Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010

Recordando... António Correia de Oliveira... Poeta do Séc. XX

CYPRESTES

 

Extaticos Cyprestes, meditando

Na Terra da Verdade, em melancolicos

Jardins da Morte em flor, canteiro de almas:

 

Cyprestes dos humildes cemiterios,

Que fundos, remotissimos segredos

Da Vida saberão vossas raizes?

 

O que dirão, á aragem, vossos ramos

Longamente acenando e murmurando?

 

Cyprestes dos humildes cemitérios,

Que segredos sabeis da Morte obscura?

 

A Morte é vossa vida, – pois na Morte

Entrelaçaes, no chão, as fundas, ávidas

Raizes; e, no espaço, ergueis a rama,

Tão verde que a não queima o proprio inverno;

E onde rebrilha a luz do sol; e as aves

Tecem os ninhos que são como flores

A abrir nas vivas pétalas das azas,

Nos cantos que se exalam como aromas…

 

Cyprestes dos humildes cemiterios,

Que segredos sabeis da Morte obscura?

 

Á clara luz do sol, ou, mais ainda,

Á dubia luz da Lua misteriosa

Desenhaes, pelo chão, as vossa sombras,

Como signaes de magico alphabeto,

– Onde, talvez, os olhos dos Espiritos

Soletrem as palavras cabalísticas

Reveladoras de intimos anceios…

 

Cyprestes dos humildes cemiterios,

Que segredos sabeis da Morte obscura?

 

No vosso sangue vegetal – as seivas –

Transfunde-se e transforma-se a energia

Do sangue do Homem, mesmo da sua alma:

Pois que, no chão em que viveis, lá fundo,

A Morte lhe trabalha o inerte corpo,

– Tornando-o á Terra, como torna aos mares

A nevoa que se ergueu ao céu e aos ventos:

E novamente ha de voltar ás ondas

Nas lagrimas das chuvas e do orvalho…

 

Cyprestes dos humildes cemiterios,

Que segredos sabeis da Morte obscura?

 

Ouvis. E, em vagos gestos, em longinqua

Mas vivida expressão de pensamento,

Vós conversaes comigo, á luz da Lua…

 

E as vossas longas falas silenciosas,

Que saudades me deixam! Que lembrança

De claras horas de bellêsa, mortas

Dentro em minha alma, Cemiterio de almas!

Que instinctivo, nostalgico desejo

De regressar á terra, á morte: – á Vida…

 

Ai quem me dera a mim! ai quem me dera

Adormecer no cemiterio rustico 

Da minh aldeia, entre montanhas, de onde

Tristesas e destinos me desterram:

 

E, desfeito o meu corpo nesse palmo

De terra onde já tenho amados Mortos,

– Velho Cypreste, que lá vive ha tanto,

Talvez, com suas ávidas raizes,

Sorvesse alguma coisa do meu corpo,

Com elle, alguma coisa da minha alma:

 

E talvez, no seu tronco e sua rama,

(Como num verde e alegre Paraiso,

Num Céu de esquecimento e de renúncia)

De novo eu me encontrasse em companhia

De esses que tanto amei, e já morreram…

 

E alli vivesse, emfim, na pura e candida,

Alegre santidade primitiva:

– Não Homem, não! mas Arvore da terra,

Em canticos de luz e de verdura,

Cheio de paz e simples naturêsa.

 

 

Lisboa.

 

 

In Revista “A Águia”

Nº. 2 – 1ª Série – Ano I – 15 de Dezembro de 1910

 

António Corrêa de Oliveira

1878 – 1960

 

 

 

(Mantém a grafia original)

 

sinto-me: Radiante Sempre...
publicado por cateespero às 00:00
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