A CASA, AO LADO DO RIO
São muitos os caminhos que levam ao rio,
à relação maior com o movimento do mundo.
Abrem-se algumas vozes de demoradas cores:
amoras, cerejas, romãs, cachos de glicínias.
A casa é pequena - tão só, entre as árvores e
tocada pelo vento que chega do lado das maçãs,
depois de atravessar o pequeno souto que guarda
a encosta. Mas a casa pequena recebe a luz do rio
e da corrente sem limite que respira do incerto.
Tudo respira do incerto - gozo puro de correr
aberto à matéria da matéria, ao sopro sem nascente
que atravessa o próprio ar e vive de poder viver.
Como as crianças trazem nos olhos o desequilíbrio
da inocência, assim se vestem os cantos da casa
onde tudo é imperfeito: - ao lado do rio, quatro ângulos
de musgo esperam a dança das grandes correntes.
Chegam as aves, no fim da tarde, para descansar do dia.
As cidades estão longe e a tristeza do mundo transforma-se
nessa aceitação do vento e do musgo, da casa e da corrente.
Tudo flui para o lugar de onde nascem todos os silêncios.
In “A terra e os Dias”
Pedra Formosa Edições
Firmino Mendes
(N. 1949)
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