Sexta-feira, 13 de Setembro de 2019

Recordando... Célia Moura

DESTINO

 

Minhas mãos

Que jamais tocaram teu corpo, mulher,

Saboreiam teu andar de cigana,

Descalço,

Sobre o trigo.

Esse trigo já maduro, já rebelde do perder da infância…

Meu amor de abandono e de segredo,

Qual absinto.

Rosa vermelha entre os seios…ombros largos de Abril.

Meu destino.

 

Guardo teu riso de euforia a despertar todas as alvoradas

Minha amante, meu suplício…

 

Guardo tuas lágrimas de menina como uma promessa

Nenúfar de luar.

…E no teu ventre por mim incendiado de ternura,

Mulher,

Resplandecerá Semente

Tal como o lavrador lançando o arado à terra,

Só para ser tua eira, teu caminho, tua vereda,

O próprio pó que acaricia teus pés,

E poder contemplar-te para sempre

Na gestação de um hino,

Ou num grito,

Que minhas mãos erguem à ventania num compasso

De sinfonia,

Este pão, este caminho parido como um filho,

Este diálogo entre o silêncio e a coragem,

Entre o sangue e a seiva de um povo num agitar de bandeira,

No teu ventre de Mulher.

 

In “Enquanto Sangram As Rosas…”

Edição do autor com apoio da C.M. Loures

 

Célia Moura

(N.1971)

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Sábado, 7 de Setembro de 2019

Recordando... António Vera

DENTRO DE MIM CAI A PEDRA

 

Dentro de mim cai a pedra

Que me arrasta para o fundo.

As pistolas inundadas

Deste amor de que me inundo

Só me pesam. Punhais de aço

O que podem contra água?

De tudo quanto era garra

Me desentrego e desfaço.

 

Ficam-me os olhos no espaço

E o coração por guitarra.

 

In “ÁRVORE ”

Folhas de Poesia

Direcção e Edição de António Luís Moita, António Ramos Rosa, José Terra, Luís Amaro, Raul de Carvalho

1.º Fascículo - Outono de 1951

Pág. 15

 

António Vera

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Domingo, 1 de Setembro de 2019

Recordando... Luís Pignatelli

SONETILHO PARA UMA ADOLESCENTE

 

Que vento norte

Na manhã do mar

Sopra teus seios

De flores de morte?

 

Que nuvem arde

Sobre o teu corpo

Teu corpo aberto

À tempestade?

 

Que vaga lua

Virá de noite

Doce tanagra

 

Pôr-te mais nua

Que a nua praia

Doce e amarga?

 

In "Obra Poética"

Organização, prefácio e notas de Zetho Cunha Gonçalves

Editora &etc - 1999

Pág. 84

 

Luís Pignatelli **

(1935-1993)

 

** Pseudónimo de Luís Oliveira de Andrade

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Sábado, 31 de Agosto de 2019

Recordando... Rita Wemans

INSEGURANÇAS

 

A lápis escrevo o que surge

num confuso emaranhado

de ideias indefinidas

é quase como pescar num cardume

um peixe de cada vez e

ficar a olhar para ele, como

se reflectisse a minha vida.

Escrevo a lápis porque já

nada para mim é certo

E porque me perco neste mundo

Só de ideias, fantasias e considerações

Não sei mais o que penso

Acerca das coisas às

vezes detesto-me por isso

 

In “Enchamos tudo de Futuros”

Editora Sopa de Letras

 

Rita Wemans

(1982-2002)

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Domingo, 25 de Agosto de 2019

Recordando... Vitorino Nemésio

ATÉ SEMPRE

 

Perdeste a lágrima, menino?

Quem afligiu a tua bola?

Pega lá vida, faz o pino:

Sempre o contrário nos consola.

 

A vida é péla, rasga a vida,

Que em mim já antes papel é.

Vê como a levo de vencida

Desde que nele escrevo, até...

 

Sempre, menino, até sempre!

No bibe o corpo; deixa! Lava-se

E não te esqueças, chuta sempre!

(Não chegou a chorar, mas preparava-se).

 

31.7.59

 

In “O Verbo e a Morte”

Morais Editora - 1959

 

Vitorino Nemésio

(1901-1978)

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Segunda-feira, 19 de Agosto de 2019

Recordando... Políbio Gomes dos Santos

VOZ QUE ESCUTA

 

Chamam-me lá em baixo.

São as coisas que não puderam decorar-me:

As que ficaram a mirar-me longamente

E não acreditaram;

As que sem coração, no relâmpago do grito,

Não puderam colher-me.

Chamam-me lá em baixo,

Quase ao nível do mar, quase à beira do mar,

Onde a multidão formiga

Sem saber nadar.

Chamam-me lá em baixo

Onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante

E transparente e desgraçado e vil

Quando a noite vem, criança distraída,

Que debilmente apaga os traços brancos

Deste quadro negro - a Vida.

Chamam-me lá em baixo:

Voz de coisas, voz de luta.

É uma voz que estala e mansamente cala

E me escuta.

 

In “As Três Pessoas”

Portugália Editora

 

Políbio Gomes dos Santos

(1911-1939)

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Terça-feira, 13 de Agosto de 2019

Recordando... Sandra Augusto França

QUATRO GRITOS PARA UM LONGO SILÊNCIO

 

IV

 

tenho um longo rosário de

datas com que os amigos

se habituaram a ver-me tricotar os dias,

espreitando-os

por entre malhas indecisas.

 

ouço o ruído da minha própria maresia

assolando

uma constelação encoberta sob a névoa

deste eterno silêncio.

 

depois uma ave sobrevoou tudo isto em círculos

insistentemente.

 

foste.

 

quando eu seria capaz de

bordar a fios de água

este amor.

 

In “Estações”

Editora Difel - 1ª edição - 1998

Pág. 48

 

Sandra Augusto França

(N.1971)

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Quarta-feira, 7 de Agosto de 2019

Recordando... Teresa Balté

FLUXO

 

1.

bater à porta e virmos nós abrir

atravessar os corredores do tempo

redescobrir a casa onde vivemos

em outra incarnação há quantos séculos

o sol na pedra a árvore no pátio

sem folhas no inverno o muro gasto

a pausa do meu ombro no teu hálito

antes da consciência do silêncio

voltar então a mim não há memória

além das coisas onde nos perdemos

não as escutamos já ─ quem as procura?

que força nos investe a transitória

imagem que negamos de nós mesmos

que vida permanece e continua?

 

In “Mediações”

Edições Contexto

 

Teresa Balté

(N.1942)

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Quinta-feira, 1 de Agosto de 2019

Recordando... Vítor Nogueira

SEMENTES

 

É claro que me lembro. Havia dois atalhos

pelo meio do pinhal, direcções espantosamente

precisas, animais que não voltei a ver.

 

Enquanto as colheitas amadureciam nos campos,

havia talismãs pendurados nas árvores e mercúrio

para tratar certas lesões, uma peça vital

do equipamento. Havia girassóis à volta da casa

e as palavras imortais dos espantalhos, uma forma

de evitar que endoidecêssemos. E havia um muro

que era preciso saltar, a manhã gloriosa

da escalada, a ciência das grandes migrações.

 

Mas não vale a pena entrar em mais detalhes.

Este é o meu corpo. Esta é a minha mente.

Conhecem-se desde a infância e cumpriram pena juntos.

 

Do futuro nada sei. Apenas que vem aí.

 

In “Segunda Voz”

Averno - 2014

 

Vítor Nogueira

(N.1966)

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Quarta-feira, 31 de Julho de 2019

Recordando... Diana Guerra

FERIDA CRÓNICA DO AMOR

 

Que dói ao deixar de existir

Como quem tenta resistir,

Ateima, ao rarear da sua existência,

Mostrando a tendência.

Ferida que se abre dia após dia

Lembrando-nos que o sentimento é dependente.

Aleija-nos, ao beijar a face rosada

Como uma dentada.

Desdém, sabor sentido

por quem sabe o que é o amor.

Amar é ganhar onde se perde,

É perder sem arrependimento,

É incendiar a face pálida na hora da despedida.

 

In "A Essência do Amor"

Obra Colectiva de Poesia - Vol. 3

Edições Vieira da Silva

 

Diana Guerra

(N.1989)

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