Sábado, 25 de Junho de 2022

Recordando... Ricardo Reis

AMO O QUE VEJO PORQUE DEIXAREI

 

Amo o que vejo porque deixarei

Qualquer dia de o ver.

Amo-o também porque é.

 

No plácido intervalo em que me sinto,

Do amar, mais que ser,

Amo o haver tudo e a mim.

 

Melhor me não dariam, se voltassem,

Os primitivos deuses,

Que também, nada sabem.

 

11-10-1934

 

In “Poemas de Ricardo Reis” 

Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte

Imprensa Nacional - Casa da Moeda - 1994

 

Ricardo Reis

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Segunda-feira, 7 de Junho de 2021

Recordando... Ricardo Reis

OS DEUSES DESTERRADOS

 

Os deuses desterrados.

Os irmãos de Saturno,

Às vezes, no crepúsculo

Vêm espreitar a vi

 

Vêm então ter connosco

Remorsos e saudades

E sentimentos falsos.

É a presença deles,

Deuses que o destroná-los

Tornou espirituais,

De matéria vencida,

Longínqua e inativa.

 

Vêm, inúteis forças

Solicitar em nós

As dores e os cansaços,

Que nos tiram da mão,

Como a um bêbedo mole,

A taça da alegria.

 

Vêm fazer-nos crer,

Despeitadas ruínas

De primitivas forças,

Que o mundo é mais extenso

Que o que se vê e palpa,

Para que ofendamos

A Júpiter e a Apolo.

 

Assim até à beira

Terrena do horizonte

Hiperion no crepúsculo

Vem chorar pelo carro

Que Apolo lhe roubou.

 

E o poente tem cores

Da dor dom deus longínquo,

E ouve-se soluçar

Para além das esferas...

Assim choram os deuses.

 

12-6-1914

 

In “Odes de Ricardo Reis”

(Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor)

Ática, 1946 (imp.1994)

Pág. 16

 

Ricardo Reis

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

 

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Segunda-feira, 1 de Junho de 2020

Recordando... Ricardo Reis

VOU DORMIR, DORMIR, DORMIR

 

Nirvana

 

 

Vou dormir, dormir, dormir,

Vou dormir sem despertar,

Mas não dormir sem sentir

Que estou dormindo a sonhar.

 

Não insciência e só treva

Mas também estrelas a abrir

Olhos cujo olhar me enleva,

Que estou sonhando a dormir.

 

Constelada inexistência

Em que subsiste de meu

Só uma abstracta insciência

Una com estrelas e céu.

 

20-2-1928

 

In “Poemas de Ricardo Reis” 

Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte

Imprensa Nacional - Casa da Moeda - 1994

 

Ricardo Reis

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Sábado, 1 de Junho de 2019

Recordando... Ricardo Reis

AQUI, NESTE MISÉRRIMO DESTERRO

 

Aqui, neste misérrimo desterro

Onde nem desterrado estou, habito,

Fiel, sem que queira, àquele antigo erro

Pelo qual sou proscrito.

O erro de querer ser igual a alguém

Feliz, em suma — quanto a sorte deu

A cada coração o único bem

De ele poder ser seu.

 

6-4-1933

 

In “Odes de Ricardo Reis”

Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor

Ática, 1946 (imp.1994)

Pág. 153

 

Ricardo Reis

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Quinta-feira, 7 de Junho de 2018

Recordando... Ricardo Reis

DE NOVO TRAZ AS APARENTES NOVAS

 

De novo traz as aparentes novas

Flores o verão novo, e novamente

Verdesce a cor antiga

Das folhas redivivas.

Não mais, não mais dele o infecundo abismo,

Que mudo sorve o que mal somos, torna

À clara luz superna

A presença vivida.

Não mais; e a prole a que, pensando, dera

A vida da razão, em vão o chama,

Que as nove chaves fecham,

Da Estige irreversível.

O que foi como um deus entre os que cantam,

O que do Olimpo as vozes, que chamavam,

‘Scutando ouviu, e, ouvindo,

Entendeu, hoje é nada.

Tecei embora as, que teceis, Grinaldas.

Quem coroais, não coroando a ele?

Votivas as deponde,

Fúnebres sem ter culto. 

Fique, porém, livre da leiva e do Orco,

A fama; e tu, que Ulisses erigira,

Tu, em teus sete montes,

Orgulha-te materna,

Igual, desde ele às sete que contendem

Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,

Ou heptápila Tebas

Ogígia mãe de Píndaro. 

 

In “Poesia”

Ed. Manuela Parreira da Silva

Assírio & Alvim

 

Ricardo Reis

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Segunda-feira, 19 de Junho de 2017

Recordando... Ricardo Reis

AMO O QUE VEJO PORQUE DEIXAREI

 

Amo o que vejo porque deixarei

Qualquer dia de o ver.

Amo-o também porque é.

 

No plácido intervalo em que me sinto,

Do amar, mais que ser,

Amo o haver tudo e a mim.

 

Melhor me não dariam, se voltassem,

Os primitivos deuses,

Que também, nada sabem.

11-10-1934

 

In “Poemas de Ricardo Reis”

Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte

Imprensa Nacional - Casa da Moeda - 1994

 

Ricardo Reis

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Terça-feira, 7 de Junho de 2016

Recordando... Ricardo Reis

PONHO NA ALTIVA MENTE O FIXO ESFORÇO

 

Ponho na altiva mente o fixo esforço

       Da altura, e à sorte deixo,

       E às suas leis, o verso;

Que, quando é alto e régio o pensamento,

       Súbdita a frase o busca

       E o escravo ritmo o serve.

 

Odes de Ricardo Reis

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” - 3ª. Edição

Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses - Editora Ulisses

Pág. 134

 

Ricardo Reis

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Terça-feira, 30 de Junho de 2015

Recordando... Ricardo Reis

NÃO SÓ QUEM NOS ODEIA OU NOS INVEJA

 

Não só quem nos odeia ou nos inveja

Nos limita e oprime; quem nos ama

               Não menos nos limita.

Que os deuses me concedam que, despido

De afectos, tenha a fria liberdade

               Dos píncaros sem nada.

Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada

É livre; quem não tem, e não deseja,

               Homem, é igual aos deuses.

 

Odes de Ricardo Reis

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” - 3ª. Edição

Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses - Editora Ulisses

 

Ricardo Reis/Fernando Pessoa

(1888 - 1935)

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Segunda-feira, 30 de Junho de 2014

Recordando... Ricardo Reis

LENTA, DESCANSA A ONDA QUE A MARÉ DEIXA

 

Lenta, descansa a onda que a maré deixa.

Pesada cede. Tudo é sossegado.

      Só o que é de homem se ouve.

      Cresce a vinda da lua.

Nesta hora, Lídia ou Neera Ou Cloe,

Qualquer de vós me é estranha, que me inclino

      Para o segredo dito

      Pelo silêncio incerto.

Tomo nas mãos, como caveira, ou chave

De supérfluo sepulcro, o meu destino,

      E ignaro o aborreço

      Sem coração que o sinta.

 

6 - 7 - 1927

 

(Odes de Ricardo Reis)

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética”

3ª. Edição – Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses

Editora Ulisses

 

Ricardo Reis/Fernando Pessoa

1887 – 1936

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Segunda-feira, 21 de Junho de 2010

Recordando... Ricardo Reis/Fernando Pessoa

PREFIRO ROSAS

 

Prefiro rosas, meu amor, à pátria, 
E antes magnólias amo 
Que a glória e a virtude. 

Logo que a vida me não canse, deixo 
Que a vida por mim passe 
Logo que eu fique o mesmo. 

Que importa àquele a quem já nada importa 
Que um perca e outro vença, 
Se a aurora raia sempre, 

Se cada ano com a Primavera 
As folhas aparecem 
E com o Outono cessam? 

E o resto, as outras coisas que os humanos 
Acrescentam à vida, 
Que me aumentam na alma? 

Nada, salvo o desejo de indif’rença 
E a confiança mole 
Na hora fugitiva. 

 

 

Odes de Ricardo Reis

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” – 3ª. Edição

Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses

Editora Ulisses

 

Ricardo Reis/Fernando Pessoa

1887 – 1935

 

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