ANTÓNIO, É PRECISO PARTIR!
António, é preciso partir!
O moleiro não fia,
a terra é estéril,
a arca vazia,
o gado minga e se fina.
António, é preciso partir!
A enxada sem uso,
o arado enferruja,
o menino quer pão, a tua casa é fria.
É preciso emigrar!
O vento anda como doido – levará o azeite;
a chuva desata noite e dia – inundará tudo;
e o lar vazio,
o gado definhando,
a morte e o frio por todo o lado,
só a morte, a fome e o frio por todo o lado, António!
É preciso embarcar!
Badalão! badalão! – o sino!
já chora a despedida.
Os juros crescem;
o dinheiro e o rico não têm coração.
E as décimas, António?
Ninguém perdoa – que mais para vender?
Foi-se o cordão,
foram-se os brincos,
foi-se tudo!
A fome espia o teu lar.
Para quê lutar com a braveza da terra,
com a indiferença do Céu,
com tudo, com a morte, com a fome, com a terra,
com tudo!
Árida, árida a vida.
António, é preciso partir!
António partiu.
E em casa, tudo ficou sem jeito, desamparado, vazio.
Ficou a solidão.
In “As Frias Madrugadas”
Fernando Namora
(1919-1989)
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