Sexta-feira, 19 de Junho de 2020

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OS ABUTRES

 

Oh, abutres desta terra sem vida

Onde a ventania sopra desabrida,

Que ossos são esses, sob o vosso voo?

– O rei Hermagoras, que aqui habitou.

 

P’ra outra corte a rainha partiu,

Um novo rei no trono surgiu,

No Oriente estão os seus haveres,

Os cortesãos folgam em prazeres.

 

Sua carne podre foi para comer,

Sua pele suave foi fácil romper;

Pois o manto negro e o que trazia

Pegaram os servos quando aqui jazia.

 

O seu esqueleto o sol branqueou

E os vermes comeram o que nele ficou,

E os que ele amou, que acaso aqui passem,

Desdenham dos ossos que sob o céu jazem.

 

1906

 

In “Poesia”

Edição e tradução de Luísa Freire

Assírio & Alvim – 1999

 

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Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Sexta-feira, 7 de Junho de 2019

Recordando... Alexander Search

CANÇÃO PARA FANNY

 

Vimos da onda, da costa

Em som arrebatador,

E da aragem que recosta

Numa nuvem seu langor;

Vimos do rio que murmura,

Da folhagem que sussurra,

Nós vimos alegremente.

 

Como os pingos do orvalho,

Brilhantes e numerosos

Nós descemos até Fanny

Como os dias luminosos;

Do alto cume do monte

E do cintilar da fonte,

Nós vimos alegremente.

 

Vimos do vale, da colina,

Da montanha, do valado;

Da tristeza da tardinha

Com tanto conto contado;

Do prado em sua doçura,

Da sombra em sua frescura,

Nós vimos alegremente.

 

Habitámos no salgueiro

E no ninho que acoberta,

Mas fizemos travesseiro

Do coração do poeta;

E de tudo o que repassa

As almas de amor e graça,

Nós vimos alegremente.

 

In “Poesia”

Edição e tradução de Luísa Freire

Assírio & Alvim – 1999

 

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Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Sábado, 30 de Junho de 2018

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PIEDADE? NÃO!

 

Piedade? Não! Não a desejo.

Ela seria escárnio maior,

Cruel desdém feito gracejo

Com olhar sério para conter

A rude graça. Não! A dor

Eu chore em paz. Deixem doer!

 

Piedade? Não! Escárnio venha,

Mais indiferença e mais desdém:

Confortos desses meu lar os tenha.

Mudar em pena o seu olhar

Já dor de mais fora também.

Fingir bondade, não pode ser.

Que os males pareçam como eles são.

Querer mascará-los é escarnecer,

Rara malícia sem coração.

 

1908

 

In “Poesia”

Edição e tradução de Luísa Freire

Assírio & Alvim – 1999

 

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Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Quinta-feira, 1 de Junho de 2017

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HORROR

 

Em minha alma, na sua escuridão,

Tão escura como a alma em cada ser,

Por bênção de sua eterna maldição

Lampeja qual vampiro sem corpo tido

Em rara plenitude além saber,

Do universo o íntimo sentido.

 

E tão cobarde é meu pensamento,

Toda a vida e tudo em mim absorvendo

E me tomando, mais fel do que o fel,

Que eu tenho medo de abrir os meus olhos

E a mente a uma surpresa horrível,

E sinto meu ser quase em supressão

Num horror além da Imaginação.

 

Mais do que a mais cobarde das feras

Diante do raio em que o céu se fen

Mais do que o ébrio na sua aflição

Que tem visões que o temor transcende,

Mais do que o medo pode conceber,

Mais que a loucura pode fazer crer,

Mais do que o nem sequer imaginado,

O mistério de tudo, o seu sentido

Quando em mim, em plenitude vislumbrado,

Faz aterrar meu ser enlouquecido.

 

Não fales — não há palavra a ser dita —

Não, nem a sombra dessa sensação,

Da corda da sanidade partida

Em mim, na angústia daquele momento

E na intensidade da negação;

Não penses, não é capaz o pensar

De um tal horror poder expressar.

 

A mínima coisa fica terrível

E sublime o ínfimo pensamento —

Tudo no mundo fica mais horrível

Do que o sentido da alma do tempo,

Do que o medo da morte profunda,

Do que o remorso em que o crime se afunda.

 

É como que trazer o conhecimento

De que o mistério é só um jogo tolo.

Contudo se assim o viessem trazer,

Morto estaria o meu pensamento

E morto, como tudo, todo o meu ser:

É isto o que os homens sabem nomear,

Olhando o rosto de Deus, grosseiramente.

E esse sentir pode mais que mutilar

O espírito, mais que embrutecer;

Ele mataria total e prontamente,

Com um susto nem no inferno provado,

Mais do que do terror é conhecido,

Mais do que do medo é imaginado.

 

1907

 

In “Poesia”

Edição e tradução de Luísa Freire

Assírio & Alvim – 1999

 

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Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Quarta-feira, 1 de Junho de 2016

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ESTRANHEZAS

 

O estranho e o anormal

Têm um aroma peculiar,

Sempre constantes na alternância

São um sorriso e um suspirar:

O estranho e o anormal

Têm um aroma peculiar.

 

Eles são flores em vasos guardadas

Que a arte humana não sabe fazer,

O estranho é forte como chicotadas

E o anormal faz-nos estremecer.

Eles são flores em vasos guardadas

Que a arte humana não sabe fazer.

 

Têm o ardor da paz perturbada,

Dos inquietos salões da alegria,

esta é a fragrância por eles usada

Que ora nos anima, ora nos sacia:

Têm o odor da paz perturbada,

Dos inquietos salões da alegria.

 

O estranho e o anormal

Têm um aroma peculiar —

O da humana carne que, na mudança

Se fez corrupta sem se queixar:

O estranho e o anormal

Têm um aroma peculiar.

 

1906

 

In “Poesia”

Edição e tradução de Luísa Freire

Assírio & Alvim – 1999

 

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Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Sábado, 31 de Outubro de 2015

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CONVERSA FAMILIAR

 

Minha velha amiga, Desilusão,

Tinha-me esquecido que estavas aqui.

Perdoa-me. Tentando a desolação

Enganar, quase que fingi,

Perdoa, que tinhas ido embora.

Tu, amiga fiel, estás comigo agora!

 

Desespero, companheiro de velhos tempos,

Em ti também — embora não olvidado

— Numa espécie de pausa — por momentos

Terei talvez menos pensado.

Esquecer-te inteiramente não consigo.

Amigo, que estás aqui comigo!

 

E tu, velha companheira, Solidão,

De afecto e esperança carente,

Tu, minha gémea — não seria incorrecção

Se deixasse de parar ‘a tua frente

P’ra jogarmos com o medo e o cuidado?...

Por que vens, ó choro, deixar-me envergonhado?

Não quero mais isso, lágrimas não.

 

In “Poesia”

Edição e tradução de Luísa Freire

Assírio & Alvim - 1999

 

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Heterónimo de Fernando Pessoa (1888 - 1935)

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