POENTE
As minhas sensações – barcos sem velas –
Erram de mim. Occaso rôxo. Scismo.
Meus olhos de Não-ver-me são janellas
Dando sobre o abysmo.
Abysmo d'Outro Ser. E a Hora chora
Nostalgica de Si, mas eu de vê-las
Erro de Ser-me, e a noite sem estrellas
Apavora.
Delirio rôxo d'agonia. Prece.
Poente feito noite. Escuridão.
Perturbo-me de mim em sensação
E dentro em mim desfallece
E anoitece
A sombra do meu Ser na solidão
Do dia que morreu
E se perdeu
E jámais amanhece.
Lisboa – 1914
(mantém a grafia da época)
In “ORPHEU”
Revista Trimestral de Literatura
Vol. I – 1915
Armando Côrtes-Rodrigues
(1891-1971)
ANOITECER
Ficou o céu descòrado…
E a Noite, que se avizinha,
Vem descendo ao povoado,
Como trôpega velhinha.
Para a guiar com cuidado
Veio-lhe ao encontro a Tardinha,
Não fosse a Noite sozinha
Perder-se em caminho errado.
Vão as duas caminhando…
E como o Sol já não arde,
Para o caminho ir mostrando
A primeira estrêla brilha…
Então diz a Noite à Tarde:
– Vai-te deitar minha filha.
In “Alma Nova” – Revista de Ressurgimento Nacional
III Série Nos. 4 a 6 Dezembro – Março 1923
Edição da Emprêsa de Arte e Publicidade “Ressurgimento”
Armando Côrtes-Rodrigues
1891 – 1971
Mantém a grafia original
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