Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2023

Recordando... António Gedeão **

A UM TI QUE EU INVENTEI

 

Pensar em ti é coisa delicada.

É um diluir de tinta espessa e farta

e o passá-la em finíssima aguada

com um pincel de marta.

 

Um pesar grãos de nada em mínima balança,

um armar de arames cauteloso e atento,

um proteger a chama contra o vento,

pentear cabelinhos de criança.

 

Um desembaraçar de linhas de costura,

um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,

um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

 

Penso em ti com tamanha ternura

como se fosses vidro ou película de loiça

que apenas com o pensar te pudesses partir.

 

[Máquina de Fogo, 1961]

 

In “Poesia Completa - António Gedeão”

Edições João Sá da Costa, Lda.

 

António Gedeão **

(1906-1997)

 

** Pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho

publicado por cateespero às 00:00
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Terça-feira, 1 de Fevereiro de 2022

Recordando... António Gedeão **

POEMA DO HOMEM SÓ

 

Sós,

irremediavelmente sós,

como um astro perdido que arrefece.

Todos passam por nós

e ninguém nos conhece.

 

Os que passam e os que ficam.

Todos se desconhecem,

Os astros não se explicam:

arrefecem.

 

Nesta envolvente solidão compacta,

quer se grite ou não se grite,

nenhum dar-se de dentro se refracta

nenhum ser nós se transmite.

 

Quem sente o meu sentimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem sofre o meu sofrimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem estremece este meu estremecimento

sou eu só, e mais ninguém.

 

Dão-se os lábios, dão-se os braços,

dão-se os olhos, dão-se os dedos,

bocetas de mil segredos

dão-se em pasmados compassos;

dão-se as noites, dão-se os dias,

dão-se aflitivas esmolas,

abrem-se e dão-se as corolas

breves das carnes macias;

dão-se os nervos, dá-se a vida,

dá-se o sangue gota a gota,

como uma braçada rota

dá-se tudo e nada fica.

 

Mas este íntimo secreto

que no silêncio concentro,

este oferecer-se de dentro

num esgotamento completo,

este ser-se sem disfarce,

virgem de mal e de bem,

este dar-se, este entregar-se,

descobrir-se e desflorar-se,

é nosso, de mais ninguém.

 

(Teatro do Mundo)

 

In “Obra Completa de António Gedeão”

Editor Relógio d'Água

 

António Gedeão **

(1906-1997)

 

** Pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho

publicado por cateespero às 00:00
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