Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2026

Recordando... Alexandre O'Neill

SEIOS

 

Sei os teus seios.

Sei-os de cor.

 

Para a frente, para cima,

Despontam, alegres, os teus seios.

 

Vitoriosos já,

Mas não ainda triunfais.

 

Quem comparou os seios que são teus

(Banal imagem) a colinas!

 

Com donaire avançam os teus seios,

Ó minha embarcação!

 

Por que não há

Padarias que em vez de pão nos dêem seios

Logo p´la manhã?

 

Quantas vezes

Interrogaste, ao espelho, os seios?

 

Tão tolos os teus seios! Toda a noite

Com inveja um do outro, toda a santa

Noite!

 

Quantos seios ficaram por amar?

 

Seios pasmados, seios lorpas, seios

Como barrigas de glutões!

 

Seios decrépitos e no entanto belos

Como o que já viveu e fez viver!

 

Seios inacessíveis e tão altos

Como um orgulho que há-de rebentar

Em desesperadas, quarentonas lágrimas...

 

Seios fortes como os da Liberdade

- Delacroix - guiando o povo.

 

Seios que vão à escola p´ra de lá saírem

Direitinhos p´ra casa...

 

Seios que deram o bom leite da vida

A vorazes filhos alheios!

 

Diz-se rijo dum seio que, vencido,

Acaba por vencer...

 

O amor excessivo dum poeta:

«E hei-de mandar fazer um almanaque

Na pele encadernado do teu seio!»

 

Retirar-me para uns seios que me esperam

Há tantos anos, fielmente, na província!

 

Arrulho de pequenos seios

No peitoril de uma janela

Aberta sobre a vida.

 

Botas, botifarras

Pisando tudo, até os seios

Em que o amor se exalta e robustece!

 

Seios adivinhados, entrevistos,

Jamais possuídos, sempre desejados!

 

«Oculta, pois, oculta esses objectos,

Altares onde fazem sacrifícios

Quantos os vêem com olhos indiscretos»

 

Raimundo Lúlio, a mulher casada

Que cortejastes, que perseguistes

Até entrares, a cavalo, p'la igreja

Onde fora rezar,

Mudou-te a vida quando te mostrou

("É isto que amas?")

De repente a podridão do seio.

 

Raparigas dos limões a oferecerem

Fruta mais atrevida: inesperados seios...

 

Uma roda de velhos seios despeitados,

Rabujando,

A pretexto de chá...

 

Engolfo-me num seio até perder

Memória de quem sou...

 

Quantos seios devorou a guerra, quantos,

Depressa ou devagar, roubou à vida,

À alegria, ao amor e às gulosas

Bocas dos miúdos!

 

Pouso a cabeça no teu seio

E nenhum desejo me estremece a carne

 

Vejo os teus seios, absortos

Sobre um pequeno ser.

 

In “No reino da Dinamarca”

Relógio D'Agua - 1997

 

Alexandre O'Neill

(1924-1986)

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Terça-feira, 13 de Janeiro de 2026

Recordando... Dalila Pereira da Costa

O CORAÇÃO E A BALANÇA

 

Ouvi dizer que em nós o mar futuro

é de cristal puro e não lavrado:

Cumpre assim caminhar ligeiro no ar,

a terra do ar ver e amar.

 

Harmonia desejada e louvada,

agora cantada nas esferas celestes;

antes na terra tão cobiçada

e nela tão mal realizada.

 

Iluminada pela aragem do infinito

e mostrando ainda as pegadas

do Anjo revelador,

- e eis o santo país das estrelas!

 

E me admites à tua presença,

e ao sumo mistério;

alegre nos lagares da dor

onde se esmaga o coração dos homens.

 

Pois é com factos e não com ideias

que se fazem as lágrimas.

Ao alto me acolhes: na mão esquerda

a balança, na direita meu coração.

 

A Justiça ao amor fazendo jus.

Eu digo: na Primavera, moitas

de rosas brancas olorosas

se constroem à beira de negros abismos.

 

In “O Novo Argonauta”

Fundação Lusíada

 

Dalila Pereira da Costa

(1918-2012)

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Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2026

Recordando... Alice Queiroz

DAS PALAVRAS

 

Das palavras

de algumas palavras

temos de conhecer mais

que seu significado,

temos de lhes sentir o tacto

o gosto, ouvir a voz,

temos de as provar

beber, comer, saborear

mastigar suavemente

e depois com ternura,

as engolir para que permaneçam

guardadas em nós.

Amor! O que é amor

se não for vivido!

 

In “Jardim de Afectos”

Versbrava Editora

 

Alice Queiroz

(1942-2018)

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Quinta-feira, 1 de Janeiro de 2026

Recordando... Ilda Pinto Ribeiro

PELA PAZ

 

Campeia a violência e o desamor   

P’lo mundo ignóbil, prenhe de ambição...

Em vez da esp’rança reina o medo e a dor,

Perdeste, ò homem tua dimensão.

 

Essa fome de paz que a alma anseia

Vai torturando a pobre humanidade

Que em prece e desespero, as mãos alteia,

Rogando aos céus: Senhor, oh!... Tem piedade.

 

Que a paz desça, Senhor, do vosso seio

E que este inferno, negro, mau e feio

Se transforme num éden de alegria.

 

Abraçai-vos, ò povos, sem demora,

Que o relógio da história marque a hora

Na paz e no esplendor de um novo dia.

 

In “Poetas & Trovadores”

Ano XVlll – 3ª edição – n.º 1 – Abril de 1998

 

Ilda Pinto Ribeiro

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Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2025

Recordando... José Blanc de Portugal

SONETO MARTELADO

 

A tarde, e por de mais calma,

Afogou-me o que ficara da partida

Tudo que inventara, essa mentira querida

Que ficara fazendo as vezes da alma.

Passa e segue a triste gente calada

E o correio e a luz quebrada no muro

Trazem a tarde, recortando duro

O perfil triste e morno desta minha estrada.

E choca e vem de mim até ao céu polido

Liso e puro e sempre igual estendido

Sobre mim e a rua desolada,

Uma ilusão que nada tem de alada

E é feita de aço puro e diamantes:

Não querer tornar-me no que era dantes.

 

In “Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro”

Assírio & Alvim

 

José Blanc de Portugal

(1914-2000)

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Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2025

Recordando... David Mourão Ferreira

NATAL À BEIRA-RIO

 

É o braço do abeto a bater na vidraça?

E o ponteiro pequeno a caminho da meta!

Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,

a trazer-me a água da infância ressurrecta.

 

Da casa onde nasci via-se perto o rio.

Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!

E o Menino nascia a bordo de um navio

que ficava, no cais, à noite iluminado...

 

Ó noite de Natal, que travo a maresia!

Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.

E quanto mais na terra me envolvia

mais da terra fazia o norte de quem erra.

 

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me

à beira desse cais onde Jesus nascia...

Serei dos que afinal, errando em terra firme,

precisam de Jesus, do Mar, ou de Poesia?

 

In "Cancioneiro de Natal, 1971"

 

David Mourão Ferreira

(1927-1996)

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Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2025

Recordando... Irene Silva

SERENATA AO VENTO

 

Meu amor, olhos nos olhos

A olhar dentro de mim,

Os meus olhos tornam-se olhos

Que nunca foram assim.

 

Meu amor, olhos nos olhos,

Mais do que olhos, olhos são

A entrar pelos meus olhos,

Caminho do coração.

 

Meu amor, quando pressinto

Esses meus olhos no chão,

Os meus olhos tornam-se água

Regatos na tua mão.

 

Meu amor, quanto te quero,

Meu amor fica comigo

Com essa luz dos teus olhos,

Meu lindo Porto de Abrigo.

 

In “Respira…Respira Comigo”

Âncora Editora

 

Irene Silva

(N.1954)

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Sábado, 13 de Dezembro de 2025

Recordando... Fiama Hasse Pais Brandão

VIVER NA BEIRA-MAR

 

Nunca o mar foi tão ávido

quanto a minha boca. Era eu

quem o bebia. Quando o mar

no horizonte desaparecia e a areia férvida

não tinha fim sob as passadas,

e o caos se harmonizava enfim

com a ordem, eu

havia convulsamente

e tão serena bebido o mar.

 

In "Três Rostos"

Assírio & Alvim

 

Fiama Hasse Pais Brandão

(1938 -2007)

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Domingo, 7 de Dezembro de 2025

Recordando... Carlos Macedo

POEMA DAS TRÊS CORES

 

Quando os meus olhos ávidos de Luz 

Fôrem luzes azuis e verdes,

 

Quando os meus olhos ávidos de Céu

Fôrem céus azuis e verdes,

 

Quando os meus olhos ávidos de Mar

Fôrem mares azuis e verdes,

 

Quando os meus olhos ávidos de Vida

Fôrem vidas azuis e verdes,

 

Quando os meus olhos ávidos de Tudo

Fôrem todos azuis e verdes,...

 

… Então que venha o sonho côr de rosa!

 

In “Altura“ 

Cadernos de Poesia

N.º 1 de Fevereiro de 1945

 

Carlos Macedo

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Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2025

Recordando... Alexandra Malheiro

TEMPESTADES

 

Ouço os pássaros daqui

de onde estou.

Sei lá se somos o que dizemos

ou apenas aquilo que restou de nós

depois da tempestade.

 

Cada um de nós traz uma tempestade

por dentro dos olhos,

colada no peito,

cada um de nós traz um fogo manso

a arder-nos nas mãos,

a transir-nos no leito.

 

Ouço os pássaros daqui

de onde estou,

ou serão os meus olhos

que vejo voar depois da tempestade?

Ou serão as minhas asas pardas

a arder-me no dorso,

num tempo sem idade,

na minha insanidade.

 

In “Geografias Dispersas”

Editora Edita-Me

 

Alexandra Malheiro

(N.1972)

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