Quarta-feira, 19 de Fevereiro de 2020

Recordando... Alexandra Santos

PASSEIO AS MÃOS PELO TEU CORPO E SINTO-TE…

 

Passeio as mãos pelo teu corpo e sinto-te…

Sinto o pulsar do teu coração que bate desenfreado

Sinto a tua respiração num ritmo descontrolado…

Sinto que queres ser minha como eu ser teu

Sinto que és a rainha deste plebeu…

Mas sinto essencialmente a tua pele…

Toda ela é a tua essência

Toda ela é a mulher que foste,

A mulher que és, a mulher que amo:

Pele madura, vivida,

Repleta de marcas do tempo,

Perfeita para mim;

Pele suave, sensível,

Propensa a arrepios,

Beijada até ao fim…

Pele… é tua… é minha… é nossa…

Onde a tua termina, a minha começa…

Quando a tua sente frio, a minha te aquece

Quando a tua sente ardor, a minha te arrefece…

Não preciso de mapa para me orientar

Mas na tua pele ainda me posso perder

Em cada cicatriz, em cada recanto,

Em cada sinal, em cada encanto…

Pele com pele, eu sinto o teu aroma…

Pele com pele, o nosso único idioma…

 

In “Palavras Sussurradas”

Chiado Editora

 

Alexandra Santos

(N.1980)

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Quinta-feira, 13 de Fevereiro de 2020

Recordando... Olga Gonçalves

FESTEJAR NO TEU CORPO A LIBERDADE

 

Festejar no teu corpo a liberdade

que a dobra desta noite pronuncia

sobre o nervo da voz foça de alarme

garganta milimétrica de abril

 

um cravo da coronha de um soldado

no campo há meia hora ainda em sentido

para o gesto tão fundo tão volável

infância já da luz dentro do sismo

 

jornais não censurados no tapete

uma fábula fértil de fogueiras

crepitando onde rola o som da estampa

 

interior ao rumo à labareda

o desenho final do nosso beijo

na premissa mais livre do meu sangue

 

(Abril 1974)

 

In “Só de Amor”

Edições Ática

 

Olga Gonçalves

(1929-2004)

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Sexta-feira, 7 de Fevereiro de 2020

Recordando... Afonso Simões

UM NINHO

 

"Sabeis o que é um ninho, esse pequeno lar

Onde a ventura mora em noites de luar,

Onde a brisa suspira e canta a cotovia

Desde o romper da aurora ao declinar do dia?

Sabeis o que é um ninho em dias estivais,

Perdido no rumor dos bastos salgueirais,

À borda dum riacho alegre, saltitante,

Que vai de pedra em pedra até morrer, distante?

Sabeis o que é um ninho inundado de sol,

Onde desperta o melro e dorme o rouxinol?

Não, não sabeis! Pois bem. Juntai toda a ventura

Do vosso lar ditoso: os beijos, a ternura

D' uma extremosa mãe, os cuidados d'um pai,

Os risos d' uma irmã que tanto vos distrai,

Um doce olhar de avó, vaidosa no carinho,

E ficareis sabendo o que se chama um ninho."

 

In “Folhas em Branco” 1914

Imprensa Libanio da Silva

 

Afonso Simões

(1866-1947)

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Sábado, 1 de Fevereiro de 2020

Recordando... Natália Correia

A RAPARIGA DO SWEATER VERMELHO

 

Para os que gostam de fruta tu tens o sabor almiscarado.

Entre os balubas serias uma fêmea baluba cor de cera.

No Egipto era uma flor de lótus o teu penteado

para os insectos serás outra variedade de pêra.

 

Na cama dos solitários andrenídeos

és um corpo apetecido pelas abelhas

e se em teus dedos nascer a flor dos suicídios

és um pecado venial de unhas vermelhas,

 

venial volumosa e branca muito odorífera

dando claridade à sombra dos quartos de aluguer.

Para os assassinos serás uma arma mortífera

para os pederastas a raiva de não serem mulher.

 

Para os anjos és talvez a alternativa

de em ti encarnar a graça que eles têm no ar.

É de ti mesma que estás arborizada e viva

ou serás como as rosas apenas para ver e cheirar?

 

In "O vinho e a lira"

Edições Afrodite

 

Natália Correia

(1923-1993)

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Sexta-feira, 31 de Janeiro de 2020

Recordando... Manuel António Pina

ESPLANADA

 

Naquele tempo falavas muito de perfeição,

da prosa dos versos irregulares

onde cantam os sentimentos irregulares.

Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

 

agora lês saramagos & coisas assim

e eu já não fico a ouvir-te como antigamente

olhando as tuas pernas que subiam lentamente

até um sítio escuro dentro de mim.

 

O café agora é um banco, tu professora do liceu;

Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.

Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,

e não caminhos por andar como dantes.

 

In “Um Sítio onde Pousar a Cabeça”

 

Manuel António Pina

(1943-2012)

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Sábado, 25 de Janeiro de 2020

Recordando... Fernanda Seno

PERENIDADE

 

Mesmo depois do Tempo

ficaremos no coração aberto dos

que amamos.

 

E no grande silêncio que restar,

na ausência dos gestos e do olhar

ainda assim estaremos

e seremos.

 

Mesmo depois do Tempo

quando formos lembrança evanescente,

seremos outra forma de presença

porque o Amor subsiste

Eternamente.

 

In “As palavras às vezes”

 

Fernanda Seno

(1942-1996)

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Domingo, 19 de Janeiro de 2020

Recordando... Eduardo Guerra Carneiro

O PÓ NOS PASSEIOS

 

O pó nos passeios com vagar

se ergue. A luz é mais nítida.

Os corpos se mostram. Em algumas

praias residem dialectos. Turismo

nos marca com ferro diferente

em costumes e fala. Nas ruas se vende

o jornal da estranja. O burro

ainda merca. Alfarroba em bolsa.

O pó nos passeios com vagar

se ergue. A luz ainda é nítida.

Só de certo modo. Só em certas terras.

Turismo na farda. No bolso o desdém.

 

In "Algumas Palavras"

Nova Realidade

 

Eduardo Guerra Carneiro

(1942-2004)

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Segunda-feira, 13 de Janeiro de 2020

Recordando... António de Sousa

ESQUEMA

 

ASA - Mas não de perto,

que de perto não vôo,

vou de rastos.

Anjo deserto,

são as asas, primeiro, que me rôo

ao silêncio dos astros.

 

(Quanto pode esta fome de viver

que de mim se sustenta e me sustém!

Tudo o que é não-morrer

me sabe bem).

 

In “Linha de Terra”

Editorial Inquérito – 1952

 

António de Sousa

(1898-1981)

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Terça-feira, 7 de Janeiro de 2020

Recordando... José Duro

EM BUSCA

 

Ponho os olhos em mim, como se olhasse um estranho,
E choro de me ver tão outro, tão mudado...
Sem desvendar a causa, o íntimo cuidado
Que sofro do meu mal - o mal de que provenho.

Já não sou aquele Eu do tempo que é passado,
Pastor das ilusões perdi o meu rebanho,
Não sei do meu amor, saúde não na tenho,
E a vida sem saúde é um sofrer dobrado.

A minh’alma rasgou-ma o trágico Desgosto
Nas silvas do abandono, à hora do sol-posto,
Quando o azul começa a diluir-se em astros...

E à beira do caminho, até lá muito longe,
Como um mendigo só, como um sombrio monge,
Anda o meu coração em busca dos seus rastros...

 

In “Fel”

Guimarães Editores


José Duro

(1873-1899)

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Quarta-feira, 1 de Janeiro de 2020

Recordando... António Cândido Franco

MANHÃ ETERNA

 

Terra, mas terra extensa, de longes baços

terra de além

que se alonga e se despedaça em ondas

mas ondas de verdura

nos horizontes.

Terra sem fim, a desfazer-se em fumos.

Além que se desfaz em odores

e em névoas.

Terra, mas terra forte e luminosa

capaz de germinar no seio astros.

Planície que se evapora na altura

enxuta em sol.

Terra de corredores internos

subterrâneos cheios de luz.

Ouro potável, castanho e solar.

Searas extensas como céus.

Grãos luminosos e ardentes, sementes

que se espalham pela terra como cometas.

Terra celeste, flor astral

onde a noite acorda pelo Abril do dia.

Terra de luz, cheia de ouro

que estremece como uma estrela.

 

In “Estrela Subterrânea”

Editora Limiar

 

António Cândido Franco

(N.1956)

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