AS CRIANÇAS
Então as crianças falaram da Morte.
Sentadas nos degraus de pedra,
Pousadas na manhã cinzenta,
Disseram: – Levava um vestido branco,
As mãos roxas e uma flor cansada.
No largo as mulheres cantavam.
Pensavam nos companheiros
E nas noites de amor.
As crianças permaneciam invioladas,
Possuídas de secretas imagens
E de tudo quanto foi antes do próprio nascimento.
Sentadas nos degraus de pedra,
As crianças desdobravam-se sucessivamente.
Unidades, dezenas, centenas, milhares, milhões, biliões.
O seu estandarte chama-se nevoeiro.
Mas os olhos repercutiam dobres de sinos
E uma enigmática energia solar.
Todavia, as noites das crianças eram templos de solidão
E nos leitos soluçavam o temor dos intrusos.
De manhã, invadiram todos os espaços e luzes.
E os adultos, ignorantes e cegos, sorriam.
– São as crianças!, diziam.
E seguiam a ruminar os seus sonhos,
Como se tivessem roçado a paz.
Mas as crianças germinavam, mudas e sábias,
As ordens recebidas num sol antigo.
Armavam-se de reservas e paixões,
Faziam planos que os adultos não deixariam depois cumprir.
(Depois, quando as crianças fossem adultos.)
Elas sabem que existe o Paraíso
Mas a distância de cada dia, entre os homens,
Escurece-lhes a memória finita.
Abrigam-se então na memória infinita
Que as liberta e possui
E nos leitos soluçam o temor dos intrusos.
In “Colóquio/Letras”
N.º 1 – Março.1971
Fundação Calouste Gulbenkian
Pág. 70/71
Natércia Freire
(1919-2004)
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