Domingo, 25 de Julho de 2021

Recordando... Antero Quental

OS CATIVOS

 

Encostados às grades da prisão,

Olham o céu os pálidos cativos.

Já com raios oblíquos, fugitivos,

Despede o sol um ultimo clarão.

 

Entre sombras, ao longe, vagamente,

Morrem as vozes na extensão saudosa.

Cai do espaço, pesada, silenciosa,

A tristeza das cousas, lentamente.

 

E os cativos suspiram. Bandos de aves

Passam velozes, passam apressados,

Como absortos em íntimos cuidados,

Como absortos em pensamentos graves.

 

E dizem os cativos: Na amplidão

Jamais se extingue a eterna claridade...

A ave tem o vôo e a liberdade...

O homem tem os muros da prisão!

 

Aonde ides? qual é a vossa jornada?

À luz? à aurora? à imensidade? aonde?

– Porém o bando passa e mal responde:

A noite, à escuridão, ao abismo, ao nada! –

 

E os cativos suspiram. Surge o vento,

Surge e perpassa esquivo e inquieto,

Como quem traz algum pezar secreto,

Como quem sofre e cala algum tormento...

 

E dizem os cativos: Que tristezas,

Que segredos antigos, que desditas,

Caminheiro de estradas infinitas,

Te levam a gemer pelas devezas?

 

Tu que procuras? que visão sagrada

Te acena da solidão onde se esconde?

– Porém o vento passa e só responde:

A noite, a escuridão, o abismo, o nada! –

 

E os cativos suspiram novamente.

Como antigos pezares mal extintos,

Como vagos desejos indistintos,

Surgem do escuro os astros, lentamente...

 

E fitam-se, em silêncio indecifrável,

Contemplam-se de longe, misteriosos,

Como quem tem segredos dolorosos,

Como quem ama e vive inconsolável...

 

E dizem os cativos: Que problemas

Eternos, primitivos vos atraem?

Que luz fitais no centro donde saem

A flux, em jorro, as intuições supremas?

 

Por que esperais? nessa amplidão sagrada

Que soluções esplendidas se escondem?

– Porém os astros tristes só respondem:

A noite, a escuridão, o abismo, o nada! –

 

Assim a noite passa. Rumorosos

Sussurram os pinhais meditativos.

Encostados às grades, os cativos

Olham o céu e choram silenciosos.

 

(mantém a grafia original)

 

In “Sonetos”

Colecção – Autores Portugueses de Ontem

Estante Editora – Maio de 1989

 

Antero Quental

(1842-1891)

publicado por cateespero às 00:00
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