AS PALAVRAS FEREM-SE NO VENTO...
As palavras ferem-se no vento,
retraem-se no íntimo da concha.
As palavras em hélice padecem
a tortura do indeciso tempo.
Saltam da alma como peixes. Ficam
asfixiantes na aridez da terra.
As palavras batem contra o espelho
e evitam o rosto reflectido.
A etimologia emigra no silêncio.
As palavras resignam. E o reino
da esfinge, frio, imperturbável.
As palavras espantam-se no vento
do claro Sol, da limpidez da água.
Os archeiros d'El-Rei pisam a noite
e exigem-lhes à entrada o passaporte.
O frio gládio alveja o peito
e as puríssimas vestes poisam, lentas.
Revistam-lhes as tranças e o sorriso
e mesmo assim a sentinela embarga
o limiar da linha alfandegária.
As palavras vestem o cilício
da conturbada hora em que nasceram
palpitantes, vívidas, certeiras.
As palavras à esquina do silêncio
rastejam ao luar, sob a fronteira.
In “ÁRVORE”
Folhas de Poesia
1.º Fascículo - Inverno de 1951-52
Pág.130/131
José Terra **
(1928-2014)
** Pseudónimo José Fernandes da Silva
OS DEUSES…
Os deuses, só de os pensar existem.
Quando me sento a esta mesa e deixo
que o pensamento se concentre, a flecha
fende os ares e o real e tomba
aonde os deuses libam o meu sangue.
Sanguessugas os deuses; e contudo
damos-lhes rostos para que se tornem
mais suportáveis no convívio absurdo
que nos impomos quando estamos sós.
São mudos os deuses. E é por isso
que o que não dizem nos isola e oprime.
Moscas são os deuses, quando zunem
no momento do sono, à nossa volta.
Por vezes riem e dançam, mas tão longe!
In “Espelho do Invisível”
Livraria Morais Editora
José Terra **
(1928-2014)
** Pseudónimo de José Fernandes da Silva
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