Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2023

Recordando... Ruy Belo

OS ESTIVADORES

 

Só eles suam mas só eles sabem

o preço de estar vivo sobre a terra

Só nessas mãos enormes é que cabem

as coisas mais reais que a vida encerra

 

Outros rirão e outros sonharão

podem outros roubar-lhes a alegria

mas a um deles é que chamo irmão

na vida que em seus gestos principia

 

Onde outrora houve o deus e houve a ninfa

eles são a moderna divindade

e o que antes era pura linfa

é o que sobra agora da cidade

 

Vede como alheios a tudo o resto

compram com o suor a claridade

e rasgam com a decisão do gesto

o muro oposto pela gravidade

 

Ode marítima é que chamo à ode

escrita ali sobre a pedra do cais

A natureza é certo muito pode

mas um homem de pé pode bem mais

 

In “Os Estivadores” 1974

 

Ruy Belo

(1933-1978)

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Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2023

Recordando... António Gedeão **

A UM TI QUE EU INVENTEI

 

Pensar em ti é coisa delicada.

É um diluir de tinta espessa e farta

e o passá-la em finíssima aguada

com um pincel de marta.

 

Um pesar grãos de nada em mínima balança,

um armar de arames cauteloso e atento,

um proteger a chama contra o vento,

pentear cabelinhos de criança.

 

Um desembaraçar de linhas de costura,

um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,

um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

 

Penso em ti com tamanha ternura

como se fosses vidro ou película de loiça

que apenas com o pensar te pudesses partir.

 

[Máquina de Fogo, 1961]

 

In “Poesia Completa - António Gedeão”

Edições João Sá da Costa, Lda.

 

António Gedeão **

(1906-1997)

 

** Pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho

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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2023

Recordando... António de Navarro

POEMA

 

Na tarde,

Aquela flor...

Na tarde,

Aquele mendigo...

Na tarde a sombra das minhas mãos

– Esperando que religião

E que abrigo?!

Na tarde,

A flor cinerária da tarde

A desfolhar-se na vida que me arde.

...Na tarde,

Aquele mendigo...

 

In “Ave de Silêncio”

Editora Portugália

 

António de Navarro

(1902-1980)

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Sábado, 7 de Janeiro de 2023

Recordando... Rosa Lobato de Faria

E DE NOVO A ARMADILHA DOS ABRAÇOS

 

E de novo a armadilha dos abraços.

E de novo o enredo das delícias.

O rouco da garganta, os pés descalços

a pele alucinada de carícias.

 

As preces, os segredos, as risadas

no altar esplendoroso das ofertas.

De novo beijo a beijo as madrugadas

de novo seio a seio as descobertas.

 

Alcandorada no teu corpo imenso

teço um colar de gritos e silêncios

a ecoar no som dos precipícios.

 

E tudo o que me dás eu te devolvo.

E fazemos de novo, sempre novo

o amor total dos deuses e dos bichos.

 

In "Poemas escolhidos e dispersos"

Roma Editora

 

Rosa Lobato de Faria

(1932-2010)

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Domingo, 1 de Janeiro de 2023

Recordando... Reinaldo Ferreira

VISITAÇÃO

 

Que é do anjo das asas rutilantes

Com que lutou Jacob, na madrugada?

Que é desse outro, de falas sussurrantes,

Que surgiu a Maria, a fecundada,

 

Tão casta e sem pecado como dantes?

Que é da estrela, pela mão de Deus lançada

A guiar os incertos caminhantes

Ao colmo da cabana consagrada?

 

Onde estão os sinais que Deus envia?

Onde estão, que os procuro noite e dia

Sem nunca ver cumprido o meu desejo?

 

Não os vejo e não sei se eu, que os procuro,

Os não encontro porque sou impuro,

Ou sou impuro porque os não vejo.

 

(Livro III)

 

In “Poetas de Hoje”

Portugália Editora

 

Reinaldo Ferreira

(1922-1959)

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Sábado, 31 de Dezembro de 2022

Recordando... Fernando Namora

UM SEGREDO

 

Meu pai tinha sandálias de vento

só agora o sei.

Tinha sandálias de vento

e isto nem sequer é uma maneira de dizer

andava por longe os olhos fugidos a expressão em

                                                 [nenhures

com as miraculosas instantaneidades que nos fazem

                                           [estar em todos os sítios.

 

Andava por longe meu pai sonhando errando vadiando

mas toda a sua ausência era

o malogro de o ser

só agora o sei.

Andava por longe ou sentíamo-lo longe

vem dar no mesmo

e no entanto víamo-lo sempre

ali plantado de imobilidade absorta

no cepo de carvalho raiado de negro

a que o caruncho comera o miolo

como as lagartas esvaziam as maçãs

estranhamente quieto murcho resignado

no seu estranho vadiar

os olhos aguados numa tristeza que hoje me dói

como um apelo perdido uma coragem abortada.

Ausência era tão de mágoa urdida tão de fracasso

                                                [tingida

ausência era

altiva e desolada altiva e triste sobretudo triste

tristeza sim tristeza solene e irremediada

só agora o sei.

 

Às vezes parecia-me uma águia que atravessa os ares

sulco azul

que nada distingue do azul onde foi sulcado

e por isso nem é águia nem ao menos

o que do seu voo resta para que

o sonho se faça real.

Meu pai era um homem com as nostalgias

do que nunca acontecera e isso minava-o víscera a

                                              [víscera

como as tais lagartas esfarelam as maçãs

e então sei-o agora calçava as ágeis sandálias

miraculosamente leves soltas imaginosas

indo de acaso em acaso de astro em astro

eram de vento as suas sandálias fabulosas

levando-o aonde mais ninguém poderia chegar.

 

Os outros não o sabiam nem eu o sabia

só o víamos sentado no cepo velho

raiado de negro como uma estrela fossilizada

por isso tudo era para ele mais irremediável e triste

sei-o agora tarde de mais

tarde de mais é uma dor de remorso

que me consome víscera a víscera

como as tais lagartas esfarelam as maçãs.

Mas de qualquer maneira existe um segredo

de que ambos partilhamos

ciosamente avaramente indecifradamente

como os astutos conspiradores

que fazem do seu segredo

um mágico tesouro inviolado.

 

Um segredo simples:

o que sentiste pai

sinto-o eu agora por ambos

sinto-o por ti

sinto-o por mim.

 

Ainda que por ele devorados.

 

In “Nome Para Uma Casa”

Livraria Bertrand

 

Fernando Namora

(1919-1989)

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Domingo, 25 de Dezembro de 2022

Recordando... Norberto Martins

NATAL

 

Na quadra do Natal

Neste nosso Portugal

Em todo o mundo também

É só amor e carinho

Ajuda-se o pobrezinho

Não se esquece ninguém

 

Para familiares e amigos

Os novos e os antigos

Dão-se prendas e presentes

Mas esquece-se em seguida

Continua a ser esquecida

As pessoas doentes

 

É assim em toda a terra

Fazem-se tréguas na guerra

Que acabam no outro dia

Volta o ódio e a vingança

Acabou-se a esperança

Terminou a alegria

 

Ó quanta hipocrisia

E alguma cobardia

No pensamento humano

Carinho e amor no Natal

Mas depois continua o mal

O resto de todo o ano

 

Amar como Jesus amou

Sonhar como ele sonhou

Ajudar o nosso irmão

Diga-mos não à guerra

Para que tenhamos paz na terra

Sem sacrifício nem opressão

 

O Natal deveria ser

E ninguém se esquecer

Todos os dias do ano

Para sempre nos amar

Toda a gente se respeitar

Nisto não há engano

 

In “União dos Escritores e Artistas

Transmontanos e Altodurienses – UNEARTA”

Revista mensal - N.º 13 - Ano 2 - Janeiro 2003

 

Norberto Martins

(Poeta popular)

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Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2022

Recordando... Armando Vieira de Barros

SERÁ QUE PERCEBE

 

Será que percebe, então,

o sopro leve

que passa breve

a rondar p'la escuridão?

Por si roçando

de quando em quando

como carícia de mão;

depois, baixinho,

grave, mansinho,

num múrmurio modulado

e segredante

de voz distante

de algo fluído, alado,

nunca visível,

só perceptível

e presente em todo o lado

como louco vagabundo,

ora dançando

ou sussurrando,

a girar livro p'lo mundo

 

In "Este Sol que me Aquece"

 

Armando Vieira de Barros

(N.1929)

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Terça-feira, 13 de Dezembro de 2022

Recordando... Beatriz Arnut

O PRAZER E O DESGOSTO

 

– Quem és tu, homem lindo e poderoso,

que a rir passas assim tão apressado,

deitando-me um olhar tão desdenhoso?

 

– Sou o prazer e vou p’ra outro lado!

 

– E tu homem descalço e esfarrapado,

que amargurado vens a caminhar.

Fitando-me amoroso e apaixonado?

 

– Sou o desgosto e venho p’ra o teu lar!

 

(Saudade)

 

In “Poetisas de Hoje”

Editora Empreza do Díarío de Notícias - 1931

 

Beatriz Arnut

(1892-1958)

 

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Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2022

Recordando... A.M. Pires Cabral

AS PROSTITUTAS

 

Naquele tempo,

elas desciam à vila, as prostitutas –

a única saída,

exactíssima resposta para a nossa

angústia seminal acumulada.

Vinham de Vale da Porca, ou outra

terra assim pasmada.

Traziam na cabeça lenços garridos,

na carteira de mão a triste história:

a sedução primária, a miséria espessa,

mas jamais o vício mercenário.

Nas eiras recebiam as nossas águas,

de permeio plantados como reis.

Procuravam lisonjeiras acertar

seu êxtase fingido com o nosso.

Beijavam-nos, diziam: tão novinho!

Suportavam-nos insultos e arremessos.

Com a mão experiente (mas não habituada)

guiavam-nos na bela, impreterível,

urgente aprendizagem,

concediam-nos crédito e carinho –

as tão castas mulheres,

as prostitutas.

 

Algures a Nordeste (1974)

 

In “Artes Marginais”

Antologia poética

Guimarães Editores -1998

 

A.M. Pires Cabral

(N.1941)

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