESTA GENTE

 

Esta gente cujo rosto

Às vezes luminoso

E outras vezes tosco

 

Ora me lembra escravos

Ora me lembra reis

 

Faz renascer meu gosto

De luta e de combate

Contra o abutre e a cobra

O porco e o milhafre

 

Pois a gente que tem

O rosto desenhado

Por paciência e fome

É a gente em quem

Um país ocupado

Escreve o seu nome

 

E em frente desta gente

Ignorada e pisada

Como a pedra do chão

E mais do que a pedra

Humilhada e calcada

 

Meu canto se renova

E recomeço a busca

De um país liberto

De uma vida limpa

E de um tempo justo

 

In "Geografia", de 1967,

Incluído em "Obra Poética",

Ed. Caminho, Lisboa, 2010

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

(1919-2004)

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Terça-feira, 19 de Novembro de 2019

Recordando... Sophia de Mello Breyner Andresen

EIS-ME

 

Eis-me

Tendo-me despido de todos os meus mantos

Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses

Para ficar sozinha ante o silêncio

Ante o silêncio e o esplendor da tua face

 

Mas tu és de todos os ausentes o ausente

Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca

O meu coração desce as escadas do tempo

[em que não moras

E o teu encontro

São planícies e planícies de silêncio

 

Escura é a noite

Escura e transparente

Mas o teu rosto está para além do tempo opaco

E eu não habito os jardins do teu silêncio

Porque tu és de todos os ausentes o ausente

 

In “Livro Sexto”

Assírio & Alvim

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

(1919-2004)

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Domingo, 19 de Maio de 2019

Recordando... Sophia de Mello Breyner Andresen

QUEM ME ROUBOU O TEMPO

 

Quem me roubou o tempo que era um

quem me roubou o tempo que era meu

o tempo todo inteiro que sorria

onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro

e onde por si mesmo o poema se escrevia

 

In “Cem poemas de Sophia”

Org. de José Carlos de Vasconcelos

Edição de Visão - 2004

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

(1919-2004)

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Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2019

Recordando... Sophia de Mello Breyner Andresen

ÀS VEZES

 

Às vezes julgo ver nos meus olhos

A promessa de outros seres

Que eu podia ter sido,

Se a vida tivesse sido outra.

 

Mas dessa fabulosa descoberta

Só me vem o terror e a mágoa

De me sentir sem forma, vaga e incerta

Como a água.

 

POESIA I

 

In "Obra Poética I"

Editorial Caminho

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

(1919-2004)

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Domingo, 7 de Agosto de 2011

Recordando... Sophia de Mello Breyner Andresen

PÁTRIA

Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Do longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

– Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo.


In “Livro Sexto”

Editorial Caminho

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

1919 – 2004

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Domingo, 17 de Outubro de 2010

Recordando... Sophia de Mello Breyner Andresen

RESSURGIREMOS

 

Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta

Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta

Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta

Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta


In “Livro Sexto”

Editorial Caminho

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

1919 – 2004

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