ESTRELA D´ALVA
Á memoria de minha filha
Ha tantos anos já que tu voaste,
ha tantos anos já que me deixaste,
e eu penso em ti ainda e tantas vezes!...
Dir-se-hia até que desde que nasci,
sempre te vi, sempre te conheci,
e que partiste apenas ha uns mezes!...
Mas não, não foi assim. A tua vinda
tão passageira foi, que eu julgo ainda
que o tempo nem chegou p´ra comprehender.
se era de mim que tu vivias, q´rida,
se era de ti que eu recebia a vida,
porque eu morria, vendo-te morrer!...
Porque esses olhos que eu amava tanto,
foi afogando os meus num mar de pranto
que t´os beijei, ainda mal cerrados…
E eu vivo ainda sem poder ’squecê-los
e penso aflicta que não posso vê-los,
que já não tornam mais a ser beijados.
***
Cerraram-se p’ra sempre os olhos seus..
e eu, blafesmando, perguntei a Deus
p’ra que servia a vida sem a luz
d´aqueles olhos que eu beijara aos ais!...
E só pude viver sem os ver mais,
depois de ajoelhar aos pés da Cruz!..
(mantém a grafia da época)
In “Pombas Feridas”
Papelaria Tipografia Largo do Pelourinho
Lutegarda Guimarães de Caires
(1873-1935)
Portugal
CIRCE APAGA O MEU NOME
Circe apaga o meu nome
e o desejo do nome
ser flor ou animal
aroma ou afluente
regressar ou ficar
entre a noite e a morte
a substância de ser ou não
presente
Circe apaga o desejo
de sermos verticais
ela fecha a janela
que dá para o outro lado
transmuda o corpo aberto
em lama que rasteja
em pêlos eriçados
o vestido de bronze
quando as naus regressarem
já não somos humanos
In “Um Escorpião Coroado de Açucenas”
Hugin Editores
Madalena Férin
(1929- 2010)
CARRIÇA
I
cantam as aves
nos ramos
da madrugada
mas é um canto antigo
que ficou perdido
como a esperança de um morto
não as ouvimos nós
não as merecemos já
cantam
solitárias e quase tristes
as aves
nos ramos da madrugada.
II
somos de longe
e a estrada
perde-se em becos
neles nos pedem contas
do que foi nosso mas já não temos
e nos cravam agudas facas
que por vingança
mais espetamos
nos nossos corpos
assim esfaqueados nos amamos
sabendo embora
que a morte é para breve
III
a carriça julgou
que era dia e cantou
(era tal o luar!)
mas a coruja
embrulhada em seu manto
piou lá do seu canto
e a noite ficou.
In “O Sabor das Amoras”
Edição do autor
Lucinda Araújo
(N.1925)
Portugal
VOLÚPIA
Era já tarde e tu continuavas
entre os meus braços trémulos, cansados...
E eu, sonolenta, já de olhos fechados,
bebia ainda os beijos que me davas!
Passaram horas!… Nossas bocas flavas,
muito unidas, em haustos repousados,
queimavam os meus sonhos macerados,
como rescaldos de candentes lavas.
Veio a manhã e o sol, feroz, risonho,
entrou na minha alcova adormecida,
quebrando o lírio roxo do meu sonho...
Mas deslumbrou-se... e em rúbidos adejos
Ajoelhou-se... e numa luz vencida,
Sorveu… sorveu o mel dos nossos beijos!
In “Poesia e Prosa”
Publicações Dom Quixote
Judith Teixeira **
(1880-1959)
** Judite dos Reis Ramos Teixeira
A UM JOVEM POETA MORTO
No remo imaginário
das sombras resvalantes,
na noite mais profunda
cintila a tua alma.
Nasceu-nos do flanco
a tua jovem morte.
No misterioso barco
partiste sem dizer.
E agora o pensamento
trespassa a neblina
a ver se reinventa
o teu retrato d'água.
17- II -52
In “ÁRVORE ”
Folhas de Poesia
Direcção e Edição de António Luís Moita, António Ramos Rosa,
José Terra, Luís Amaro, Raul de Carvalho
1.º Fascículo - Inverno de 1951-52
Pág. 93
José Terra **
(1928-2014)
** Pseudónimo de José Fernandes da Silva
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