BEATRIZ
Visão que surges n´estas horas magicas
como eu te imploro a suspirar por ti!
como eu te vejo esvoaçar no espaço…
como aos teus olhos meu olhar aprendi!
Ai! se lograsse de minh'alma as trevas
nos raios teus iluminar, estrela!...
Passai, ó nuvens que toldais o astro,
deixai-me, nuvens, adorá-la e vê-la!
Oh! quem poderá esta existência dar-lhe
primícias pobres de opulento amor,
e no meu êxtases estreitá-la ao peito,
trocando em jubilo esta imensa dor!
Ao longe, embora, tu sorris altiva!...
e eu vivo e fico a suspirar em vão!
Estrela esplende no teu céu sereno,
mas dá-me um raio d´esse teu clarão!
(Rosas Pálidas)
In Revista “A Mensageira”
Ano 2 - N.º 25 - Fevereiro.1899
Brasil
Guiomar Torrezão
(1844 -1898)
CHUVA
Chuva, caindo tão mansa,
Na paisagem do momento,
Trazes mais esta lembrança
De profundo isolamento.
Chuva, caindo em silêncio
Na tarde, sem claridade...
A meu sonhar d'hoje, vence-o
Uma infinita saudade.
Chuva, caindo tão mansa,
Em branda serenidade.
Hoje minh'alma descansa.
– Que perfeita intimidade!...
In "Paisagem"
Ramos, Afonso & Moita Ld.ª
Francisco Bugalho
(1905-1949)
SEIOS
Sei os teus seios.
Sei-os de cor.
Para a frente, para cima,
Despontam, alegres, os teus seios.
Vitoriosos já,
Mas não ainda triunfais.
Quem comparou os seios que são teus
(Banal imagem) a colinas!
Com donaire avançam os teus seios,
Ó minha embarcação!
Por que não há
Padarias que em vez de pão nos dêem seios
Logo p´la manhã?
Quantas vezes
Interrogaste, ao espelho, os seios?
Tão tolos os teus seios! Toda a noite
Com inveja um do outro, toda a santa
Noite!
Quantos seios ficaram por amar?
Seios pasmados, seios lorpas, seios
Como barrigas de glutões!
Seios decrépitos e no entanto belos
Como o que já viveu e fez viver!
Seios inacessíveis e tão altos
Como um orgulho que há-de rebentar
Em desesperadas, quarentonas lágrimas...
Seios fortes como os da Liberdade
- Delacroix - guiando o povo.
Seios que vão à escola p´ra de lá saírem
Direitinhos p´ra casa...
Seios que deram o bom leite da vida
A vorazes filhos alheios!
Diz-se rijo dum seio que, vencido,
Acaba por vencer...
O amor excessivo dum poeta:
«E hei-de mandar fazer um almanaque
Na pele encadernado do teu seio!»
Retirar-me para uns seios que me esperam
Há tantos anos, fielmente, na província!
Arrulho de pequenos seios
No peitoril de uma janela
Aberta sobre a vida.
Botas, botifarras
Pisando tudo, até os seios
Em que o amor se exalta e robustece!
Seios adivinhados, entrevistos,
Jamais possuídos, sempre desejados!
«Oculta, pois, oculta esses objectos,
Altares onde fazem sacrifícios
Quantos os vêem com olhos indiscretos»
Raimundo Lúlio, a mulher casada
Que cortejastes, que perseguistes
Até entrares, a cavalo, p'la igreja
Onde fora rezar,
Mudou-te a vida quando te mostrou
("É isto que amas?")
De repente a podridão do seio.
Raparigas dos limões a oferecerem
Fruta mais atrevida: inesperados seios...
Uma roda de velhos seios despeitados,
Rabujando,
A pretexto de chá...
Engolfo-me num seio até perder
Memória de quem sou...
Quantos seios devorou a guerra, quantos,
Depressa ou devagar, roubou à vida,
À alegria, ao amor e às gulosas
Bocas dos miúdos!
Pouso a cabeça no teu seio
E nenhum desejo me estremece a carne
Vejo os teus seios, absortos
Sobre um pequeno ser.
In “No reino da Dinamarca”
Relógio D'Agua - 1997
Alexandre O'Neill
(1924-1986)
O CORAÇÃO E A BALANÇA
Ouvi dizer que em nós o mar futuro
é de cristal puro e não lavrado:
Cumpre assim caminhar ligeiro no ar,
a terra do ar ver e amar.
Harmonia desejada e louvada,
agora cantada nas esferas celestes;
antes na terra tão cobiçada
e nela tão mal realizada.
Iluminada pela aragem do infinito
e mostrando ainda as pegadas
do Anjo revelador,
- e eis o santo país das estrelas!
E me admites à tua presença,
e ao sumo mistério;
alegre nos lagares da dor
onde se esmaga o coração dos homens.
Pois é com factos e não com ideias
que se fazem as lágrimas.
Ao alto me acolhes: na mão esquerda
a balança, na direita meu coração.
A Justiça ao amor fazendo jus.
Eu digo: na Primavera, moitas
de rosas brancas olorosas
se constroem à beira de negros abismos.
In “O Novo Argonauta”
Fundação Lusíada
Dalila Pereira da Costa
(1918-2012)
DAS PALAVRAS
Das palavras
de algumas palavras
temos de conhecer mais
que seu significado,
temos de lhes sentir o tacto
o gosto, ouvir a voz,
temos de as provar
beber, comer, saborear
mastigar suavemente
e depois com ternura,
as engolir para que permaneçam
guardadas em nós.
Amor! O que é amor
se não for vivido!
In “Jardim de Afectos”
Versbrava Editora
Alice Queiroz
(1942-2018)
PELA PAZ
Campeia a violência e o desamor
P’lo mundo ignóbil, prenhe de ambição...
Em vez da esp’rança reina o medo e a dor,
Perdeste, ò homem tua dimensão.
Essa fome de paz que a alma anseia
Vai torturando a pobre humanidade
Que em prece e desespero, as mãos alteia,
Rogando aos céus: Senhor, oh!... Tem piedade.
Que a paz desça, Senhor, do vosso seio
E que este inferno, negro, mau e feio
Se transforme num éden de alegria.
Abraçai-vos, ò povos, sem demora,
Que o relógio da história marque a hora
Na paz e no esplendor de um novo dia.
In “Poetas & Trovadores”
Ano XVlll – 3ª edição – n.º 1 – Abril de 1998
Ilda Pinto Ribeiro
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