Sexta-feira, 21 de Março de 2008

Recordando... Poetas Séc. XX (3)... António Gedeão

 

PEDRA FILOSOFAL

 

Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida

tão concreta e definida

como outra coisa qualquer,

como esta pedra cinzenta

em que me sento e descanso,

como esta ribeira mansa

em serenos sobressaltos,

como estes pinheiros altos

que em verde e oiro se agitam,

como estas aves que gritam

em bebedeiras de azul.

 

Elas não sabem que o sonho

é vinho, é espuma, é fermento,

bichinho álacre e sedento,

de focinho pontiagudo,

que fossa através de tudo

num perpétuo movimento.

 

Eles não sabem que o sonho

é tela, é cor, é pincel,

base, fuste, capitel,

arco em ogiva, vitral,

pináculo de catedral,

contraponto, sinfonia,

máscara grega, magia,

que é retorta de alquimista,

mapa do mundo distante,

rosa-dos-ventos, Infante,

caravela quinhentista,

que é Cabo da Boa Esperança,

ouro, canela, marfim,

florete de espadachim,

bastidor, passo de dança,

Colombina e Arlequim,

passarola voadora,

pára-raios, locomotiva,

barco de proa festiva,

alto-forno, geradora,

cisão do átomo, radar,

ultra-som, televisão,

desembarque em foguetão

na superfície lunar.

 

Eles não sabe, nem sonham,

que o sonho comanda a vida.

Que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança

como bola colorida

entre as mãos de uma criança.

 

In “Movimento Perpétuo” – 1956

 

António Gedeão

1906 – 1997

 

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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

Recordando... Poetas do Séc. XX (2)... António Gedeão

 

LÁGRIMA DE PRETA

 

 

Encontrei uma preta

Que estava a chorar,

Pedi-lhe uma lágrima

Para a analisar.

 

Recolhi a lágrima

Com todo o cuidado

Num tubo de ensaio

Bem esterilizado.

 

Olhei-a de um lado,

Do outro e de frente:

Tinha um ar de gota

Muito transparente.

 

Mandei vir os ácidos,

As bases, os sais,

As drogas usadas

Em casos que tais.

 

Ensaiei a frio,

Experimentei ao lume,

De todas as vezes

Deu-me o que é costume:

 

Nem sinais de negro,

Nem vestígios de ódio,

Água (quase tudo)

E cloreto de sódio.

 

 

In "Poesias Completas"

 

António Gedeão

1906 – 1997

 

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