FONS VITÆ
Dá o sangue mas está suspenso no ar:
venceu a força da gravidade
e ali prossegue, figura de martírio,
sangrando para a vasca. Personagens
em torno dela ajoelham. Não é
para menos: trata-se do Cristo
Redentor. O sangue faz ajoelhar
os poderosos que há séculos
fazem correr sangue alheio
em nome desse Cristo − prática normal
das religiões. Mistério é o modo como
veio sangrar a esta cidade, nas paredes
da Misericórdia. Mistério a que faltam
referências decerto condutoras ao ouro
brasileiro e a papéis perdidos
de doadores soterrados nos desvãos
anónimos da história, um puzzle
a que sempre faltam peças. Ali está ele,
fonte inesgotável na sua cruz,
fonte de vida segundo o título.
No fundo há uma paisagem, mas o Cristo
volta as costas à flora flamenga:
apenas sangra, não se sabe o que vê
suspenso sobre o mundo que não é o seu.
O rei que olha e medita o significado
daquele sangue (se é que é o rei)
irá erguer-se e finalmente assinar
o decreto da Santa Inquisição. Sairá
daquele quadro cheio de dúvidas, mas
o sangue continuará a correr, agora
fonte de morte − mas benzida
pelo selo real do Venturoso.
In “Entre Mim e a Minha Morte Há Ainda um Copo de Crepúsculo”
Campo das Letras - 2006
Egito Gonçalves
(1920 -2001)
VIAGEM
Com um sobressalto cessa o realejo…
Outra vez o pequeno quarto, outra vez as paredes,
as sujas paredes albergando objectos familiares
de utilidade definida, visíveis a olho nu.
Outra vez tudo como antes da viagem. Agora
a, escada de corda atravessou a clarabóia,
parou no meio do quarto, desci por ela – Aqui estou!
A mulher que se desprende de mim e se levanta
é uma estranha e nua criatura… De onde a recordo?
Um odor irritante apossa-se do ar,
um odor acre sem nada de sobrenatural
mas que dissolve a escada de corda como um ácido.
Tudo está completo dentro da sua dimensão;
vem de longe o eco de risos e de vozes;
o sonho está cicatrizado. A mulher atravessa o quarto
e grita para além da porta, numa estridência aguda:
– ÁGUA.
In “ÁRVORE ”
Folhas de Poesia
1.º Fascículo - Outubro de 1951
Pág. 58
Egito Gonçalves
(1920-2001)
O TEU NOME É UM VOCÁBULO
O teu nome é um vocábulo
de amor, uma carícia
que a língua desenvolve.
Não o posso pronunciar
em voz alta
quando não estou só. As
respirações alheias
corrompem: poderia
dissolver-se no vento,
fragmentar-se
perder
o seu mistério indecifrável,
desviar
a flecha do seu alvo.
Pronuncio-o eliminando
o som, das duas sílabas
que rolam no meu corpo,
abrem os poros e,
pelos olhos,
enviam a mensagem necessária
ao suporte de Outubro.
Tudo canta, rodeando o silêncio,
a ligeira brisa que perfuma
as letras
quando passas a porta
e o teu sorriso doce
avança para mim
A garganta abre-se,
as sílabas esvoaçam, transformam
o espaço em música,
os acordes da água:
o meu corpo é agora um piano
onde a alegria abre
a felicidade, as suas asas.
In “Os Confrades da Poesia”
Boletim Mensal Nº 43 – Dezembro.2011
Egito Gonçalves
(1920-2001)
O VALOR DAS PALAVRAS
Penso Liberdade, Esperança...
Palavras que possuem tua cor,
teu ritmo, identifico-as
com o teu rosto. Nelas
me reconheço.
E sou livre
e espero.
Penso palavras que erguem
a claridade. Respiro-as
com o vento, o cheiro da resina.
Macias pestanas que auxiliam
a acordar sem fadiga. Laranjas
que eliminam a sede.
Sorris-me
e acordo.
In “Memórias de Setembro"
Edição Notícias do Bloqueio
Egito Gonçalves
(1920-2001)
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