Quinta-feira, 31 de Outubro de 2019

Recordando... António Feijó

HYMNO Á ALEGRIA

 

(A Carlos Malheiro Dias)

 

 

Tenho-a visto passar, cantando, á minha porta,

E ás vezes, bruscamente, invadir o meu lar,

Sentar-se á minha mesa, e a sorrir, meia morta,

Deitar-se no meu leito e o meu somno embalar.

 

Tumultuosa, nos seus caprichos desenvoltos,

Quasi meiga, apesar do seu riso constante,

D'olhos a arder, labios em flor, cabellos soltos,

A um tempo é cortesã, deusa ingenua ou bachante...

 

Quando ella passa, a luz dos seus olhos deslumbra;

Tem como o sol d'inverno um brilho encantador;

Mas o brilho é fugaz, – scintilla na penumbra,

Sem que d'elle irradie um facho creador.

 

Quando menos se espera, irrompe d'improviso;

Mas foge-nos tambem com uma presteza egual;

E d'ella apenas fica um pállido sorriso

Traduzindo o desdem d'uma illusão banal.

 

Onda mansa que só á superficie corre,

Toda a alegria é vã; só a Dor é fecunda!

A Dor é a Inspiração, louro que nunca morre,

Se em nós crava a raiz exhaustiva e profunda!

 

No entanto, eu te saudo e louvo, hora dourada,

Em que a Alegria vem extinguir, de surpresa,

Como chuva a cair numa planta abrasada,

A fornalha em que a Dor se transmuta em Belleza!

 

Pensar, é certo, eleva o espirito mais alto;

Soffrer torna melhor o coração; depura

Como um crysol: a chispa irrompe do basalto,

Sae o oiro em fusão da escoria mais impura.

 

A Alegria é fallaz; só quem soffre não erra,

Se a Dor o eleva a Deus, na palavra que o louve;

A Alma, na oração, desprende-se da terra;

Jamais o homem é vão deante de Deus que o ouve!

 

E comtudo, – illusão! – basta  que ella sorria,

Basta vê-la de longe, um momento, a acenar,

Vamos logo em tropel, no capricho do dia,

Como ébrios, Evohé! atrás d'ella a cantar!

 

Mas se ella, de repente, ao nosso olhar se furta,

Todo o seu brilho é pó que anda no sol disperso;

A Alegria perfeita é uma aurora tão curta,

Que mal chega a doirar as cortinas do berço.

 

Ás vezes, essa luz de tão fragil encanto,

Vem ainda banhar certas horas da Vida,

Como um iris de paz numa névoa de pranto,

Crepitação, fulgor d'uma estrella perdida.

 

Então, no resplendor d'essa aurora bemdita,

Toma corpo a illusão, e sem áncias, sem penas,

O espirito remoça, o coração palpita,

Seja a nossa alma embora uma saudade apenas!

 

Mas ephémera ou vã, a Alegria... que importa?

Deusa ingenua ou bachante, o seu riso clemente,

Quando, mesmo de longe, echôa á nossa porta,

Deixa em louco alvoroço o coração da gente!

 

Momentánea ou fallaz, é sempre um dom divino,

Sol que um instante vem a nossa alma aquecer...

Podesse eu celebrar teu louvor no meu Hymno!

Momentáneo, fallaz encanto de viver!

 

O teu sorriso enxuga o pranto que choramos,

E eu não sei traduzir a ventura que exprimes!

Nesta sentimental lingua que nós falamos,

Só a Dor e a Paixão têm accordes sublimes!

 

(Mantem a grafia original)

 

In “Sol de Inverno”

 

António Feijó

(1859-1917)

publicado por cateespero às 00:00
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