SONETO MARTELADO
A tarde, e por de mais calma,
Afogou-me o que ficara da partida
Tudo que inventara, essa mentira querida
Que ficara fazendo as vezes da alma.
Passa e segue a triste gente calada
E o correio e a luz quebrada no muro
Trazem a tarde, recortando duro
O perfil triste e morno desta minha estrada.
E choca e vem de mim até ao céu polido
Liso e puro e sempre igual estendido
Sobre mim e a rua desolada,
Uma ilusão que nada tem de alada
E é feita de aço puro e diamantes:
Não querer tornar-me no que era dantes.
In “Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro”
Assírio & Alvim
José Blanc de Portugal
(1914-2000)
NATAL À BEIRA-RIO
É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me a água da infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, do Mar, ou de Poesia?
In "Cancioneiro de Natal, 1971"
David Mourão Ferreira
(1927-1996)
SERENATA AO VENTO
Meu amor, olhos nos olhos
A olhar dentro de mim,
Os meus olhos tornam-se olhos
Que nunca foram assim.
Meu amor, olhos nos olhos,
Mais do que olhos, olhos são
A entrar pelos meus olhos,
Caminho do coração.
Meu amor, quando pressinto
Esses meus olhos no chão,
Os meus olhos tornam-se água
Regatos na tua mão.
Meu amor, quanto te quero,
Meu amor fica comigo
Com essa luz dos teus olhos,
Meu lindo Porto de Abrigo.
In “Respira…Respira Comigo”
Âncora Editora
Irene Silva
(N.1954)
VIVER NA BEIRA-MAR
Nunca o mar foi tão ávido
quanto a minha boca. Era eu
quem o bebia. Quando o mar
no horizonte desaparecia e a areia férvida
não tinha fim sob as passadas,
e o caos se harmonizava enfim
com a ordem, eu
havia convulsamente
e tão serena bebido o mar.
In "Três Rostos"
Assírio & Alvim
Fiama Hasse Pais Brandão
(1938 -2007)
POEMA DAS TRÊS CORES
Quando os meus olhos ávidos de Luz
Fôrem luzes azuis e verdes,
Quando os meus olhos ávidos de Céu
Fôrem céus azuis e verdes,
Quando os meus olhos ávidos de Mar
Fôrem mares azuis e verdes,
Quando os meus olhos ávidos de Vida
Fôrem vidas azuis e verdes,
Quando os meus olhos ávidos de Tudo
Fôrem todos azuis e verdes,...
… Então que venha o sonho côr de rosa!
In “Altura“
Cadernos de Poesia
N.º 1 de Fevereiro de 1945
Carlos Macedo
TEMPESTADES
Ouço os pássaros daqui
de onde estou.
Sei lá se somos o que dizemos
ou apenas aquilo que restou de nós
depois da tempestade.
Cada um de nós traz uma tempestade
por dentro dos olhos,
colada no peito,
cada um de nós traz um fogo manso
a arder-nos nas mãos,
a transir-nos no leito.
Ouço os pássaros daqui
de onde estou,
ou serão os meus olhos
que vejo voar depois da tempestade?
Ou serão as minhas asas pardas
a arder-me no dorso,
num tempo sem idade,
na minha insanidade.
In “Geografias Dispersas”
Editora Edita-Me
Alexandra Malheiro
(N.1972)
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