Domingo, 19 de Setembro de 2021

Recordando... Cristovam Pavia **

REGRESSO AO PARAÍSO

 

Quando o meu sangue correr

Nas ribeiras frescas do mundo,

Descansado o vermelho em água transparente,

Perdida a febre em débeis flores submersas...

 

In “ÁRVORE ”

Folhas de Poesia

1.º Fascículo - Outono de 1951

Pág. 17

 

Cristovam Pavia **

(1933-1968)

 

** Pseudónimo de Francisco António Lahmeyer Flores

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Segunda-feira, 13 de Setembro de 2021

Recordando... António Ferreira

QUANDO ENTOAR COMEÇO COM VOZ BRANDA

Quando entoar começo com voz branda
Vosso nome de amor, doce, e suave,
A terra, o mar, vento, água, flor, folha, ave
Ao brando som se alegra, move, e abranda.

Nem nuvem cobre o céu, nem na gente anda
Trabalhoso cuidado, ou peso grave,
Nova cor toma o Sul, ou se erga, ou lave
No claro Tejo, e nova luz nos manda.

Tudo se ri, se alegra, e reverdece.
Todo mundo parece que renova.
Nem há triste planeta, ou dura sorte.

A minh'alma só chora, e se entristece,
Maravilha de Amor cruel, e nova!
O que a todos traz vida, a mim traz morte.

 

In “Poemas Lusitanos” – 1598

Mandado publicar por seu filho, Miguel Leite Ferreira

 

António Ferreira

(1528-1569)

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Terça-feira, 7 de Setembro de 2021

Recordando... Francisco José Viegas

DESEMBARCAR SUBITAMENTE NO MEIO DO MAR

 

Surpresa e contentamento de te ver e não saber

o teu nome nem a distância que vai dos lábios às rosas,

a sua diferença subtil - desembarcar no mar e

largar os navios à sua longa vagem, porque uma voz

nos chama, e não sabemos que voz nos chama,

e ser a tua voz sem saber que é teu o rasto

dos pássaros, o que resta das marés.

 

In "Metade da Vida"

Quasi Edições

 

Francisco José Viegas

(N.1962)

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Quarta-feira, 1 de Setembro de 2021

Recordando... António Feijó

O LIVRO DA VIDA

 

Absorto, o Sabio antigo, estranho a tudo, lia...

– Lia o «Livro da Vida»,– herança inesperada,

Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria

Ao primeiro clarão da primeira alvorada.

 

Perto d'elle caminha, em ruidoso tumulto,

Todo o humano tropel num clamor ululando,

Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto,

Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.

 

Passa o estio, a cantar; accumulam-se invernos;

E elle sempre, – inclinada a dorida cabeça, –

A ler e a meditar postulados eternos,

Sem um fanal que o seu espirito esclareça!

 

Cada pagina abrange um estádio da Vida,

Cujo eterno segredo e alcance transcendente

Elle tenta arrancar da folha percorrida,

Como de mina obscura a pedra refulgente.

 

Mas o tempo caminha; os annos vão correndo;

Passam as gerações; tudo é pó, tudo é vão...

E elle sem descansar, sempre o seu Livro lendo!

E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão.

 

Nesse eterno scismar, nada vê, nada escuta:

Nem o tempo a dobar os seus annos mais bellos,

Nem o humano soffrer, que outras almas enluta,

Nem a neve do inverno a pratear-lhe os cabellos!

 

Só depois de voltada a folha derradeira,

Já próximo do fim, sobre o livro, alquebrado,

É que o Sábio entreviu, como numa clareira,

A luz que illuminou todo o caminho andado...

 

Juventude, manhãs d'Abril, boccas floridas,

Amor, vozes do Lar, éstos do Sentimento,

– Tudo viu num relance em imagens perdidas,

Muito longe, e a carpir, como em nocturno vento.

 

Mas então, lamentando o seu esteril zêlo,

Quando viu, a essa luz que um instante brilhou,

Como o Livro era bom, como era bom relê-lo,

Sobre elle, para sempre, os seus olhos cerrou...

 

(mantém a grafia original)

 

In “Sol de Inverno”   

Editora Aillaud & Bertrand

 

António Feijó

(1859-1917)

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Terça-feira, 31 de Agosto de 2021

Recordando... Guerra Junqueiro

ADORAÇÃO

 

Eu não te tenho amor simplesmente. A paixão

Em mim não é amor; filha, é adoração!

Nem se fala em voz baixa à imagem que se adora.

Quando da minha noite eu te contemplo, aurora,

E, estrela da manhã, um beijo teu perpassa

Em meus lábios, oh! quando essa infinita graça

do teu piedoso olhar me inunda, nesse instante

Eu sinto – virgem linda, inefável, radiante,

Envolta num clarão balsâmico da lua,

A minh'alma ajoelha, trémula, aos pés da tua!

Adoro-te!... Não és só graciosa, és bondosa:

Além de bela és santa; além de estrela és rosa.

Bendito seja o deus, bendita a Providência

Que deu o lírio ao monte e à tua alma a inocência,

O deus que te criou, anjo, para eu te amar,

E fez do mesmo azul o céu e o teu olhar!...

 

In "Poesias dispersas"

 

Guerra Junqueiro

(1850-1923)

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Quarta-feira, 25 de Agosto de 2021

Recordando... Maria Teresa Horta

OS TEUS OLHOS

 

Direi verde

do verde dos teus olhos

 

de um rugoso mais verde

e mais sedento

 

Daquele não só íntimo

ou só verde

 

daquele mais macio    mais ave

ou vento

 

Direi vácuo

            volume

direi vidro

 

Direi dos olhos verdes

os teus olhos

e do verde dos teus olhos direi vício

 

Voragem mais veloz

mais verde

            ou vinco

voragem mais crispada

ou precipício

 

In “Candelabro”

Guimarães Editores

 

Maria Teresa Horta

(N.1937)

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Quinta-feira, 19 de Agosto de 2021

Recordando... Eugénio de Andrade **

CALA-TE, A LUZ ARDE ENTRE OS LÁBIOS

 

Cala-te, a luz arde entre os lábios,

e o amor não contempla, sempre

o amor procura, tacteia no escuro,

esta perna é tua?, é teu este braço?,

subo por ti de ramo em ramo,

respiro rente à tua boca,

abre-se a alma à língua, morreria

agora se mo pedisses, dorme,

nunca o amor foi fácil, nunca,

também a terra morre.

 

[Matéria Solar – XXV]

 

In “Antologia Breve”

5ª ed. – Outubro.1985

Editora Limiar

 

Eugénio de Andrade **

(1923-2005)

 

** Pseudónimo de José Fontinhas

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Sexta-feira, 13 de Agosto de 2021

Recordando... Glória de Sant'Anna

MOTIVO

 

Tudo o que vês

não é nada:

ou uma nuvem

ou uma palavra.

 

Tudo o que ouves

nada mais é:

o vento é lesto

e corre breve.

 

O que não vês

nem sabes mesmo

é que importava

se houvesse tempo.

 

In “Amaranto”

 

Glória de Sant'Anna

(1925-2009)

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Sábado, 7 de Agosto de 2021

Recordando... Virgínia do Carmo

NAUFRÁGIO

 

Fui enviada para o mar de madrugada.

Ninguém me avisou da melancolia dos peixes

ou da nudez das ondas. Nada me disseram

do silêncio. Sem luz que me escutasse as mãos,

rompi sem preceito alguma da escuridão.

Imperfeitamente.

 

Vieram, entretanto, outros mares contra o meu.

Cega, fui derrubada. Os peixes morreram-me

de susto. A nudez do resto permaneceu. Todas

as coisas se afundaram no tão fundo da minha

lucidez. Sou tão descabida de mim, agora, que

tudo se parte no meu corpo, devagar.

 

In "Ecos de Green Rose"

Poética Edições

 

Virgínia do Carmo

(N.1973)

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Domingo, 1 de Agosto de 2021

Recordando... Frei Agostinho da Cruz **

À COROA DE ESPINHOS

 

A que vindes, Senhor do Céu à terra,

Terra que sendo vossa vos enjeita,

E que tanto vos honra e vos respeita,

Que em não vos receber insiste e emperra?

 

Ah! Quanta ingratidão nela s’encerra!

Quão mal de vossa vinda se aproveita!

Pois se põe a tomar-vos conta estreita,

Mais brada contra vós, quanto mais erra.

 

E vós de vosso amor puro forçado

Os malditos espinhos lhe pisais,

Dos quais ainda sendo coroado,

 

A maldição antiga lhe trocais

Na bênção, que lhe dais crucificado,

Quando morto d’amor, d’amor matais.

 

In “Espelho dos Penitentes”

 

Frei Agostinho da Cruz **

(1540-1619)                                                                  

 

** Nome de nascimento Agostinho Pimenta

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