A CONCHA
A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.
Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.
E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.
A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.
In “O Bicho Harmonioso”
Revista de Portugal – 1938
Vitorino Nemésio
(1901-1978)
LÁBIOS QUE ENCONTRAM OUTROS LÁBIOS
Lábios que encontram outros lábios
num meio de caminho, como peregrinos
interrompendo a devoção, nem pobres
nem sábios numa embriaguez sem vinho
que silêncio os entontece quando
de súbito se tocam e, cegos ainda,
procuram a saída que o olhar esquece
num murmúrio de vagos segredos?
É de tarde, na melancolia turva
dos poentes, ouvindo um tocar de sinos
escorrer sob o azul dos céus quentes,
que essa imagem desce de agosto, ou
setembro, e se enrola sem desgosto
no chão obscuro desse amor que lembro.
In “Poesia Reunida 1967-2000”
Publicações D. Quixote
Nuno Júdice
(1949-2014)
UM DIA
Um dia,
A menina
Gotinha de Água,
Vestida de esmeralda
E luar, estava a dormir,
A sonhar
A flor
Do mar.
Então,
O Sol
Beijou-a
Na face,
E logo ela
Como se voasse
Subiu no ar.
Como se sentia leve!
Subiu,
Subiu,
Subiu
Até que se viu
Numa nuvem
Cor-de-rosa.
In “A Menina gotinha de água”
Papiniano Carlos
(1918-2012)
É TARDE, MEU AMOR
É muito tarde.
O tempo implacável me consome
E destrói o vigor do corpo moço:
Apagou o fulgor do meu olhar
Roubou a altivez do seio cheio
Secou o rio manso do meu ventre
Cobriu de pergaminho a minha mão
É tarde, muito tarde
Mas… por dentro
Ainda bate, por ti, o coração.
In “Discurso Amoroso”
Maria Aurora Carvalho Homem
(1937-2010)
SUBIR
Subir! Subir! Subir! – Eis o ideal
Único desta vida de imperfeito!
Quero subir, meu Deus, tenho o direito
De subir! Que, em minha alma de Imortal,
Sinto, às vezes, dourada e triunfal,
Uma luz singular! E sou perfeito
Embora sinta o Mar dentro do peito!
Sou divino, supremo e desigual!
Então ulula o vento da loucura…
E a voz eterna e clara da Aventura
Chama por mim, gritando, sem cessar…
Subir! Subir! Subir! Hei-de subir!
Que, em minha alma, Senhor!, ’stou já a sentir
Uma sombra de génio a perpassar!
In “Saudade Minha (poesias escolhidas)”
Guilherme de Faria
(1907-1929)
NA LUZ DE UM OUTRO OLHAR
Há dias em que a estrada é linda
E os passos não se contam
Há dias em que nos sentimos longe
Na serena luz que finda
Sem gente nem flores
Ninguém nos vê mas estamos
Somos
Ficamos
Na cor de um outro olhar
In “Amor Despenteado”
Casa das Cenas - 2007
Edgardo Xavier
(1946-2023)
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