Sexta-feira, 13 de Dezembro de 2019

Recordando... António Ramos Rosa

AS PALAVRAS TÊM ROSTO…

 

As palavras têm rosto: ou de silêncio ou de sangue.

O cavalo que nos domina é uma sombra apenas.

Sem sílabas de água, avança até ao outono.

Uma árvore estende os ramos. As nuvens subsistem.

 

O cavalo é uma hipótese, uma paixão constante

Na rede das suas veias corre um sangue de tempo,

uma árvore se desloca com a alegria das folhas.

Árvore e cavalo transformam-se num só ente real.

 

Eu que acaricio a árvore sinto a força tenaz

da testa do cavalo, a eternidade férrea,

o ser em explosão e eu tão leve folha

 

na sombra deste ser animal vegetal

busco a razão perfeita, a humildade estática,

a força vertical de ser quem sou e o ar.

 

In "Círculo Aberto"

Ed. Caminho

 

António Ramos Rosa

(1924-2013)

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Sábado, 7 de Dezembro de 2019

Recordando... Eugénio de Andrade

CANÇÃO

 

Tu eras neve.

Branca neve acariciada.

Lágrima e jasmim

no limiar da madrugada.

 

Tu eras água.

Água do mar se te beijava. 

Alta torre, alma, navio,

adeus que não começa nem acaba.

 

Eras o fruto

nos meus dedos a tremer.

Podíamos cantar

ou voar, podíamos morrer.

 

Mas do nome

que maio decorou,

nem a cor

nem o gosto me ficou.

 

In “As palavras Interditas - Até Amanhã”

Assírio & Alvim

 

Eugénio de Andrade **

(1923-2005)

 

** Pseudónimo de José Fontinhas

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Domingo, 1 de Dezembro de 2019

Recordando... António Rebordão Navarro

O INVERNO

 

Sabíamos do mar sem o sabermos,

do mar dos mapas, da cor azul do mar,

dos naufrágios no mar,

do sol solto no mar.

 

Sabíamos do mar sem o sentirmos

nos poros dilatados pelo mar,

o verdejante mar escalando as montanhas

tão bruscas como o sal.

 

Sabíamos do mar em sinuosos sinos

assinalando a noite

com corações arrepiados,

abertos como mãos

sulcadas de cabelos e molhadas

de rugas e escamas.

 

Sabíamos do mar em signos, símbolos,

tropos e metáforas.

 

Sabíamos do mar?

Sabíamos o mar.

Sabíamos a mar

 

In “A Condição Reflexa” (Poemas, 1952-1982)

Imprensa Nacional-Casa da Moeda – Lisboa – 1990

 

António Rebordão Navarro

(1933-2015)

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Sábado, 30 de Novembro de 2019

Recordando... Rosa Alice Branco

DIAS MELHORES

 

A mulher espera as noites e também os dias,

esperta o lume enquanto, esperta a espera.

Há umas quantas coisas que a prendem, coisas

que arrecadou para a vida e já não servem.

Quem serve é ela e serve a Deus desfiando o rosário

pelos que já lá estão.

Por aqui vai-se indo, vai-se levando a vida

para o outro lado enquanto se esperam dias melhores,

dias mecânicos, a labuta dos músculos, a cabeça em paz

e a noite cansada, os pensamentos cansados,

o sofrimento cansado só quer estender o corpo

até de manhã. Quando mal nunca pior,

o café quente, o pão acabado de fazer

como se fosse cedo e as mãos na sua azáfama

pudessem fazer os dias gloriosos as noites luminosas

com que sonhou e já não servem. Agora só a espera

e as coisas que foi arrecadando para a morte.

 

In “Da Alma e dos Espíritos Animais”

Editora Campo das Letras

 

Rosa Alice Branco

(N.1950)

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Segunda-feira, 25 de Novembro de 2019

Recordando... Orlando Neves

LEVA-LHE AS PALAVRAS O PENSAMENTO

 

Leva-lhe as palavras o pensamento, posto

nos vitrais sangrentos da catedral, quando

os lábios de Laura rezam. Na solene

fixidez do silêncio, entre as pedras erectas,

 

vindas do sol, as orações de Laura ateiam

o incêndio, devoram o coração

de Francesco. Dentro, em algum canto do coro,

cantam as musas. Sob o ruído atroante

 

das naves ao céu, na solene fixidez

do silêncio, vão as palavras fugindo,

linhas de luz e noite no novo vitral

 

de cores lunares, desenhado nas mãos

rígidas do poeta. O canto poderoso

repete a eterna impiedade do amor.

 

In “Nocturnidade”

Campo das Letras – 1999

 

Orlando Neves

(1935 -2005)

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Terça-feira, 19 de Novembro de 2019

Recordando... Sophia de Mello Breyner Andresen

EIS-ME

 

Eis-me

Tendo-me despido de todos os meus mantos

Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses

Para ficar sozinha ante o silêncio

Ante o silêncio e o esplendor da tua face

 

Mas tu és de todos os ausentes o ausente

Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca

O meu coração desce as escadas do tempo

[em que não moras

E o teu encontro

São planícies e planícies de silêncio

 

Escura é a noite

Escura e transparente

Mas o teu rosto está para além do tempo opaco

E eu não habito os jardins do teu silêncio

Porque tu és de todos os ausentes o ausente

 

In “Livro Sexto”

Assírio & Alvim

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

(1919-2004)

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Quarta-feira, 13 de Novembro de 2019

Recordando... Vasco Costa Marques

ÚLTIMO POEMA DO AMOR AUSENTE

 

Todo o corpo lhes dói de acertar os relógios

De momento a momento às vantagens do tempo

Meu amor meu amor tem por vezes o gosto

Do veneno sorvido ao desabar das pontes

 

A mais frágil aragem os confunde

O espaço aberto enreda-lhes os passos

O convívio da vida esboroa as palavras

A liberdade é um peso enorme nos seus ombros

 

«Tudo quando perdi na violência do tempo

Veio hoje até mim como o espinho da flor

Como o operário morto entre o ferro e o cimento

Da construção do amor

 

Foi um lento e incógnito perfume

Foi um lago sem margens intransposto

Foi uma pedra vermelha de lume

O mais belo sorrir de desgosto»

 

In “Poesia dos Dias Úteis”

Publicações Europa-América

 

Vasco Costa Marques

(1928-2006)

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Quinta-feira, 7 de Novembro de 2019

Recordando... Edgar Carneiro

ENLEIOS

 

Que direi de enleios,

galanteios ternos

prematuro voo

da miragem tonta?

 

Onde estão represos

os murmúrios de água

deslizando lenta

no dossel dos montes?

 

Já não sinto as aves

nem sequer as penas

adejando soltas.

 

Quanto às águas sei

ir morrer de sede

mesmo vendo as fontes.

 

In “Périplo”

Edições Húmus - 2009

 

Edgar Carneiro

(1913-2011)

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Sexta-feira, 1 de Novembro de 2019

Recordando... Al Berto

MUDANÇA DE ESTAÇÃO

 

Para te manteres vivo - todas as manhãs

arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e

o mesmo fazes com a alma - puxas-lhe brilho

regas o coração e o grande feto verde-granulado

 

deixas o verão deslizar de mansinho

para o cobre luminoso do outono e

às primeiras chuvadas recomeças a escrever

como se em ti fertilizasses uma terra generosa

cansada de pousio - uma terra

necessitada de águas de sons de afectos para

intensificar o esplendor do teu firmamento

 

passa um bando de andorinhões rente à janela

sobrevoam o rosto que surge do mar - crepúsculo

donde se soltaram as abelhas incompreensíveis

da memória

 

luzeiros marinhos sobre a pele - peixes

que se enforcam com a corda de noctilucos

estendida nesta mudança de estação

 

In “Horto de incêndio”

Assírio & Alvim

 

Al Berto **

(1848-1997)

 

** Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Quinta-feira, 31 de Outubro de 2019

Recordando... António Feijó

HYMNO Á ALEGRIA

 

(A Carlos Malheiro Dias)

 

 

Tenho-a visto passar, cantando, á minha porta,

E ás vezes, bruscamente, invadir o meu lar,

Sentar-se á minha mesa, e a sorrir, meia morta,

Deitar-se no meu leito e o meu somno embalar.

 

Tumultuosa, nos seus caprichos desenvoltos,

Quasi meiga, apesar do seu riso constante,

D'olhos a arder, labios em flor, cabellos soltos,

A um tempo é cortesã, deusa ingenua ou bachante...

 

Quando ella passa, a luz dos seus olhos deslumbra;

Tem como o sol d'inverno um brilho encantador;

Mas o brilho é fugaz, – scintilla na penumbra,

Sem que d'elle irradie um facho creador.

 

Quando menos se espera, irrompe d'improviso;

Mas foge-nos tambem com uma presteza egual;

E d'ella apenas fica um pállido sorriso

Traduzindo o desdem d'uma illusão banal.

 

Onda mansa que só á superficie corre,

Toda a alegria é vã; só a Dor é fecunda!

A Dor é a Inspiração, louro que nunca morre,

Se em nós crava a raiz exhaustiva e profunda!

 

No entanto, eu te saudo e louvo, hora dourada,

Em que a Alegria vem extinguir, de surpresa,

Como chuva a cair numa planta abrasada,

A fornalha em que a Dor se transmuta em Belleza!

 

Pensar, é certo, eleva o espirito mais alto;

Soffrer torna melhor o coração; depura

Como um crysol: a chispa irrompe do basalto,

Sae o oiro em fusão da escoria mais impura.

 

A Alegria é fallaz; só quem soffre não erra,

Se a Dor o eleva a Deus, na palavra que o louve;

A Alma, na oração, desprende-se da terra;

Jamais o homem é vão deante de Deus que o ouve!

 

E comtudo, – illusão! – basta  que ella sorria,

Basta vê-la de longe, um momento, a acenar,

Vamos logo em tropel, no capricho do dia,

Como ébrios, Evohé! atrás d'ella a cantar!

 

Mas se ella, de repente, ao nosso olhar se furta,

Todo o seu brilho é pó que anda no sol disperso;

A Alegria perfeita é uma aurora tão curta,

Que mal chega a doirar as cortinas do berço.

 

Ás vezes, essa luz de tão fragil encanto,

Vem ainda banhar certas horas da Vida,

Como um iris de paz numa névoa de pranto,

Crepitação, fulgor d'uma estrella perdida.

 

Então, no resplendor d'essa aurora bemdita,

Toma corpo a illusão, e sem áncias, sem penas,

O espirito remoça, o coração palpita,

Seja a nossa alma embora uma saudade apenas!

 

Mas ephémera ou vã, a Alegria... que importa?

Deusa ingenua ou bachante, o seu riso clemente,

Quando, mesmo de longe, echôa á nossa porta,

Deixa em louco alvoroço o coração da gente!

 

Momentánea ou fallaz, é sempre um dom divino,

Sol que um instante vem a nossa alma aquecer...

Podesse eu celebrar teu louvor no meu Hymno!

Momentáneo, fallaz encanto de viver!

 

O teu sorriso enxuga o pranto que choramos,

E eu não sei traduzir a ventura que exprimes!

Nesta sentimental lingua que nós falamos,

Só a Dor e a Paixão têm accordes sublimes!

 

(Mantem a grafia original)

 

In “Sol de Inverno”

 

António Feijó

(1859-1917)

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito

.Eu

.pesquisar

 

.Dezembro 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.Visitas desde Agosto.2008

contador grátis

.Ano XIII

.posts recentes

. Recordando... António Ram...

. Recordando... Eugénio de ...

. Recordando... António Reb...

. Recordando... Rosa Alice ...

. Recordando... Orlando Nev...

. Recordando... Sophia de M...

. Recordando... Vasco Costa...

. Recordando... Edgar Carne...

. Recordando... Al Berto

. Recordando... António Fei...

.arquivos

. Dezembro 2019

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

.tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds