VOLÚPIA
Era já tarde e tu continuavas
entre os meus braços trémulos, cansados...
E eu, sonolenta, já de olhos fechados,
bebia ainda os beijos que me davas!
Passaram horas!… Nossas bocas flavas,
muito unidas, em haustos repousados,
queimavam os meus sonhos macerados,
como rescaldos de candentes lavas.
Veio a manhã e o sol, feroz, risonho,
entrou na minha alcova adormecida,
quebrando o lírio roxo do meu sonho...
Mas deslumbrou-se... e em rúbidos adejos
Ajoelhou-se... e numa luz vencida,
Sorveu… sorveu o mel dos nossos beijos!
In “Poesia e Prosa”
Publicações Dom Quixote
Judith Teixeira **
(1880-1959)
** Judite dos Reis Ramos Teixeira
CONTRIÇÃO
A minha inteligência absolveu já
a minha culpa, numa lucidez
que me faz medo: Sim, sim, e oxalá
que ela acabe na dor que se desfez!
E uma análise fria é que me dá
a certeza da minha pequenez
ante a enormidade onde vergará
a linha nobre e vã desta altivez.
Sim, eu sei que se tu hoje pensares
volver-me esse amor rubro e sem beleza,
serei vulgar e igual às mais vulgares...
E quanto mais me quero condenar
mais luz se faz, e sinto esta tristeza:
- ser um mísero barro de quebrar!
In "Poemas"
Editora &etc
Judith Teixeira **
(1880-1959)
** Pseudónimo de Judite dos Reis Ramos Teixeira
O MEU CHINEZ
Nos olhos de sêda
traçados em viez,
tem um ar tão sensual
o meu Chinez…
Vive sobre uma almofada
de setim bordada,
pintado a côres.
Às vezes
numa ansia inquieta
que eu não mitigo,
e que me domina,
num sonho de poeta
ou de heroina,
fujo levando
o meu Chinez comigo!
E lá vamos!
Nem eu sei
para que alcovas orientais,
em que paizes distantes,
realisar
as horas sensuaes,
as horas delirantes
com que eu sonhei…
. . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Eu e o meu Chinez
temos fugido tanta, tanta vez!
In “Contemporanea”
Ano I – Volume II – Nº.6 - Ano 1922
Pág. 128
Mantém a grafia original
Judith Teixeira **
(1880-1959)
** Judite dos Reis Ramos Teixeira
A ESTÁTUA
O teu corpo branco e esguio
Prendeu todo o meu sentido...
Sonho que pela noite, altas horas,
Aqueces o mármore frio
Do alvo peito entumecido...
E quantas vezes pela escuridão
A arder na febre de um delírio,
Os olhos roxos como um lírio
Venho espreitar os gestos que eu sonhei...
- Sinto os rumores duma convulsão,
A confessar tudo que eu cismei
Ó Vénus sensual!
Pecado mortal do meu pensamento!
Tens nos seios de bicos acerados,
Num tormento,
A singular razão dos meus cuidados
In "Noite luarenta" 1922
Judith Teixeira **
(1880-1959)
** Pseudónimo de Judite dos Reis Ramos Teixeira
PODES TER OS AMORES QUE QUISERES...
Podes dizer que me não amas,
sim, podes dizê-lo,
e o mundo acreditar,
porque só eu saberei
que mentes!
Eu estou na tua alma
como a flama
que devora sob a cinza
as brasas dormentes...
Não creias no remorso
- o remorso não existe!
O que tu sentes
e o que em ti subsiste,
são o rubor da minha ternura
e a chama do meu amor
que em ti
nunca foram ausentes!...
Não julgues, não, que me esqueceste,
porque mentes a ti mesmo
se o disseres…
Podes ter os amores que quiseres,
que o teu amor por mim,
como uma dor latente e compungida,
há-de acompanhar sempre
a tua e a minha vida!
Fevereiro – Sol-posto
1924
In “Poesia e Prosa”
Publicações Dom Quixote
Judith Teixeira **
(1880-1959)
** Pseudónimo de Judite dos Reis Ramos Teixeira
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