Segunda-feira, 7 de Agosto de 2023

Recordando... Fernanda de Castro

ESTA DOR QUE ME FAZ BEM

 

As coisas falam comigo

uma linguagem secreta

que é minha, de mais ninguém.

Quem sente este cheiro antigo,

o cheiro da mala preta,

que era tua, minha mãe?

 

Este cheiro de além-vida

e de indizível tristeza,

do tempo morto, esquecido...

Tão desbotada e puída

aquela fita escocesa

que enfeitava o teu vestido.

 

Fala comigo e conversa,

na linguagem que eu entendo,

a tua velha gaveta,

a vida nela dispersa

chega à cama onde me estendo

num perfume de violeta.

 

Vejo as tuas jóias falsas

que usavas todos os dias,

do princípio ao fim do ano,

e ainda oiço as tuas valsas,

minha mãe, e as melodias

que cantavas ao piano.

 

Vejo brancos, decotados,

os teus sapatos de baile,

um broche em forma de lira,

saia aos folhos engomados

e sobre o vestido um xaile,

um xaile de Caxemira.

 

Quantas voltas deu na vida

este álbum de retratos,

de veludo cor de tília?

Gente outrora conhecida,

quem lhe deu tantos maus tratos?

Serão todos da família?

 

Ai, vou fechar na gaveta

a lembrança dolorosa

dos teus laços de cetim,

dos teus ramos de violeta,

do leque de seda rosa

com varetas de marfim.

 

As coisas falam comigo

numa linguagem secreta,

que é minha, de mais ninguém.

Quero esquecer, não consigo.

Vou guardar na mala preta

esta dor que me faz bem.

 

In “E Eu, Saudosa, Saudosa”

 

Fernanda de Castro

(1900-1994)

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Segunda-feira, 1 de Agosto de 2022

Recordando... Fernanda de Castro

ATÉ QUE UM DIA...

 

Meus versos eram rosas, lírios, heras,

borboletas, regatos, cotovias

cantando suas doces melodias,

anjos, sereias, ninfas e quimeras.

 

Meus versos eram pombas entre as feras

e, na festa das horas e dos dias,

ia dançando penas e alegrias

e o ano tinha quatro primaveras.

 

E a festa continua... é também festa

o cardo e a urze, o tojo, a murta, a giesta,

a chuva no beiral, o vento Norte,

 

o gosto a mar, a lágrimas, a sal,

até que um dia a vida, a bem ou mal,

exausta de cantar me empreste à morte.

 

In "E Eu, Saudosa, Saudosa" - 1973

 

Fernanda de Castro

(1900-1994)

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Sábado, 13 de Abril de 2019

Recordando... Fernanda de Castro

O SEGREDO É AMAR

 

O segredo é amar. Amar a Vida

com tudo o que há de bom e mau em nós.

Amar a hora breve e apetecida,

ouvir os sons em cada voz

e ver todos os céus em cada olhar.

 

Amar por mil razões e sem razão.

Amar, só por amar,

com os nervos, o sangue, o coração.

Viver em cada instante a eternidade

e ver, na própria sombra, claridade.

 

O segredo é amar, mas amar com prazer,

sem limites, fronteiras, horizonte.

Beber em cada fonte,

florir em cada flor,

nascer em cada ninho,

sorver a terra inteira como o vinho.

 

Amar o ramo em flor que há-de nascer,

de cada obscura, tímida raiz.

Amar em cada pedra, em cada ser,

  1. Francisco de Assis.

 

Amar o tronco, a folha verde,

amar cada alegria, cada mágoa,

pois um beijo de amor jamais se perde

e cedo refloresce em pão, em água!

 

In "Trinta e Nove Poemas"

Editorial Império

 

Fernanda de Castro

(1900-1994)

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Quinta-feira, 30 de Novembro de 2017

Recordando... Fernanda de Castro

NÃO FORA O MAR!

 

Não fora o mar,

e eu seria feliz na minha rua,

neste primeiro andar da minha casa

a ver, de dia, o sol, de noite a lua,

calada, quieta, sem um golpe de asa.

 

Não fora o mar,

e seriam contados os meus passos,

tantos para viver, para morrer,

tantos os movimentos dos meus braços,

pequena angústia, pequeno prazer.

 

Não fora o mar,

e os seus sonhos seriam sem violência

como irisadas bolas de sabão,

efémero cristal, branca aparência,

e o resto — pingos de água em minha mão.

 

Não fora o mar,

e este cruel desejo de aventura

seria vaga música ao sol pôr

nem sequer brasa viva, queimadura,

pouco mais que o perfume duma flor.

 

Não fora o mar

e o longo apelo, o canto da sereia,

apenas ilusão, miragem,

breve canção, passo breve na areia,

desejo balbuciante de viagem.

 

Não fora o mar

e, resignada, em vez de olhar os astros

tudo o que é alto, inacessível, fundo,

cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,

iria de olhos baixos pelo mundo.

 

Não fora o mar

e o meu canto seria flor e mel,

asa de borboleta, rouxinol,

e não rude halali, garra cruel,

Águia Real que desafia o sol.

 

Não fora o mar

e este potro selvagem, sem arção,

crinas ao vento, com arreio,

meu altivo, indomável coração,

 

Não fora o mar

e comeria à mão,

não fora o mar

e aceitaria o freio.

 

In "Trinta e Nove Poemas"

Edições Ocidente - Editorial Império

 

Fernanda de Castro

(1900-1994)

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Quinta-feira, 31 de Março de 2016

Recordando... Fernanda de Castro

CANTA. BUSCA NA VIDA O QUE É PERFEITO

 

Canta. Busca na vida o que é perfeito.

Olha o sol e não queiras outro guia.

Sonha com a noite e absorve, aspira o dia,

tal uma flor que te florisse ao peito.

 

Da terra maternal, faz o teu leito.

Respira a terra e bebe o luar. Confia.

Faz de cada pena uma alegria

e um bem de cada mal insatisfeito.

 

Colhe todas as flores do jardim,

todos os frutos do pomar e enfim

colhe todos os sonhos do universo.

 

Procura eternizar cada momento,

Fecha os olhos a todo o sofrimento

E terás feito a carne do teu verso.

 

In “Daquém e Dalém Alma”

Editorial Império

 

Fernanda de Castro

(1900-1994)

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