Terça-feira, 13 de Novembro de 2018

Recordando... José Saramago

POEMA À BOCA FECHADA

 

Não direi:

Que o silêncio me sufoca e amordaça.

Calado estou, calado ficarei,

Pois que a língua que falo é de outra raça.

 

Palavras consumidas se acumulam,

Se represam, cisterna de águas mortas,

Ácidas mágoas em limos transformadas,

Vaza de fundo em que há raízes tortas.

 

Não direi:

Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,

Palavras que não digam quanto sei

Neste retiro em que me não conhecem.

 

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,

Nem só animais bóiam, mortos, medos,

Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam

No negro poço de onde sobem dedos.

 

Só direi,

Crispadamente recolhido e mudo,

Que quem se cala quando me calei

Não poderá morrer sem dizer tudo.

 

In “Os Poemas Possíveis”

Editorial Caminho

 

José Saramago

(1922-2010)

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Quarta-feira, 7 de Novembro de 2018

Recordando... Cesário Verde

VAIDOSA

 

Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.

Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.

Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração como as estátuas.

E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.

Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces,
És tão loira e doirada como as messes,
E possuis muito amor... muito amor próprio.

 

In “O Livro de Cesário Verde”

 

Cesário Verde

(1855-1886)

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Quinta-feira, 1 de Novembro de 2018

Recordando... Alexandre O'Neill

QUE VERGONHA, RAPAZES

 

Que vergonha, rapazes! Nós práqui

caídos na cerveja ou no uísque,

a enrolar a conversa no "diz que"

e a desnalgar a fêmea ("Vist'? Viii!")

 

Que miséria, meus filhos! Tão sem geito

é esta videirunha à portuguesa,

que às vezes me soergo no meu leito

e vejo entrar quarta invasão francesa.

 

Desejo recalcado, com certeza...

mas logo desço à rua, encontro o Roque

("O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!")

e desabafo: - Ó Roque, com franqueza:

 

você nunca quis ver outros países?

- Bem queria, sr. O'Neill! E... as varizes?

 

In "De ombro na ombreira"

 

Alexandre O'Neill

(1924-1986)

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Quarta-feira, 31 de Outubro de 2018

Recordando... João José Cochofel

TARDE

 

Teus olhos húmidos eram lagos

em que nosso desejo se mirava.

Tua boca entreaberta era a mensagem

do teu corpo moço que se dava.

Teu hálito quente

embrulhado de desejo

vinha de não sei lá que profundezas

em que de amor tuas entranhas se abrasavam.

E havia, amor, a envolver-nos,

essa solidão enorme

entre pinheiros, céu e terra quente

da tarde que dorme ...

 

In "Obra Poética"

Editorial Caminho

 

João José Cochofel

(1919-1982)

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Quinta-feira, 25 de Outubro de 2018

Recordando... Casimiro de Brito

A LUZ…

 

A luz trocada em olhos que ficaram

subitamente cegos, e depois as palavras,

cautelosas, dizendo a seda

dos corpos sós. O desejo

foi polindo em silêncio

um fruto em busca da sua maturação.

A teu lado me deito e bebo a água

que tu me abres

e onde me perco e ardo e tudo.

Aqui tens o meu corpo cheio de mundo.

Amar-te é viagem que não se acaba

e contigo vou, para o alto

e para o fundo.

 

In “69 Poemas de Amor”

4Águas Editora

 

Casimiro de Brito

(N. 1938)

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Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018

Recordando... Helga Moreira

ANOITECE EM INFERNO A MINHA CASA

 

Anoitece em inferno a minha casa.

Fico com este começo de verso

a serenar a exaltação de não dizer nada.

Deixem-me com este sorriso a morrer

por uma sílaba mais real onde um verso

me sossegue

com unhas de lama e sangue,

como garras.

Anoitece em inferno a minha casa.

Fica a certeza de não ter fim o que

de inutilidades se basta,

ou apenas o instante em que,

por um verso, eu fui

à outra parte da casa.

 

In “Os Dias Todos Assim”

Editora & etc.

 

Helga Moreira

(N. 1950) 

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Sábado, 13 de Outubro de 2018

Recordndo... Almeida Garrett

VIBORA

 

Como a víbora gerado,
No coração se formou
Este amor amaldiçoado
Que à nascença o espedaçou.

Para ele nascer morri;
E em meu cadáver nutrido,
Foi a vida que eu perdi
A vida que tem vivido.

 

In “Folhas Caídas – Livro Primeiro”

 

Almeida Garrett

(1799-1854)

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Domingo, 7 de Outubro de 2018

Recordando... Miguel Torga

SEGREDO

 

Sei um ninho.

E o ninho tem um ovo.

E o ovo, redondinho,

Tem lá dentro um passarinho

Novo.

 

Mas escusam de me atentar:

Nem o tiro, nem o ensino.

Quero ser um bom menino

E guardar

 

Este segredo comigo.

E ter depois um amigo

Que faça o pino

A voar...

 

In “Diário VII” 1956

 

Miguel Torga **

(1907-1995)

 

** Pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha

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Segunda-feira, 1 de Outubro de 2018

Recordando... Tomás António Gonzaga

SONETO XXXIX

 

Obrei quanto o discurso me guiava,

Ouvi aos Sábios quando errar temia;

Aos bons no gabinete o peito abria,

Na rua a todos como iguais tratava.

 

Julgando os crimes, nunca voto dava,

Mais duro ou pio do que a lei pedia;

Mas devendo salvar ao justo, ria,

E devendo punir ao réu, chorava.

 

Não foram, Vila Rica, os meus projectos,

Meter em férreo cofre cópia d’oiro,

Que farte aos filhos, e que chegue aos netos:

 

Outras são as fortunas que me agoiro,

Ganhei saudades, adquiri afectos,

Vou fazer destes bens melhor tesoiro.

 

In “Marília de Dirceu – Parte II”

 

Tomás António Gonzaga

(1744-1810)

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Domingo, 30 de Setembro de 2018

Recordando... Cristovam Pavia

CANÇÃO QUALQUER

 

A linda e frágil

Andorinha caída

Ficou na canção aflorada

Como o amor na minha vida ...

E a breve e flébil

Canção que veio aos lábios,

A tarde mal a susteve,

A brisa a levou sem mágoa...

 

In “ÁRVORE ”

Folhas de Poesia

Direcção e Edição de António Luís Moita, António Ramos Rosa, José Terra, Luís Amaro, Raul de Carvalho

1.º Fascículo - Outono de 1951

Pág. 17

 

Cristovam Pavia **

(1933-1968)

 

** Pseudónimo de Francisco António Lahmeyer Flores

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