PORTUCALE
Junto do rio, o burgo amuralhado
contempla as aguas com profundo gozo,
– torres christãs, românico portado,
e o castro ao cimo, rude e pedregoso.
Um coração que bata compassado
lembra, batendo, o velho burgo ancioso.
E o burgo oscila como que embarcado
– oscila sobre as aguas em repouso.
Chamou-se Portucale o burgo antigo.
À flor das ondas, a scismar consigo,
é terra ainda e já pertence ao mar...
Nasceu depois um reino pequenino.
E porque herdou do burgo o seu destino,
tomou-lhe o nome, ao ir-se baptizar!
In “Contemporanea”
Ano I – Volume II – Nº.6 - Ano 1922
Pág. 134
(Mantém a grafia original)
António Sardinha
(1887-1925)
A MINHA OPINIÃO
Theologos dum valor universal,
Scientistas no mundo mais cotados,
Em livro, em discursos inflamados,
Affirmam que a nossa alma é immortal!
Despojados do involucro animal,
Declaram esses sabios afamados
Que as nossas almas vão cumprir seus fados
Libertas d'este immundo lodaçal.
Não tento desfazer, está bem visto,
A douta opinião, mas não resisto
A dizer o que penso a tal respeito.
É minha opinião, sempre mantida,
Que a nossa alma é mortal e só tem vida
Enquanto o coração bater no peito.
(grafia original)
In “No Limiar do Poente” - 1927
Afonso Simões
(1866-1947)
CONTEMPLAÇÃO
(A Francisco Machado de Faria e Maia)
Sonho de olhos abertos, caminhando
Não entre as formas já e as aparências,
Mas vendo a face imóvel das essências,
Entre ideias e espíritos pairando…
Que é o mundo ante mim? fumo ondeando,
Visões sem ser, fragmentos de existências…
Uma névoa de enganos e impotências
Sobre vácuo insondável rastejando…
E de entre a névoa e a sombra universais
Só me chega um murmúrio, feito de ais…
É a queixa, o profundíssimo gemido
Das coisas, que procuram cegamente
Na sua noite e dolorosamente
Outra luz, outro fim só pressentido…
In “Sonetos”
Livraria Estante Editora - Maio.1980
Antero Quental
(1842-1891)
A UM RETRATO
Neste retrato de imortal beleza,
Que soube copiar pincel polido,
Vejo a preceitos de arte, reduzido
O trabalho maior da natureza:
Para esta, ó Clóris, singular empresa,
Cuido pediu o artífice escolhido
À mesma natureza advertido
As ideias da vossa gentileza:
Obrou em fim com tão ditoso acerto,
Que mui mal o discurso compreende,
Qual é a cópia, ou qual é a copiada:
Que imita a arte à natureza é certo,
Mas nesta rara cópia não se entende,
Se foi imitadora, se imitada.
(Fénix Renascida 1716-1721)
In “Breve antologia poética do período barroco”
Livraria Civilização Editora e Contexto Editora
António Barbosa Bacelar
(1610-1663)
Portugal
QUANDO AQUI NÃO ESTÁS
quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer
a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas
um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza
e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador
In “Vigílias”
Assírio & Alvim
Al Berto **
(1948-1997)
** Alberto Raposo Pidwell Tavares
TRISTES CANTIGAS DE AMOR
Meus olhos que por alguém
Deram lágrimas sem fim,
Já não choram por ninguém
– Basta que chorem por mim.
Arrependidos e olhando
A vida como ela é,
Meus olhos vão conquistando
Mais fadiga e menos fé.
Sempre cheios de amargura!
Mas se as coisas são assim,
Chorar alguém – que loucura!
– Basta que eu chore por mim.
Cantiga 1
(As Canções de António Botto - Ed. Presença - 1980)
In “Ler Por Gosto”
Areal Editores
António Botto
(1897-1959)
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