Quarta-feira, 25 de Maio de 2022

Recordando... Vergílio Ferreira

CAI A CHUVA ABANDONADA

 

Cai a chuva abandonada

à minha melancolia,

a melancolia do nada

que é tudo o que em nós se cria.

 

Memória estranha de outrora

não a sei e está presente.

Em mim por si se demora

e nada em mim a consente

 

do que me fala à razão.

Mas a razão é limite

do que tem ocasião

 

de negar o que me fite

de onde é a minha mansão

que é mansão no sem-limite.

Ao longe e ao alto é que estou

e só daí é que sou.

 

In “Conta-Corrente 1”

Livraria Bertrand - 1981

 

Vergílio Ferreira

(1916-1996)

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Quinta-feira, 19 de Maio de 2022

Recordando... Luís Veiga Leitão **

A CIDADE EQUESTRE

 

A cidade equestre

No rio mergulha

Seus cascos de granito

E sobe

A galope

Encosta arriba

 

Num salto a prumo

(Lá onde o casario morre)

Upa!

É uma torre

 

Torre de pedras e nuvem

De pássaros de fogo

De corpo de mulher

Torre de tudo e de quanto

O sonho

A palavra o canto

Pode e quer

 

Linhas do Trópico - 1977

 

In “Obra Completa”

Campo das Letras

 

Luís Veiga Leitão **

(1912-1987)

 

** Pseudónimo de Luís Maria Leitão

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Sexta-feira, 13 de Maio de 2022

Recordando... Manuel António Pina

COISAS QUE NÃO HÁ QUE HÁ

 

Uma coisa que me põe triste

é que não existe o que não existe.

(Se é que não existe, e isto é que existe!)

Há tantas coisas bonitas que não há:

coisas que não há, gente que não há,

bichos que já ouve e já não há,

livros por ler, coisas por ver,

feitos desfeitos, outros feitos por fazer,

pessoas tão boas ainda por nascer

e outras que morreram há tanto tempo!

Tantas lembranças de que não me lembro,

Sítios que não sei, invenções que não invento,

gente de vidro e de vento, países por achar,

paisagens, plantas, jardins de ar,

tudo o que eu nem posso imaginar

porque se o imaginasse já existia

embora num lugar onde só eu ia...

 

In “O pássaro da cabeça e mais versos para crianças”

Assírio & Alvim

 

Manuel António Pina

(1943-2012)

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Sábado, 7 de Maio de 2022

Recordando... Pedro Mexia

DUPLO IMPÉRIO

 

Atravesso as pontes mas

(o que é incompreensível)

não atravesso os rios,

preso como uma seta

nos efeitos precários da vontade.

 

Apenas tenho esta contemplação

das copas das árvores

e dos seus prenúncios celestes,

mas não chego a desfazer

as flores brancas e amarelas

que se desprendem.

 

As estações não se conhecem,

como lhes fora ordenado,

mas tecem o duplo império

do amor e da obscuridade. "

 

In "Duplo Império"

 

Pedro Mexia

(N.1972)

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Domingo, 1 de Maio de 2022

Recordando... Victor Oliveira Mateus

ATENTO MEU OLHAR SE REVIGORA

 

Atento meu olhar se revigora no cais sempre aberto

em que discorro. E sem o látego de impassíveis fantasias

ou de crenças usadas como socorro. À palavra me vou

dando no concreto que percorro. Observo ruas, rostos,

 

para lá de logros e madrugadas enganosas e sentado

no café insisto leituras que tento copiosas.

Mas se acaso, num inverno que já pressinto, relâmpagos

e trovões falsearem tudo o que vi, imune voltarei ao mesmo

 

tempo – indisfarçável véspera em que vivi. Atento meu olhar

se revigora neste cais, onde toda a cidade desfila eu eu,

sem máscara nem embuste, indago. Em cuidado me gostaria

 

para sempre, mas tal não posso neste ermo fustigado por duros

vendavais e monótona bonança. Que me fique a invendável

liberdade, listada a fogo com ferretes de esperança.

 

In “A irresistível voz de Ionatos”

Editora Labirinto

 

Victor Oliveira Mateus

(N.1952)

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Sábado, 30 de Abril de 2022

Recordando... Lília da Fonseca

CÂNTICO AO AMANHECER

 

Eu já não sou aquele frágil ser

que morria de angústia e desespero

por ir vogando, vogando sem rumo,

vogando, vogando na corrente da vida

para a morte…

 

Chocada,

magoada,

sensitiva…

 

Que formosura na sombra do mundo amanheceu,

que perfume de primavera estua nos caminhos,

que tudo se transforma

e acorda em sobressalto!

Eu dei as minhas mãos às mãos que vi estendidas,

juntei a minha voz ao cântico do amanhecer,

que reboa comovidamente

pleno de esperança e juventude,

e confundi meu coração

com os de todos os irmãos da minha humanidade.

 

E o frágil ser,

Chocado, magoado, sensitivo,

Morreu…

 

E só então pude exclamar:

Vida, vida, como eu te atraiçoava,

esperando tudo de ti

sem nada de mim te dar!

 

Na sombra do mundo estua a primavera

como sinal de um cântico que amanheceu!

 

In “Poemas da Hora Presente”

 

Lília da Fonseca

(1916-1991)

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Segunda-feira, 25 de Abril de 2022

Recordando... Maria Azenha

RECORDAÇÕES

 

Nenhum vestígio

Nenhuma noite impura

Nenhum país de lume

Nenhuma serra ali.

A tua ausência é tão funda

Que não regressa a ti.

 

In “Coração dos relógios”

Editora Pergaminho

 

Maria Azenha

(N.1945)

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Terça-feira, 19 de Abril de 2022

Recordando... Lídia Borges **

DESLIZAR PARA O POEMA E FICAR DE PÉ

 

Deslizar para o poema e ficar de pé,

imóvel sobre as imagens unicolores

dos cansaços,

deslembrados frutos e festas

de junhos calcinados em dispersão

pelas mãos. E os ouvidos atentos

ao murmúrio crescente da noite.

Não fosse oásis o teu olhar,

Cama, teus braços de amparar,

almofada de penas o teu peito.

Não fosses igual a um poema que

nos conduz ao carmim da tarde. Suavemente.

À casa onde se retoma pelos sentidos

na barca perene da memória,

a mesma de ontem, de hoje,

de amanhã ...

 

Não se ensombre o mar em olhos fatigados.

 

In “Garças” 

Poética Edições

 

Lídia Borges **

(N.1956)

 

** Pseudónimo de Olívia Maria Barbosa Guimarães Marques

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Quarta-feira, 13 de Abril de 2022

Recordando... Alice Ogando

QUANDO ME BEIJAS

 

Quando me beijas, sinto o teu olhar

Por vezes vago, estranho, indiferente,

E até já fui forçada a reparar

Que me não olhas franca, lealmente.

 

Qualquer coisa tu tens p’ra me ocultar

Uma razão existe, certamente.

Repara amor, como eu, p’ra te beijar

Olho bem os teus olhos frente a frente.

 

E quando emfim, as nossas duas bocas

Se unem famintas como duas loucas

E vêjo então o quanto me desejas,

 

Fico absorta e penso entristecida,

Em quem será essa desconhecida

Que tu estás a beijar, quando me beijas.

 

(Intimidade)

 

In “Poetisas de Hoje”

Editora Empreza do Díarío de Notícias - 1931

 

Alice Ogando

(1900-1981)

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Quinta-feira, 7 de Abril de 2022

Recordando... Judith Teixeira **

A ESTÁTUA

 

O teu corpo branco e esguio

Prendeu todo o meu sentido...

Sonho que pela noite, altas horas,

Aqueces o mármore frio

Do alvo peito entumecido...

 

E quantas vezes pela escuridão

A arder na febre de um delírio,

Os olhos roxos como um lírio

Venho espreitar os gestos que eu sonhei...

 

- Sinto os rumores duma convulsão,

A confessar tudo que eu cismei

 

Ó Vénus sensual!

Pecado mortal do meu pensamento!

Tens nos seios de bicos acerados,

Num tormento,

A singular razão dos meus cuidados

 

In "Noite luarenta" 1922

 

Judith Teixeira **

(1880-1959)

 

** Pseudónimo de Judite dos Reis Ramos Teixeira

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