Quarta-feira, 25 de Março de 2020

Recordando... Albano Martins

OFÍCIO E MORADA

De barro somos, dizem os oráculos,
solícitas vozes do crepúsculo
ou das manhãs solenes, rotuais.

De heróis e deuses falam
mitos e salmos, dou
tos compêndios de
subtil doutrina. Assim
de urtigas e de musgo
se alimentam as parábolas,
escreve a ciência
os seus epitáfios.

De comércio sabemos.
Com âncoras e astro
lábios medimos
nossa rota inscrita
na retina. Exaustos,
entre aquáticas
florestas, perseguimos
os veados do sol
e da vertigem. Por
obscuras silícias
e cretas navegamos.

 

In “Os remos escaldantes”

Editora O Oiro do Dia – Porto – 1983 

 

Albano Martins

(1930-2018)

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Quinta-feira, 19 de Março de 2020

Recordando... Manuel Ribeiro

INCREDULIDADE

 

Estes meus versos simples que te dou

E por que mostras só curiosidade,

Crendo que são uma futilidade,

Um passatempo frívolo em que estou;

 

Mal sabes quanto amor se concentrou

Nêles: com quanto ardor, quanta ansiedade

Os recortei na pura claridade

Do dulcíssimo sonho que os gerou.

 

Pertencem-te meus versos, se são teus!

Se me veem de ti como Deus,

Embora saiba bem que tu não crês…

 

Ah, que cegueira e desentendimento;

És tu que falas no meu pensamento,

Estás toda inteira nêle e não vês…

 

(mantém a grafia original)

 

In “Contemporanea”

Director - José Pacheco

Ano I - Volume III - Nº.9 Ano 1923

Pág. 119

 

Manuel Ribeiro

(1878-1941)

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Sexta-feira, 13 de Março de 2020

Recordando... José Régio **

BALADA DE COIMBRA

- Do Penedo da Saudade
Lancei os olhos além.
Meu sonho de eternidade
Com saudades rima bem...

Ai sombras da Torre de Anto,
Do Convento de além rio,
Dos muros brancos do Pio,
De Santo António a cismar,
Que é de outras sombras que à tarde
Convosco se confundiam,
E ao ar os braços erguiam,
E as mãos abriam no ar...?

(Sem saber para onde iam,
Aonde iriam parar?)

- Penha da Meditação...
Silêncio que paira em tudo!
A terra e o céu dão a mão
Num longo colóquio mudo...

Ai céus de Setembro-Outubro,
Painéis de sonho e loucura,
Rasgando a toda a lonjura
Cenários de arrepiar,
Que é de esses olhos de abismo
Que à tarde a vós se elevam,
Por longe andavam, voltavam,
Vos devolviam no olhar...?

(Sem saber o que buscavam,
Que haviam de ir encontrar?)

- Chegam da Baixa até Celas
Os ais dos sinos na bruma.
Se o céu tem tantas estrelas,
Importa lá cair uma!

Ai linda triste janela,
Toda voltada ao poente,
De onde a menina doente
Sorria a um Anjo seu par,
Rainha Santa do bairro,
Que é de essa cuja mão fria
Do teu caixilho pendia
Como um lírio a desfolhar...?

(Sem saber para onde ia,
Aonde iria parar?)

- Quinta das lágrimas, onde
Chora a fonte doce e langue!
Corre a água, e não esconde
Aquelas manchas de sangue...

Ai olivais silva e prata,
Choupos transidos de mágoa,
Ai laranjais de ao pé de água
Com frutos de oiro a brilhar,
Que é do bando vagabundo
Cujo rir vos acordava,
Cuja tristeza só dava
Mais vontade de cantar...?

(Sem saber o que buscava,
Que havia de ir encontrar?)

- Fui à Lapa dos Esteios,
Grandes coisas fui saber:
Que há pedras que têm seios,
que eu bem n-as ouvi gemer...

Ai pedras nuas dos becos
Despenhando-se, angustiados
Entre esses velhos telhados
E muros de ar singular,
Que é de esses passos que a medo
Vos pisavam, e tremiam,
Passos de irmão, que sofriam
Da mágoa de vos pisar...?

(Sem saber para onde iam,
Aonde iriam parar?)

- No Choupal quis fazer versos,
Olhei as folhas do chão.
Deus sabe os sonhos dispersos
Que o vento leva na mão!

Ai águas do meu Mondego
Que entre choupais murmurando
Se me esquivais, nesse brando
Sempre ir andando até mar,
Que é das mãos roxas de febre
Que em vós se desalteravam,
E entre as folhas que boiavam
Se deixavam arrastar...?

(Sem saber o que buscavam,
Que haviam de ir encontrar?)

- A Santa Cruz, um por um,
Dos troncos fui despedir-me.
Não tenho amigo nenhum
Que me haja sido tão firme...

Ai choro com que o Paredes,
Vibrando os dedos em garra,
Despedaçava a guitarra,
Punha os bordões a estalar,
Gritos de cristal e de oiro
Que o Bettencourt alto erguia,
Que é da roda que algum dia
Vos sabia acompanhar...?

(Sem saber para onde ia,
Aonde iria parar?)

- Fonte do Largo da Sé,
Que dizes tu ao cair?
- Mortos do adro, de pé!,
Que os vivos é só dormir...

Ai crepúsculos de antanho,
Limalha do sol, que morre
Lá desde o cimo da Torre
Té Santa Clara, além mar,
Que é de essa plêiade antiga
Cuja alma em vós se encantava,
Feita de cinza e de lava,
Desfeita em sombra e luar...?

(Sem saber o que buscava,
Deus sabe o que iria achar!)

- Do Penedo da Saudade
Lancei os olhos acima.
Sonho meu de eternidade
Com saudade é que bem rima...

In “Fado”

Editora A Bela e o Monstro - 2015

 

José Régio **

(1901-1969)

 

** Pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira

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Sábado, 7 de Março de 2020

Recordando... Lília Tavares

GUARDADORA DE VENTOS

 

Cheguei a casa quando anoitecia.

Ainda quente, o vento empurrava-me o vestido.

Por um instante senti-me ave

levada por brisas, plumas e enigmas.

A aragem entontecia-me de prazer.

Queria ficar nos braços daquele vento.

Imaginei que o anoitecer me pertencia.

De pé, senti o teu corpo.

O meu, aberto e solto, deixou-se ir.

Sou apenas uma guardadora de ventos.

 

In “Nomes da Noite”

Colecção A água e a sede” 

Edições Modocromia

 

Lília Tavares

(N.1961)

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Domingo, 1 de Março de 2020

Recordando... Francisco Bugalho

MONTADO VELHO

 

Meu triste montado velho,

Que paz tem quem te procura

E, em ti, vem achar o espelho

De uma vida sem doçura,

Mas livre de enganos vãos!…

 

Troncos rugosos, mas sãos,

Ásperos, sim, mas generosos;

Todos, na desgraça, irmãos,

Dos maus invernos ventosos,

E dos verões, sem pinga d’água.

 

Montado, que estranha mágoa

Te confrange e te redime!

A tua visão afago-a:

– és bom cenário pra um crime

e pra milagres também.

 

Montado, além, mais pra além,

Há céus azuis e há searas.

E brandas águas que têm

O brilho de pedras raras,

E não há solidão!…

 

Mas essa tua canção

–soluço d’alma que anseia –

também, a meu coração,

furtivamente se enleia.

E aqui me fico contigo.

 

Sem ternura, nem doçura:

Mas longe do mundo vão,

– meu velho montado amigo!…

 

O Espaço da Escrita

 

In “Obra Completa de Francisco Bugalho”

Organização de Luís Manuel Gaspar, João Filipe Bugalho,

Maria Jorge, Luís Amaro e Diana Pimentel

Prefácio de Joana Varela

Editora LG

 

Francisco Bugalho

(1905-1949)

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Terça-feira, 25 de Fevereiro de 2020

Recordando... Egito Gonçalves

O TEU NOME É UM VOCÁBULO

 

O teu nome é um vocábulo

de amor, uma carícia

que a língua desenvolve.

Não o posso pronunciar

em voz alta

quando não estou só. As

respirações alheias

corrompem: poderia

dissolver-se no vento,

fragmentar-se

perder

o seu mistério indecifrável,

desviar

a flecha do seu alvo.

Pronuncio-o eliminando

o som, das duas sílabas

que rolam no meu corpo,

abrem os poros e,

pelos olhos,

enviam a mensagem necessária

ao suporte de Outubro.

Tudo canta, rodeando o silêncio,

a ligeira brisa que perfuma

as letras

quando passas a porta

e o teu sorriso doce

avança para mim

A garganta abre-se,

as sílabas esvoaçam, transformam

o espaço em música,

os acordes da água:

o meu corpo é agora um piano

onde a alegria abre

a felicidade, as suas asas.

 

In “Os Confrades da Poesia”

Boletim Mensal Nº 43 – Dezembro.2011

 

Egito Gonçalves

(1920-2001)

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Quarta-feira, 19 de Fevereiro de 2020

Recordando... Alexandra Santos

PASSEIO AS MÃOS PELO TEU CORPO E SINTO-TE…

 

Passeio as mãos pelo teu corpo e sinto-te…

Sinto o pulsar do teu coração que bate desenfreado

Sinto a tua respiração num ritmo descontrolado…

Sinto que queres ser minha como eu ser teu

Sinto que és a rainha deste plebeu…

Mas sinto essencialmente a tua pele…

Toda ela é a tua essência

Toda ela é a mulher que foste,

A mulher que és, a mulher que amo:

Pele madura, vivida,

Repleta de marcas do tempo,

Perfeita para mim;

Pele suave, sensível,

Propensa a arrepios,

Beijada até ao fim…

Pele… é tua… é minha… é nossa…

Onde a tua termina, a minha começa…

Quando a tua sente frio, a minha te aquece

Quando a tua sente ardor, a minha te arrefece…

Não preciso de mapa para me orientar

Mas na tua pele ainda me posso perder

Em cada cicatriz, em cada recanto,

Em cada sinal, em cada encanto…

Pele com pele, eu sinto o teu aroma…

Pele com pele, o nosso único idioma…

 

In “Palavras Sussurradas”

Chiado Editora

 

Alexandra Santos

(N.1980)

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Quinta-feira, 13 de Fevereiro de 2020

Recordando... Olga Gonçalves

FESTEJAR NO TEU CORPO A LIBERDADE

 

Festejar no teu corpo a liberdade

que a dobra desta noite pronuncia

sobre o nervo da voz foça de alarme

garganta milimétrica de abril

 

um cravo da coronha de um soldado

no campo há meia hora ainda em sentido

para o gesto tão fundo tão volável

infância já da luz dentro do sismo

 

jornais não censurados no tapete

uma fábula fértil de fogueiras

crepitando onde rola o som da estampa

 

interior ao rumo à labareda

o desenho final do nosso beijo

na premissa mais livre do meu sangue

 

(Abril 1974)

 

In “Só de Amor”

Edições Ática

 

Olga Gonçalves

(1929-2004)

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Sexta-feira, 7 de Fevereiro de 2020

Recordando... Afonso Simões

UM NINHO

 

"Sabeis o que é um ninho, esse pequeno lar

Onde a ventura mora em noites de luar,

Onde a brisa suspira e canta a cotovia

Desde o romper da aurora ao declinar do dia?

Sabeis o que é um ninho em dias estivais,

Perdido no rumor dos bastos salgueirais,

À borda dum riacho alegre, saltitante,

Que vai de pedra em pedra até morrer, distante?

Sabeis o que é um ninho inundado de sol,

Onde desperta o melro e dorme o rouxinol?

Não, não sabeis! Pois bem. Juntai toda a ventura

Do vosso lar ditoso: os beijos, a ternura

D' uma extremosa mãe, os cuidados d'um pai,

Os risos d' uma irmã que tanto vos distrai,

Um doce olhar de avó, vaidosa no carinho,

E ficareis sabendo o que se chama um ninho."

 

In “Folhas em Branco” 1914

Imprensa Libanio da Silva

 

Afonso Simões

(1866-1947)

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Sábado, 1 de Fevereiro de 2020

Recordando... Natália Correia

A RAPARIGA DO SWEATER VERMELHO

 

Para os que gostam de fruta tu tens o sabor almiscarado.

Entre os balubas serias uma fêmea baluba cor de cera.

No Egipto era uma flor de lótus o teu penteado

para os insectos serás outra variedade de pêra.

 

Na cama dos solitários andrenídeos

és um corpo apetecido pelas abelhas

e se em teus dedos nascer a flor dos suicídios

és um pecado venial de unhas vermelhas,

 

venial volumosa e branca muito odorífera

dando claridade à sombra dos quartos de aluguer.

Para os assassinos serás uma arma mortífera

para os pederastas a raiva de não serem mulher.

 

Para os anjos és talvez a alternativa

de em ti encarnar a graça que eles têm no ar.

É de ti mesma que estás arborizada e viva

ou serás como as rosas apenas para ver e cheirar?

 

In "O vinho e a lira"

Edições Afrodite

 

Natália Correia

(1923-1993)

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