Sábado, 25 de Janeiro de 2020

Recordando... Fernanda Seno

PERENIDADE

 

Mesmo depois do Tempo

ficaremos no coração aberto dos

que amamos.

 

E no grande silêncio que restar,

na ausência dos gestos e do olhar

ainda assim estaremos

e seremos.

 

Mesmo depois do Tempo

quando formos lembrança evanescente,

seremos outra forma de presença

porque o Amor subsiste

Eternamente.

 

In “As palavras às vezes”

 

Fernanda Seno

(1942-1996)

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Domingo, 19 de Janeiro de 2020

Recordando... Eduardo Guerra Carneiro

O PÓ NOS PASSEIOS

 

O pó nos passeios com vagar

se ergue. A luz é mais nítida.

Os corpos se mostram. Em algumas

praias residem dialectos. Turismo

nos marca com ferro diferente

em costumes e fala. Nas ruas se vende

o jornal da estranja. O burro

ainda merca. Alfarroba em bolsa.

O pó nos passeios com vagar

se ergue. A luz ainda é nítida.

Só de certo modo. Só em certas terras.

Turismo na farda. No bolso o desdém.

 

In "Algumas Palavras"

Nova Realidade

 

Eduardo Guerra Carneiro

(1942-2004)

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Segunda-feira, 13 de Janeiro de 2020

Recordando... António de Sousa

ESQUEMA

 

ASA - Mas não de perto,

que de perto não vôo,

vou de rastos.

Anjo deserto,

são as asas, primeiro, que me rôo

ao silêncio dos astros.

 

(Quanto pode esta fome de viver

que de mim se sustenta e me sustém!

Tudo o que é não-morrer

me sabe bem).

 

In “Linha de Terra”

Editorial Inquérito – 1952

 

António de Sousa

(1898-1981)

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Terça-feira, 7 de Janeiro de 2020

Recordando... José Duro

EM BUSCA

 

Ponho os olhos em mim, como se olhasse um estranho,
E choro de me ver tão outro, tão mudado...
Sem desvendar a causa, o íntimo cuidado
Que sofro do meu mal - o mal de que provenho.

Já não sou aquele Eu do tempo que é passado,
Pastor das ilusões perdi o meu rebanho,
Não sei do meu amor, saúde não na tenho,
E a vida sem saúde é um sofrer dobrado.

A minh’alma rasgou-ma o trágico Desgosto
Nas silvas do abandono, à hora do sol-posto,
Quando o azul começa a diluir-se em astros...

E à beira do caminho, até lá muito longe,
Como um mendigo só, como um sombrio monge,
Anda o meu coração em busca dos seus rastros...

 

In “Fel”

Guimarães Editores


José Duro

(1873-1899)

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Quarta-feira, 1 de Janeiro de 2020

Recordando... António Cândido Franco

MANHÃ ETERNA

 

Terra, mas terra extensa, de longes baços

terra de além

que se alonga e se despedaça em ondas

mas ondas de verdura

nos horizontes.

Terra sem fim, a desfazer-se em fumos.

Além que se desfaz em odores

e em névoas.

Terra, mas terra forte e luminosa

capaz de germinar no seio astros.

Planície que se evapora na altura

enxuta em sol.

Terra de corredores internos

subterrâneos cheios de luz.

Ouro potável, castanho e solar.

Searas extensas como céus.

Grãos luminosos e ardentes, sementes

que se espalham pela terra como cometas.

Terra celeste, flor astral

onde a noite acorda pelo Abril do dia.

Terra de luz, cheia de ouro

que estremece como uma estrela.

 

In “Estrela Subterrânea”

Editora Limiar

 

António Cândido Franco

(N.1956)

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Terça-feira, 31 de Dezembro de 2019

Recordando... Paulo Teixeira

AUTO-DE-FÉ

 

Quando o amor é como os papéis velhos

e anseia por mais arte que a do poema

o coração é forno onde ardem as palavras.

 

Nesse dia elas foram, amarradas com barbante,

viúvas precipitando-se dentro da pira.

Fiquei a vê-las abrirem-se como pétalas

para logo definharem a meus olhos

numa florescência não cumprida.

O seu frémito era ainda uma ânsia minha.

 

Remexi as cinzas, agitei o ar com as mãos.

Vi como um poema se mostra servil ante o fogo.

E pensei: ardessem também os meus dedos!

Para que o poema não deixe crias ao morrer

e não mais confira o direito à vida

do que nele vai escrito.

 

Porque o amor é a arte que fica além do poema,

no dia em que não escrever mais poemas

sei que o amor resgatará o meu corpo da chama.

 

In "Autobiografia Cautelar"

Gótica - 2001

 

Paulo Teixeira

(N.1962)

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Quarta-feira, 25 de Dezembro de 2019

Recordando... Miguel Torga

NATAL

 

Ninguém o viu nascer.

Mas todos acreditam

Que nasceu.

É um menino e é Deus.

Na Páscoa vai morrer, já homem,

Porque entretanto cresceu

E recebeu

A missão singular

De carregar a cruz da nossa redenção.

Agora, nos cueiros da imaginação,

Sorri apenas

A quem vem,

Enquanto a Mãe,

Também

Imaginada,

Com ele ao colo,

Se enternece

E enternece

Os corações,

Cúmplice do milagre, que acontece

Todos os anos e em todas as nações.

 

In “Diários - Volumes XIII a XVI”

Publicações Dom Quixote

 

Miguel Torga **

(1907-1995)

 

** Pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Quinta-feira, 19 de Dezembro de 2019

Recordando... Cecília Vilas Boas

INQUIETUDE

 

Ouço-te silêncio.

Diz-me o que sinto

O que anseio

O que me sufoca!

 

Esta inquietude permanente

Sem razão aparente de ser

O vazio profundo

Do querer e não querer.

Estou aqui

Vou, não sei onde

De onde venho, não recordo!

 

Nas horas aladas do desencontro

Fecho as pálpebras da vida

Perfumo de tomilho a alma

E parto, nas pétalas dos lírios brancos.

 

In "O Eco do Silêncio"

Esfera do Caos Editores

 

Cecília Vilas Boas

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Sexta-feira, 13 de Dezembro de 2019

Recordando... António Ramos Rosa

AS PALAVRAS TÊM ROSTO…

 

As palavras têm rosto: ou de silêncio ou de sangue.

O cavalo que nos domina é uma sombra apenas.

Sem sílabas de água, avança até ao outono.

Uma árvore estende os ramos. As nuvens subsistem.

 

O cavalo é uma hipótese, uma paixão constante

Na rede das suas veias corre um sangue de tempo,

uma árvore se desloca com a alegria das folhas.

Árvore e cavalo transformam-se num só ente real.

 

Eu que acaricio a árvore sinto a força tenaz

da testa do cavalo, a eternidade férrea,

o ser em explosão e eu tão leve folha

 

na sombra deste ser animal vegetal

busco a razão perfeita, a humildade estática,

a força vertical de ser quem sou e o ar.

 

In "Círculo Aberto"

Ed. Caminho

 

António Ramos Rosa

(1924-2013)

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Sábado, 7 de Dezembro de 2019

Recordando... Eugénio de Andrade

CANÇÃO

 

Tu eras neve.

Branca neve acariciada.

Lágrima e jasmim

no limiar da madrugada.

 

Tu eras água.

Água do mar se te beijava. 

Alta torre, alma, navio,

adeus que não começa nem acaba.

 

Eras o fruto

nos meus dedos a tremer.

Podíamos cantar

ou voar, podíamos morrer.

 

Mas do nome

que maio decorou,

nem a cor

nem o gosto me ficou.

 

In “As palavras Interditas - Até Amanhã”

Assírio & Alvim

 

Eugénio de Andrade **

(1923-2005)

 

** Pseudónimo de José Fontinhas

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito

.Eu

.pesquisar

 

.Janeiro 2020

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
14
15
16
17
18
20
21
22
23
24
26
27
28
29
30
31

.Ano XIII

.posts recentes

. Recordando... Fernanda Se...

. Recordando... Eduardo Gue...

. Recordando... António de ...

. Recordando... José Duro

. Recordando... António Cân...

. Recordando... Paulo Teixe...

. Recordando... Miguel Torg...

. Recordando... Cecília Vil...

. Recordando... António Ram...

. Recordando... Eugénio de ...

.arquivos

. Janeiro 2020

. Dezembro 2019

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

.tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds