Sexta-feira, 25 de Setembro de 2020

Recordando... Isabel de Sá

AO RECEBER A NOTÍCIA

 

Ao receber a notícia

primeiro senti a cabeça vazia,

uma espécie de lodo

a enrolar-me o cérebro.

Depois pensei na traição

da vida. Olhei em redor;

a casa em ordem, o silêncio

e as fotografias. Sucederam-se

os gestos quotidianos,

lavei o rosto e a água

quente deu-me a impressão

de "me curar da mentira

[de um amor que acaba".

 

A noite foi difícil,

pensei até que não dormiria.

Mas não, o dia chegou

e como habitualmente tinha

fome, preparei-me

para viver, embora

com a impressão de que algo

se quebrou dentro de mim.

Não morri e reparei

que continuava a chover.

 

In “Repetir o Poema”

Quasi Edições

 

Isabel de Sá

(N.1951)

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Sábado, 19 de Setembro de 2020

Recordando... Frei Agostinho da Cruz **

DA ORAÇÃO

 

Doce quietação de quem vos ama,

Em serviços, Senhor, que tanto quanto

Amado sois, tão longe o fim de tanto,

Subindo mais, e mais, mais se derrama:

 

Ardendo por arder em viva chama

De amor do vosso amor, a voz levanto;

Sinto, suspiro, choro, colho, e planto

Ao som doutra suave que me chama.

 

Onde se vai, Senhor, quem vos ofende?

Donde levais, Deus meu, a quem vos segue?

Onde fugir se pode uma de duas?

 

Morto por quem o mata que pretende,

Ou que extremos de amor há que nos negue

Quem culpas nossas chama ofensas suas?

 

In “Sonetos”

 

Frei Agostinho da Cruz **

(1540-1619)

 

** Nome de baptismo Agostinho Pimenta

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Domingo, 13 de Setembro de 2020

Recodando... Jorge de Sena

COMO QUEIRAS, AMOR...

 

Como queiras, Amor, como tu queiras.

Entregue a ti, a tudo me abandono,

seguro e certo, num terror tranquilo.

A tudo quanto espero e quanto temo,

entregue a ti, Amor, eu me dedico.

 

Nada há que eu não conheça, que eu não saiba,

e nada, não, ainda há por que eu não espere

como de quem ser vida é ter destino.

 

As pequeninas coisas da maldade, a fria

tão tenebrosa divisão do medo

em que os homens se mordem com rosnidos

de malcontente crueldade imunda,

eu sei quanto me aguarda, me deseja,

e sei até quanto ela a mim me atrai.

 

Como queiras, Amor, como tu queiras.

De frágil que és, não poderás salvar-me.

Tua nobreza, essa ternura tépida

quais olhos marejados, carne entreaberta,

será só escárneo, ou, pior, um vão sorriso

em lábios que se fecham como olhares de raiva.

Não poderás salvar-me, nem salvar-te.

Apenas como queiras ficaremos vivos.

 

Será mais duro que morrer, talvez.

Entregue a ti, porém, eu me dedico

àquele amor por qual fui homem, posse

e uma tão extrema sujeição de tudo.

 

Como tu queiras, meu Amor, como tu queiras.

 

In “Post-Scriptum”

 

Jorge de Sena

(1919-1978)

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Segunda-feira, 7 de Setembro de 2020

Recordando... Noel Ferreira **

ABC ERÓTICO

 

Abre-te!

Beija-me!

Cobre-me!

 

Amar-te é volúpia

Brincar é malicia

Carícia é pingo de mel.

 

Ai!

Basta!

Cala-te!

 

Abraço-te, queres?

Belisco-te, gostas?

Colo-me a ti, einh?

 

Ah!

Biscoito

Crocante!

 

Às nuvens subi

Bebendo o teu néctar

Crescendo-me em ti!

 

Ata-me!

Bebe-me!

Come-me!

 

Agora imparável

Brutalmente bom

Cada vez melhor!

 

In “Descontinuidades”

 

Noel Ferreira **

(N.1938)

 

** Pseudónimo de Orlando Manuel Ferreira Caetano

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Terça-feira, 1 de Setembro de 2020

Recordando... Serafim Leite

O CÁRCERE DO EGOÍSMO

 

Um homem ontem vi, que estava preso

Numa prisão estranha.

 

- «Quem te prendeu?» - lhe perguntei surpreso.

- «Ninguém. Sou livre» E, numa rude sanha,

arrogante retruca: - «É puro engano!

O preso não sou eu. Tu é que vais,

às mãos do vil tirano,

preso e bem preso,

para sempre jamais»…

 

A todo o homem agrilhoa o jugo

do egoísmo.

Mas – forte vezo,

incônscio servilismo! –

a garra adunca

dum tal verdugo

nos outros vemo-la. E em nós mesmo? – Nunca.

 

In “Do Homem e da Terra” – Poemas – 1932

Edições “Brotéria” – Lisboa

 

Serafim Leite

(1880-1969)

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Segunda-feira, 31 de Agosto de 2020

Recordando... Inês Lourenço

MAMOGRAFIA DE MÁRMORE

 

Deliciam-me as palavras

dos relatórios médicos, os nomes cheios

de saber oculto e míticos lugares

como a região sacro-lombar ou o tendão de Aquiles.

 

Numa mamografia de rastreio,

a incidência crânio-caudal seria

um bom título para uma tese teológica.

 

Alguns poetas falam disso. Pneumotórax

de Manuel Bandeira ou Electrocardiograma

de Nemésio, para não referir os vermelhos de hemoptise

de Pessanha ou as engomadeiras tísicas

de Cesário.

 

Mas nenhum(a) falou (ou fala)

de mamografia de rastreio. Versos dignos

só os de mamilo róseo desde o tempo

de Safo ou de Penélope. E, de Afrodite

enquanto deusa , só restaram óleos e

mamografias de mármore.

 

In “Coisa que Nunca”

Editora & etc

 

Inês Lourenço

(N.1942)

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Terça-feira, 25 de Agosto de 2020

Recordando... António de Macedo Papança (Conde de Monsarás)

AS ARCAS DE MONTEMOR

 

Entre escombros, na rudeza

De vetusta fortaleza,

Batidas do vento agreste,

Empedernidas, cerradas,

Há duas arcas, pejadas

Uma de oiro, outra de peste.

 

Ninguém sabe ao certo qual

Das duas arcas encerra

O fecundo manancial

Que fartará de oiro a terra

Mesquinha de Portugal,

 

Ou qual, se mão imprudente

Lhe erguer a tampa funérea,

Vomitará de repente

A fome, a febre, a miséria,

Que matarão toda a gente!

 

E nestas perplexidades,

E eternas hesitações,

Têm decorrido as idades,

Têm passado as gerações;

Nas guerras devastadoras

Nas lutas brutais e ardentes

Entre as nações invasoras

E as povoações resistentes,

 

Nunca Romanos nem Godos,

Nem Árabes nem Cristãos,

Duros na alma e nos modos,

Rudes no aspecto e no trato,

Chegaram ao desacato

De lhes tocar pelas mãos...

 

Sempre que o povo faminto,

Maltrapilho e miserando,

Fosse ele Cristão ou Moiro,

Entrou no tosco recinto

Para salvar-se arrombando

A arca pejada de oiro,

 

Quedou-se, os braços erguidos,

O olhar atónito e errante,

Sem atinar de que lado

Vinha morrer-lhe aos ouvidos

Uma voz de agonizante,

Entre ameaças e gemidos:

«Ó povo de Montemor,

Se estás mal, se és desgraçado,

Suspende, toma cuidado,

Que podes ficar pior!»

 

E nestas perplexidades,

E eternas hesitações,

Hão-de passar as idades,

Suceder-se as gerações,

E continuar na rudeza

Da vetusta fortaleza,

Batidas do vento agreste,

Empedernidas, cerradas,

As duas arcas, pejadas

Uma de oiro, outra de peste.

 

In “Leituras (Segundo Tomo)”

Para o Ensino Técnico

1ª Edição - Livro Único

 

António de Macedo Papança

Conde de Monsarás

(1853-1913)

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Quarta-feira, 19 de Agosto de 2020

Recordando... Carlos Queirós

DESAPARECIDO

 

Sempre que leio nos jornais:

«De casa de seus pais desapar’ceu...»

Embora sejam outros os sinais,

Suponho sempre que sou eu.

 

Eu, verdadeiramente jovem,

Que por caminhos meus e naturais,

Do meu veleiro, que ora os outros movem,

Pudesse ser o próprio arrais.

 

Eu, que tentasse errado norte;

Vencido, embora, por contrário vento,

Mas desprezasse, consciente e forte,

O porto do arrependimento.

 

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!

- Livre o instinto, em vez de coagido.

«De casa de seus pais desapar’ceu...»

Eu, o feliz desaparecido!

 

In “Desaparecido e Outros Poemas”

Livraria Bertrand - 1950

 

Carlos Queirós

(1907-1949)

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Quinta-feira, 13 de Agosto de 2020

Recordando... Luís Amaro

CANÇÃO EFÉMERA

 

Meu sonho dum momento

Que o engano teceu

E um imperceptível vento

Nas asas envolveu...

 

Nem fixei a imagem

Ora desfeita e vã:

Ondula na aragem,

Faz parte da manhã.

 

Quando passou seu rosto

Impressentido, breve,

Que a nuvem dum desgosto

Não fixou nem teve,

 

Logo uma luz ardente

Em minha alma nasceu:

Imagem finda, ausente,

Dum sonho que foi meu!

 

In “ÁRVORE ”

Folhas de Poesia

Direcção e Edição de António Luís Moita, António Ramos Rosa,

José Terra, Luís Amaro, Raul de Carvalho

1.º Fascículo - Outono de 1951

Pág. 59

 

Luís Amaro

(1923-2018)

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Sexta-feira, 7 de Agosto de 2020

Recordando... Gomes Leal

CARTA AO MAR

 

Deixa escrever-te, verde mar antigo,

Largo Oceano, velho deus limoso,

Coração sempre lyrico, choroso,

E terno visionario, meu amigo!

 

Das bandas do poente lamentoso

Quando o vermelho sol vae ter comtigo,

- Nada é mais grande, nobre e doloroso,

Do que tu, - vasto e humido jazigo!

 

Nada é mais triste, tragico e profundo!

Ninguem te vence ou te venceu no mundo!...

Mas tambem, quem te poude consollar?!

 

Tu és Força, Arte, Amor, por excellencia! -

E, comtudo, ouve-o aqui, em confidencia;

- A Musica é mais triste inda que o Mar!

 

(Mantém a grafia original)

 

In "Claridades do Sul"

 

Gomes Leal

(1848-1921)

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