Terça-feira, 30 de Novembro de 2021

Recordando... Jorge Vieira

SOL POENTE

 

É sempre ao sol poente que declina,

Que as sombras dançam com nitidez;

Prazer adocicado que fulmina,

Que nos preenche o silêncio e a mudez.

 

É no mar que o Astro-Rei adormece,

À espera que a lua brilhe, altaneira;

Quadro de beleza que nos enternece,

E que nos acompanha a vida inteira.

 

Surge a noite com passos de ternura,

Onde o silêncio se instala, lentamente;

No firmamento para dar brilho á negrura,

Mil estrelas cintilam alegremente.

 

Com as cabeças coladas ás almofadas,

Sonhamos por instinto, quadros belos;

Contos imaginários como os de fadas,

Tão dóceis, tão puros, tão singelos.

 

In "Manhãs Inquietas"

Mosaico de Palavras Editora

 

Jorge Vieira

(N.1952)

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Quinta-feira, 25 de Novembro de 2021

Recordando... Álvaro Feijó

POEMA DA RENUNCIA

 

Que venha a noite e deixe o seu mistério

sobre nós dois, Amor!

 

Não fomos feitos para andar ao sol,

continuamente,

nem para ter saudades do passado

ou pra chorar um sonho que se esfolha.

 

Nascemos só para viver e amar

e construir, na sombra e no silêncio;

nascemos só para cantar e encher do nosso canto heróico

a calma da alvorada que se espera;

nascemos só para nos confundirmos

na imensa teoria humana que se forma

e caminha consciente!

 

Que venha a noite e deixe o seu mistério

sobre nós,

e traga, sobre nós, o esquecimento!

 

In “Líricas Portuguesas” - I Volume

Selecção, Prefácios e apresentação de Jorge de Sena

Edições 70 -1984

 

Álvaro Feijó

(1916 -1941)

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Sexta-feira, 19 de Novembro de 2021

Recordando... Francisco Bugalho

SABEDORIA

 

Nos dias em que nada vale a pena,

E em que as árvores amigas

São iguais e estão vistas,

A vida é tão parada e tão serena

Que afinal já não há que contar mais,

E prevejo, com olhos anormais,

As coisas imprevistas...

Nos dias em que são cinzentos os meus céus

— O de dentro e o de fora —

E é vaga esta noção de um velho Deus,

Que me não manda embora

Deste espectáculo estafado

Em que de cor sei dizer

O que me foi ensaiado

E o que todos vão fazer,

Tenho inveja dos homens convencidos

Que nem sequer sonharam

Que poderia haver paraísos perdidos,

Ainda não decifraram

Esta charada em que andam envolvidos,

E pensam que, vivendo, triunfaram

Da Vida em que os que sonham são vencidos.

 

"Canções de Entre Céu e Terra"

 

In “Obra Completa de Francisco Bugalho”

Editora LG

 

Francisco Bugalho

(1905-1949)

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Sábado, 13 de Novembro de 2021

Recordando... António Franco Alexandre

NA LISTA DOS TEUS FINS VENHO NO FIM

 

Na lista dos teus fins venho no fim

de uma página nunca publicada,

e é justo que assim seja. Embora saiba

mexer palavras, e doer de frente,

e tenha esse talento conhecido

de acordar de manhã, dormir à noite,

e ser, o dia todo, como gente,

nunca curei, como previa, a lepra,

nem decifrei o delicado enigma

da letra morta que nos antecede.

Por muito te querer, talvez pudesses

dar-me um lugar qualquer mais adiante,

despir-te de pudor por um instante

e deixá-lo cobrir-me como um manto.

 

In “Aracne”

Assírio & Alvim

 

António Franco Alexandre

(N.1944)

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Domingo, 7 de Novembro de 2021

Recordando... Camilo Pessanha

AO LONGE OS BARCOS DE FLORES

 

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
– Perdida voz que de entre as mais se exila,
– Festões de som dissimulando a hora.

 

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

 

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

 

Só, incessante, um som de flauta chora...

 

(Clepsidra)

 

In ”Ler Por Gosto”

Areal Editores

 

Camilo Pessanha

(1867-1926)

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Segunda-feira, 1 de Novembro de 2021

Recordando... Ana Fonseca

NO VELUDO DOS TEUS OLHOS...

 

Sonhadora

De pensamentos ao largo

de olhos postos no vento

com o areal nos dedos

e o coração ao leme

deste momento

Sei-te em mim

No turbilhão

Que me aquece o sangue

Me acalma a mente

Me deixa exangue

E abandonada em mim

entrego-me-Te

Às palavras

Onde em cofre guardadas

Serão alma iluminada

Sentimentos

Só te peço...

Guarda-me-te

Deita fora a chave

Esquece os códigos

Que eu saberei lê-los

No veludo dos teus olhos...

 

In “No Leito do Meu Pensamento”

Editora Universus

 

Ana Fonseca

(N.1972)

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Domingo, 31 de Outubro de 2021

Recordando... Irene Lisboa

MONOTONIA

 

Começar, recomeçar, interminamente repetir um

monótono romance, o romance da minha vida.

Com palavras iguais, inalteráveis, semelhantes,

insistir sobre o cansaço e a pobreza disto de viver...

Andar como os dementes pelos cantos a repisar

o que já ninguém quer ouvir.

Levar o meu desprecioso tempo à deriva.

Queixar-me, castigar e lamentar sem qualquer

esperança, por desfastio.

Pôr a nu uma miséria comum e conhecida, chã-

mente, serenamente, indiferente à beleza dos temas

e das conclusões.

Monotonamente, monotonamente.

 

Monotonia. Arte, vida...

Não serei ainda eu que te erigirei o merecido altar.

Que te manejarei hábil e serena.

 

Monotonia! Gume frio, acerado, tenaz, eloquente.

Sino de poucos tons, impressionante.

Mas se te descobri não te vou renegar.

Tu ensinas-me, tu insinuas-me a arte da verdade,

a pobreza e a constância.

Monotonia, torna-me desinteressada.

 

In “Um dia e outro dia… Outono havias de vir”

Editorial Presença

 

Irene Lisboa

(1892-1958)

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Segunda-feira, 25 de Outubro de 2021

Recordando... Pedro Tamen

NÃO SEI, AMOR, SEQUER, SE TE CONSINTO

 

Não sei, amor, sequer, se te consinto

ou se te inventas, brilhas, adormeces

nas palavras sem carne em que te minto

a verdade intemida em que me esqueces.

 

Não sei, amor, se as lavas do vulcão

nos lavam, veras, ou se trocam tintas

dos olhos ao cabelo ou coração

de tudo e de ti mesma. Não que sintas

 

outra coisa de mais que nos feneça;

mas só não sei, amor, se tu não sabes

que sei de certo a malha que nos teça,

 

o vento que nos leves ou nos traves,

a mão que te nos dê ou te nos peça,

o princípio de sol que nos acabes.

 

In «Tábua das Matérias - Poesia 1956-1991»,

Tertúlia - 1991

 

Pedro Tamen

(1934-2021)

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Terça-feira, 19 de Outubro de 2021

Recordando... Glória de Sant'Anna

RECADO

 

Se eu morrer longe

sepulta-me no mar

dentro das algas ignorantes

e lúcidas.

 

Cobre o meu rosto de palavras

antigas

e de música.

 

Deixa em meus dedos

a memória mais recente

de outras coisas inúmeras

 

e nos meus cabelos

o incerto movimento

do vento e da chuva.

 

Eu vogarei sob as estrelas

com pálidas luzes entre os cílios

e pequenos caramujos

entrarão nos meus ouvidos.

 

Estarei assim idêntica

a todos os motivos.

 

In “Música Ausente”

 

Glória de Sant'Anna  

(1925-2009)

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Quarta-feira, 13 de Outubro de 2021

Recordando... Rosa Alice Branco

REPETIÇÃO DO DESERTO

 

Atravessar o deserto em círculos incandescentes

repeti-lo até à proximidade do que se anula

é dar-lhe um rosto.

Não a pura evanescência do visível

a floração que se espera de um olhar

mas uma imagem pobre ancorada no silêncio

 

esse rosto volta-se no mesmo movimento

que o encerra na distância.

O que fizemos dele arrasta-se como o mar

prematuramente inclinado sobre o chão

 

o rosto é um feixe de memória seca

 

é assim que o deserto reflecte as cidades

sem a consciência aquática

das coisas intocadas.

 

In "Animais da Terra"

Editora Limiar

 

Rosa Alice Branco

(N.1950)

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