AO LARGO
(fala de uma mulher)
Nem terra
nem aves,
nem nada que eu saiba
- só água, só água
que se não acaba.
E o céu
e o mar
fiando uma linha
- lá de longe, tão longe
que mal se define.
Um medo
desperto
na minha garganta
- pergunta, pergunta:
por que vais adiante?
Mas vou
que há um homem
de quem sou metade
- e por ele, por ele,
esta cruz me cabe.
In "Amaranto - poesia 1951-1983"
INCM - Imprensa Nacional-Casa da Moeda
Glória de Sant’Anna
(1925 -2009)
ÁGUA
De todas as palavras escolhi água,
porque lágrima, chuva, porque mar
porque saliva, bátega, nascente
porque rio, porque sede, porque fonte.
De todas as palavras escolhi dar.
De todas as palavras escolhi flor
porque terra, papoila, cor, semente
porque rosa, recado, porque pele
porque pétala, pólen, porque vento.
De todas as palavras escolhi mel.
De todas as palavras escolhi voz
porque cantiga, riso, porque amor
porque partilha, boca, porque nós
porque segredo, água, mel e flor.
E porque poesia e porque adeus
de todas as palavras escolhi dor.
In “Pequenas palavras”
Guimarães Editores
Rosa Lobato de Faria
(1932-2010)
EXORCISMO
o sangue o suor
a água lustral
o leite do sol
retido na mama
o sangue sangrando
com o vinho
o pranto o rito
líquido o vinho
tinto no mijo
de deus no sangue
descendo na urina
subindo água
benta no sangue
o filtro do amor
filtrando o suor
um licor dividindo
o choro do pus
In "Poesia"
Organização e prefácio de Fernando Cabral Martins
Assírio & Alvim
Luiza Neto Jorge
(1939-1989)
ERA SÓ UMA FLOR...
Cresceu, viçosa e linda, aquela flor,
Brilhava, com o sol da madrugada,
Supunha-se princesa que uma fada
Tinha, ali, colocado, por amor.
E toda ela se abria, desde o alvor,
Com pétalas de cor imaculada,
E com uma corola perfumada
Que lançava odores, em seu redor.
Porém, um dia, alguém, por malvadez,
Matou a linda flor.
Mais uma vez,
Respeito à natureza esteve ausente.
Ele encolheu os ombros “tanto faz”,
Num comentário cínico, mordaz,
“Foi só uma flor, uma flor, somente”.
In “Os Confrades da Poesia”
Ano VI – Boletim Bimensal Nº 60 – Janeiro/Fevereiro.2014
Tiago Barroso **
(N.1934)
** Pseudónimo de António José Barradas Barroso
ACENDEM-SE AS LUZES
Acendem-se as luzes
nas ruas da cidade.
Ainda há claridade
ao alto das cruzes
da igreja da praça
e para lá dos telhados
já meio esfumados
na mesma cor baça
do casario velho
que recobre a encosta
e mal entremostra
as cores de Botelho,
sobranceiro à massa
fluida e movente
das cordas de gente
por onde perpassa
um ar de alegria
que é do tempo quente
e deste andar contente
que no fim do dia
leva para casa,
a paz das varandas,
o álcool das locandas,
tanta vida rasa
minha semelhante.
Solidão povoada
que a tarde cansada
suspende um instante
ao acender das luzes.
Em cada olhar uma rosa
de propósito formosa
para que a uses.
In “Breve”
Editorial Caminho
João José Cochofel
(1919-1982)
ANUNCIAÇÃO
Amigo: a tua próxima presença
Anuncia-me o mistério ainda não revelado.
Virás como o sonho, na noite, caído sobre as pálpebras
E como a alvorada debruçada sobre o mundo...
Virás com o teu verbo quente e a tua mão leal
Para o aperto solidário que nenhum poder separará.
Virás juntar a tua vida à minha vida,
Comer o mesmo pão, sugar o mesmo sol.
E virás, com o silêncio das horas em que as nossas bocas não saberão falar,
Para selarmos num poema eterno o milagre das nossas almas reveladas,
A fecundar a poesia viva as nossas vidas que não queremos estéreis e ignoradas.
In ”Luz na Sombra”
Vasco Miranda **
(1922-1976)
** Pseudónimo de Arnaldo Cardoso Ferreira
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