Sexta-feira, 19 de Abril de 2019

Recordando... Gastão Cruz

QUE FAREI NO OUTONO QUANDO ARDEM

 

Que farei no Outono quando ardem

as aves e as folhas e se chove

é sobre o corpo descoberto que arde

a água do Outono

 

Que faremos do corpo e da vontade

de o submeter ao fogo do Outono

quando o corpo se queima e quando o sono

sob o rumor da chuva se desfaz

 

Tudo desaparece sob o fogo

tudo se queima tudo prende a sua

secura ao fogo e cada corpo vai-se

 

prendendo ao fogo raso

pois só pode

arder imenso quando tudo arde

 

In “Outro Nome/ Escassez/ As Aves”

Assírio & Alvim

 

Gastão Cruz

(N.1941)

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Sábado, 13 de Abril de 2019

Recordando... Fernanda de Castro

O SEGREDO É AMAR

 

O segredo é amar. Amar a Vida

com tudo o que há de bom e mau em nós.

Amar a hora breve e apetecida,

ouvir os sons em cada voz

e ver todos os céus em cada olhar.

 

Amar por mil razões e sem razão.

Amar, só por amar,

com os nervos, o sangue, o coração.

Viver em cada instante a eternidade

e ver, na própria sombra, claridade.

 

O segredo é amar, mas amar com prazer,

sem limites, fronteiras, horizonte.

Beber em cada fonte,

florir em cada flor,

nascer em cada ninho,

sorver a terra inteira como o vinho.

 

Amar o ramo em flor que há-de nascer,

de cada obscura, tímida raiz.

Amar em cada pedra, em cada ser,

  1. Francisco de Assis.

 

Amar o tronco, a folha verde,

amar cada alegria, cada mágoa,

pois um beijo de amor jamais se perde

e cedo refloresce em pão, em água!

 

In "Trinta e Nove Poemas"

Editorial Império

 

Fernanda de Castro

(1900-1994)

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Domingo, 7 de Abril de 2019

Recordando... Camilo Pessanha

CREPUSCULAR

 

Há no ambiente um murmúrio de queixume,

De desejos de amor, d'ais comprimidos...

Uma ternura esparsa de balidos,

Sente-se esmorecer como um perfume.

 

As madressilvas murcham nos silvados

E o aroma que exalam pelo espaço,

Tem delíquios de gozo e de cansaço,

Nervosos, femininos, delicados,

 

Sentem-se espasmos, agonias d'ave,

Inapreensíveis, mínimas, serenas...

- Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,

O meu olhar no teu olhar suave.

 

As tuas mãos tão brancas d'anemia...

Os teus olhos tão meigos de tristeza...

- É este enlanguescer da natureza,

Este vago sofrer do fim do dia.

 

In “Poemas de Amor”

Versões Ana Leal

Edição Alma Azul – Janeiro.2006

 

Camilo Pessanha

(1867-1926) 

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Segunda-feira, 1 de Abril de 2019

Recordando... Afonso Lopes Vieira

DANÇA DO VENTO

O vento é bom bailador,

Baila, baila e assobia.

Baila, baila e rodopia

E tudo baila em redor.

E diz às flores, bailando:

- Bailai comigo, bailai!

E elas, curvadas, arfando,

Começam, débeis, bailando.

E suas folhas, tombando,

Uma se esfolha, outra cai.

E o vento as deixa, abalando,

- E lá vai!...

O vento é bom bailador,

Baila, baila e assobia,

Baila, baila e rodopia,

E tudo baila em redor.

E diz às altas ramadas:

Bailai comigo, bailai!

E elas sentem-se agarradas

Bailam no ar desgrenhadas,

Bailam com ele assustadas,

Já cansadas, suspirando;

E o vento as deixa, abalando,

E lá vai!...

O vento é bom bailador,

Baila, baila e assobia

Baila, baila e rodopia,

E tudo baila em redor!

E diz às folhas caídas:

Bailai comigo, bailai!

No quieto chão remexidas,

As folhas, por ele erguidas,

Pobres velhas ressequidas

E pendidas como um ai,

Bailam, doidas e chorando,

E o vento as deixa abalando

- E lá vai!

O vento é bom bailador,

Baila, baila e assobia,

Baila, baila e rodopia,

E tudo baila em redor!

E diz às ondas que rolam:

- Bailai comigo, bailai!

E as ondas no ar se empolam,

Em seus braços nus o enrolam,

E batalham,

E seus cabelos se espalham

Nas mãos do vento, flutuando

E o vento as deixa, abalando,

E lá vai!...

O vento é bom bailador,

Baila, baila e assobia,

Baila, baila e rodopia,

E tudo baila em redor!

 

In “Antologia Poética"

Guimarães Editores - 1966

 

Afonso Lopes Vieira

(1878-1946)

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Domingo, 31 de Março de 2019

Recordando... Orlando Neves

MUITAS CIDADES VIU PELA ÚLTIMA VEZ

 

Muitas cidades viu pela última vez, mares

que sulcou, sentimentos que sentiu,

jardins onde esteve, bosques onde sonhou,

amores que recorda, ruas que pisou,

 

poemas que o possuíram, neves onde

se corroeu, corpos de que foi parte, céus

que desabaram, dores que sofreu, palavras

jamais lembradas, alegrias que perdeu

 

– fragmentos de vidas irrepetíveis, como

esses segundos que fogem quando fulgem

os olhos de Laura. Só o trabalho do corpo

 

rompe o hímen do inconsolável tempo perdido.

Reaprende Francesco a sede do instante, a vida

rápida na memória dos olhos de Laura.

 

In “Nocturnidade”

Campo das Letras – 1999

 

Orlando Neves

(1935 -2005)

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Segunda-feira, 25 de Março de 2019

Recordando... Manuel da Fonseca

MENINO

 

No colo da mãe

a criança vai e vem

vem e vai

balança.

Nos olhos do pai

nos olhos da mãe

vem e vai

vai e vem

a esperança.

 

Ao sonhado

futuro

sorri a mãe

sorri o pai.

Maravilhado

o rosto puro

da criança

vai e vem

vem e vai

balança.

 

De seio a seio

a criança

em seu vogar

ao meio

do colo-berço

balança.

 

Balança

como o rimar

de um verso

de esperança.

 

Depois quando

com o tempo

a criança

vem crescendo

vai a esperança

minguando.

E ao acabar-se de vez

fica a exacta medida

da vida

de um português.

 

Criança

portuguesa

da esperança

na vida

faz certeza

conseguida.

Só nossa vontade

alcança

da esperança

humana realidade.

 

In “Poemas para Adriano”

 

Manuel da Fonseca

(1911-1993)

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Terça-feira, 19 de Março de 2019

Recordando... José Agostinho Baptista

É NO SUL ONDE ME DEMORO

 

É no sul onde me demoro.

Há uma varanda em frente onde espero o

entardecer,

essa hora mais lenta,

limiar da noite e do coração, quando soam os

punhais.

 

Estranhas são as nuvens deste céu litoral.

Passam, param,

soltam-se em intoleráveis figuras,

animais do vento, altíssima visão.

 

à esquerda é o caminho para o areal.

Do outro lado alguém toca,

os dedos ferem as cordas,

florescem as notas de um lamento distante.

 

Quantas noites estarei aqui,

nesta varanda do sul,

no entardecer destes países,

nas cordas de um cântico mortal?

 

In "Morrer no Sul"

Assírio & Alvim (1983)

 

José Agostinho Baptista

(N.1948)

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Quarta-feira, 13 de Março de 2019

Recordando... António Gancho

ABERTURA

 

Eu abria o rádio

eu abria o aparelho

era uma flor branca que eu abria

de sopro

eu soprava e eu abria a flor

A flor tocava música com as várias mãos

das pétalas

A flor tocava uma simbolização dum tempo

caído podre de espera de cor branca

O tempo espera-se em pintar-se

de branco

para cegar uma cor

mas a minha flor abria-se de

pétalas

e as várias mãos escreviam um

piano por cima de teclas grãos vários

seguidos uns aos outros.

Era assim uma harmonia

entre flor

tempo a querer-se de cor branca em cegar

era assim umas teclas cantarem filhos de grãos

por dentro dos grãos mesmos

unidos que eram em dimensão de lado

era assim um cantar-me o tempo todo

não era assim um cantar-me o tempo todo

era assim um pairar-me

o tempo todo em Nijinsky

o tempo em um fazer-me ballet pelo quarto inteiro

quando eu tinha aberta a cabeça que imagino

da música

Abria a pétala favorita do harém

onde no centro um sultão da flor

no centro que era o amarelo da flor

abria a pétala favorita da flor

e então

e era então que me soava dentro da manhã

do quarto

uma música desfibrada de tempo serôdio

como se tudo me fosse em longe

como se a música levasse longe

o céu.

 

In “O Ar da Manhã”

Assírio & Alvim

 

António Gancho

(1940-2006)

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Quinta-feira, 7 de Março de 2019

Recordando... Camilo Castelo Branco

A MAIOR DOR HUMANA

 

(Na morte quase simultânea dos

dois filhos únicos de Teófilo Braga)

 

Que imensas agonias se formaram

Sob os olhos de Deus! Sinistra hora

Em que o homem surgiu! Que negra aurora,

Que amargas condições o escravizaram!

 

As mãos, que um filho amado amortalharam,

Erguidas buscam Deus. A Fé implora…

E o céu que respondeu? As mãos baixaram

Para abraçar a filha morta agora.

 

Depois, um pai que em trevas vai sonhando,

E apalpa as sombras deles onde os viu

Nascer, florir, morrer!... Desastre infando!

 

Ao teu abismo, pai, não vão confortos…

És coração que a dor empederniu,

Sepulcro vivo de dois filhos mortos.

 

(Grafia actualizada)

 

In “Nas Trevas” 

Tavares Cardoso & Irmão - 1890 

 

Camilo Castelo Branco

(1825-1890)

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Sexta-feira, 1 de Março de 2019

Recordando... Alexandra Malheiro

MORTE ÀS PALAVRAS

 

Tantas vezes que me apetece

matar as palavras ou

ficar quieta num canto à espera

que elas me matem.

Assassiná-las à paulada

é que era bom,

arrastá-las pelos cabelos,

arrancar-lhes os olhos,

as tripas, as guelras,

uma coisa de sangue e entranhas,

desentranhá-las de mim.

Tantas vezes me apetece

romper com as palavras,

deixar de ser servil e

pô-las ao meu serviço

e cuspir-lhes nos olhos

um desaforo qualquer,

dizer-lhes bem alto

para os vizinhos ouvirem:

“Ide para a frase que vos pariu

 

In “Geografias Dispersas”

Editora Edita-Me

 

Alexandra Malheiro

(N.1972)

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