JANELA CORPORAL
Abro a janela do teu corpo
Afasto as vestes dos teus cabelos
Acaricio os degraus do teu seio
E digo-te…
Vem murmúrio doce
A manhã é eterna quando se ama!
In “Mar de Sentidos”
Ed. Vieira da Silva
José Luís Outono
ÀS VEZES TENHO MEDO DE ESQUECER TUDO
Às vezes tenho medo de esquecer tudo:
a casa onde nasci, o recreio
da escola, essas vozes
que lembram um copo de água
no verão.
In "O que nos protege"
Editora Pedra Formosa
Jorge Gomes Miranda
(N.1965)
MÃE (2)
Tigelinhas brancas
compotas macias
Minha mãe quantas
tigelinhas enchias
Tigelinhas brancas
para todos os dias
Minha mãe quantas
tigelinhas vazias
Tigelinhas brancas
doces como querias
Minha mãe quantas
saudades eu tenho
In "A Mãe na Poesia Portuguesa"
Antologia de Albano Martins
João Apolinário
(1924-1988)
ESPINOSA
Nenhum dia é igual a outro e hoje, aqui sentado
neste banco de um jardim de Beja, deu-me para
pensar em ti, Baruch hebraico, Bento português.
O teu pai Miguel andou por aqui há quase quatro
centenas de anos. Parece que nasceu bem perto,
na Vidigueira das vinhas e do sol.
E tu nasceste em Amsterdão de pais fugidos à Inquisição.
Aprendeste a falar e a escrever português, a língua
de outros documentos da tua comunidade.
Quiseste saber mais do que o que te ensinavam e
foste excomungado, condenado ao banimento. Leio
agora o documento que te expunha à sombra dos homens,
que amaldiçoava as tuas horas de todos os dias,
o teu deitar e levantar, o teu entrar e o teu sair.
Mas os lugares por onde entravas ou saías
passaram a ser longe de Amsterdão - assim sorriste
à exclusão. Acusaram-te de liberdade, de pensamentos
perversos, de não acreditares que há só um povo escolhido
para a realização dos desígnios divinos.
Esta memória de ti leva-me às flores do campo:
- o teu túmulo merece uma papoila vermelha.
In "Um Segredo Guarda o Mundo"
Pedra Formosa Edições
Firmino Mendes
(N.1949)
QUANDO EM MEU DESVELADO PENSAMENTO
Quando em meu desvelado pensamento
O teu formoso gesto se afigura,
Não sei que afecto sinto, ou que ternura,
Que a toda esta alma dá contentamento.
Ali fico num largo esquecimento,
Contemplando na minha conjectura
De teu sereno rosto a graça pura,
De teus olhos o doce movimento.
Porém logo a inconstante fantasia
Me acorda o entendimento arrebatado,
E desfaz todo o bem que me fingia,
Sendo tal este gosto imaginado,
Que de Amor outra glória eu não queria
Mais que trazer-te sempre em meu cuidado.
In “Obras de Domingos Reis Quita”
Domingos dos Reis Quita
(1728-1770)
AS MINHAS ASAS
Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.
– Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra,
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
– Veio a ambição, co’as grandezas,
Vinham para mas cortar,
Davam-me poder e glória
Por nenhum preço as quis dar.
Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra
Batia-as, voava ao céu.
Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
– Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!
– Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei ao céu.
In “Flores sem Fruto”
Almeida Garrett
(1799-1854)
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