Terça-feira, 19 de Junho de 2018

Recordando... Alberto Caeiro

ONTEM O PREGADOR DE VERDADES DELE

 

Ontem o pregador de verdades dele

Falou outra vez comigo.

Falou do sofrimento das classes que trabalham

(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).

Falou da injustiça de uns terem dinheiro,

E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer,

Ou se é só fome da sobremesa alheia.

Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.

 

Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros!

Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles,

E não se cura de fora,

Porque sofrer não é ter falta de tinta

Ou o caixote não ter aros de ferro!

 

Haver injustiça é como haver morte.

Eu nunca daria um passo para alterar

Aquilo a que chamam a injustiça do mundo.

Mil passos que desse para isso

Eram só mil passos.

Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda,

E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.

 

Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais.

Para qual fui injusto — eu, que as vou comer a ambas?

 

[Poemas Inconjuntos]

 

In “Poesia”

Ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith

Assírio & Alvim

 

Alberto Caeiro

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Quarta-feira, 13 de Junho de 2018

Recordando... Fernando Pessoa

EU AMO TUDO O QUE FOI   

 

Eu amo tudo o que foi,

Tudo o que já não é,

A dor que já me não dói,

A antiga e errónea fé,

O ontem que dor deixou,

O que deixou alegria

Só porque foi, e voou

E hoje é já outro dia.

 

1931

 

In “Poesias Inéditas (1930-1935)”  

Nota prévia de Jorge Nemésio

Editora Ática - 1990

 

Fernando Pessoa

(1888-1935)

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Quinta-feira, 7 de Junho de 2018

Recordando... Ricardo Reis

DE NOVO TRAZ AS APARENTES NOVAS

 

De novo traz as aparentes novas

Flores o verão novo, e novamente

Verdesce a cor antiga

Das folhas redivivas.

Não mais, não mais dele o infecundo abismo,

Que mudo sorve o que mal somos, torna

À clara luz superna

A presença vivida.

Não mais; e a prole a que, pensando, dera

A vida da razão, em vão o chama,

Que as nove chaves fecham,

Da Estige irreversível.

O que foi como um deus entre os que cantam,

O que do Olimpo as vozes, que chamavam,

‘Scutando ouviu, e, ouvindo,

Entendeu, hoje é nada.

Tecei embora as, que teceis, Grinaldas.

Quem coroais, não coroando a ele?

Votivas as deponde,

Fúnebres sem ter culto. 

Fique, porém, livre da leiva e do Orco,

A fama; e tu, que Ulisses erigira,

Tu, em teus sete montes,

Orgulha-te materna,

Igual, desde ele às sete que contendem

Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,

Ou heptápila Tebas

Ogígia mãe de Píndaro. 

 

In “Poesia”

Ed. Manuela Parreira da Silva

Assírio & Alvim

 

Ricardo Reis

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Quinta-feira, 31 de Maio de 2018

Recordando... Fernando Namora

EROSÃO

 

As terras envelhecem como as pessoas.

São meninas

são adultas

são caducas.

Dói ver morrer

mesmo sendo casas

pedras.

Dói que o silêncio

entre nas aurículas

e aí seja musgo

paz saqueada.

Dói tanta coisa:

até um western

numa cidade fantasma.

Dói tudo que finda

e a findar nos mata.

 

As terras envelhecem como as pessoas.

São hoje

são amanhã.

são ontem.

São futuro

são urtigas

são remorso.

São o próprio desejo

de acabar.

 

In “Marketing”

Publicações Europa-América

 

Fernando Namora

(1919-1989)

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Sexta-feira, 25 de Maio de 2018

Recordando... Sophia de Mello Breyner Andersen

PARA ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO

 

Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para enfrentarmos juntos o terror da morte

Para ver a verdade para perder o medo

Ao lado dos teus passos caminhei

 

Por ti deixei meu reino meu segredo

Minha rápida noite meu silêncio

Minha pérola redonda e seu oriente

Meu espelho minha vida minha imagem

E abandonei os jardins do paraíso

 

Cá fora à luz sem véu do dia duro

Sem os espelhos vi que estava nua

E ao descampado se chamava tempo

 

Por isso com teus gestos me vestiste

E aprendi a viver em pleno vento

 

In “Livro VI”

Livraria Morais Editora

 

Sophia de Mello Breyner Andersen

(1919-2004)

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Sábado, 19 de Maio de 2018

Recordando... Pedro Tamen

DEVAGAR TE AMO

 

Devagar te amo, e devagar assomo

os dedos à altura dos olhos, do cabelo

dos anéis de outro turno, que é só meu

por querê-lo, meu amor, como a ti mesma quero

nos tempos de passado e sem futuro.

Devagar avanço um dealbar de dias

que vida seriam - mesmo que morto, à noite,

eu voltasse amargurado mas presente,

calado e quedo, e devagar amando.

 

In “Rua de Nenhures”

Edições Dom Quixote

 

Pedro Tamen

(N.1934)

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Domingo, 13 de Maio de 2018

Recordando... Teresa Machado

SOU TODA TUA

 

Nua, nua

toda tua

vê-me assim!

Diz-me lá,

queres-me já?

Vens pra mim?

 

Faz-me amor,

dá calor

à amada.

Já transpiras

e respiras

madrugada!

 

Dás-me tanto

que é espanto

que te dou.

Se te canto

teu encanto

aumentou!

 

In “Com-sensual-idade”

Hugin Editores

 

Teresa Machado

(N. 1954)

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Segunda-feira, 7 de Maio de 2018

Recordando... Jorge Gomes Miranda

SEMENTEIRA

 

Com um garfo

separava

para uma saca de plástico

arroz,

pedacinhos de pescada,

carapau, chicharro;

as espinhas deitava-as ao lixo.

O melhor do conduto

era sempre para os gatos.

Semelhante ao poeta

que guarda a parte maior

da sua vida,

as palavras,

para o leitor.

 

In “Velhos”

Editora Teatro de Vila Real, 2008

 

Jorge Gomes Miranda

(N. 1965)

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Terça-feira, 1 de Maio de 2018

Recordando... Salette Tavares

SAIU COMIGO A NOITE

 

Saiu comigo a noite

pela estrada do destino desdobrada

saiu comigo a espera

na esquina do tempo arquitectada.

 

Caminhei pensamentos de miséria

no espaço dos horários

cresci na volta a forma que me dera

em ritos funerários.

 

Chamei a água viva do agora

num frasco sem remédio

e revi-me espectro folha da memória

à beira deste tédio.

 

Ai quanto peso de olhos abafado

se riu na sombra

do vinho face gesto deste fado

que a dor assombra.

 

Ai de quanto sórdido lugar onde se mente

em voz de mitos

pisam meus pés aqui tão castamente

os infinitos.

 

In "Obra Poética, 1957-1971 "

INCM - Imprensa Nacional-Casa da Moeda

 

Salette Tavares

(1922-1994)

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Segunda-feira, 30 de Abril de 2018

Recordando... Fernando Campos de Castro

NOS MEUS CANSAÇOS

 

Puxei o meu lençol e sinto frio

À procura de ti, amor amado

Só sinto a solidão e um vazio

No meu corpo despido e tão cansado

 

Apago a luz dos olhos e mais vejo

Suspensa a tua imagem aqui perto

E os dedos não acalmam o desejo

Que arde no meu corpo a céu aberto

 

É noite e a solidão na minha vida

É sombra que não quero e que me chama

E sinto que estou preso e sem saída

Nas grades da prisão da minha cama

 

Anda morrer amor nos meus cansaços

Nesta cama de frio que sou eu

Para sentir no fogo dos teus braços

Que o nosso grande amor nunca morreu

 

In “Os meus fados são teus fados”

Seda Publicações

 

Fernando Campos de Castro

(N. 1952)

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