Quinta-feira, 31 de Julho de 2025

Recordando... E.M. de Melo e Castro **

ODE AO CIDADÃO ANÓNIMO

 

Tu, cidadão anónimo, igual a ti próprio e a mim/outro

Que compras tudo o que és capaz de comprar

E deitas para o lixo tudo o que compraste

 

Que ganhas a tua vida perdendo a tua vida

Vida que é pequena e que só tens uma

Mas finges ignorar

 

Que pagas as contas que fazes sem saber porquê

Mas esperas descontos nos contos do vigário

que os teus credores te contam

 

Tu que ainda há pouco alimentavas a ilusão

de que o que fazes é produtivo para o teu país,

vais verificando dia a dia

que o teu trabalho é inútil principalmente para ti

porque um dia te despedem

até ficares despido

 

porque quem não precisa de ti não quer senão o teu voto

e tu que te lixes no lixo

porque o trabalho que fizeste toda a vida

é muito mais bem feito por qualquer robot

e ninguém dá por isso se não for feito

por isso és despedido

Assim desfruta a tua liberdade de desempregado

o melhor que puderes

porque és livre e por isso descartável

 

Está é a mais extraordinária descoberta da sociologia neoliberal

cibernetizada e deves ficar feliz com isso!

 

Mas não digas a ninguém.

Chora essa tua felicidade sozinho.

 

Se és velho, nunca vás para uma casa de repouso.

Finge que trabalhas.

Finge que te pagam, mesmo sabendo que nada recebes

Porque dá mais gozo não receber um salário venenoso

Que é teu

Mas irá fortalecer o sistema capitalista

E o igualmente selvagem neoliberalismo…

De que tanto gostas

E em que votaste à toa!

 

In “15 Odes Ocas”

Editora Pé de Mosca

E.M. de Melo e Castro **

(1932-2020)

 

** Nome literário de Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro

António Silva António Silva às 00:00
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Sexta-feira, 25 de Julho de 2025

Recordando... Camilo Pessanha

LÚBRICA

 

Quando a vejo, de tarde, na alameda,

Arrastando com ar de antiga fada,

Pela rama da murta despontada,

A saia transparente de alva seda,

 

E medito no gozo que promete

A sua boca fresca, pequenina,

E o seio mergulhado em renda fina,

Sob a curva ligeira do corpete;

 

Pela mente me passa em nuvem densa

Um tropel infinito de desejos:

Quero, às vezes, sorvê-la, em grandes beijos,

Da luxúria febril na chama intensa...

 

Desejo, num transporte de gigante,

Estreitá-la de rijo entre meus braços,

Até quase esmagar nesses abraços

A sua carne branca e palpitante;

 

Como, da Ásia nos bosques tropicais

Apertam, em espiral auriluzente,

Os músculos hercúleos da serpente,

Aos troncos das palmeiras colossais.

 

Mas, depois, quando o peso do cansaço

A sepulta na morna letargia,

Dormitando, repousa, todo o dia,

À sombra da palmeira, o corpo lasso.

 

Assim, quisera eu, exausto, quando,

No delírio da gula todo absorto,

Me prostrasse, embriagado, semimorto,

O vapor do prazer em sono brando;

 

Entrever, sobre fundo esvaecido,

Dos fantasmas da febre o incerto mar,

Mas sempre sob o azul do seu olhar,

Aspirando o frescor do seu vestido,

 

Como os ébrios chineses, delirantes,

Respiram, a dormir, o fumo quieto,

Que o seu longo cachimbo predilecto

No ambiente espalhava pouco antes...

 

Se me lembra, porém, que essa doçura,

Efeito da inocência em que anda envolta,

Me foge, como um sonho, ou nuvem solta,

Ao ferir-lhe um só beijo a face pura;

 

Que há-de dissipar-se no momento

Em que eu tentar correr para abraçá-la,

Miragem inconstante, que resvala

No horizonte do louco pensamento;

 

Quero admirá-la, então, tranquilamente,

Em feliz apatia, de olhos fitos,

Como admiro o matiz dos passaritos,

Temendo que o ruído os afugente;

 

Para assim conservar-lhe a graça imensa,

E ver outros mordidos por desejos

De sorver sua carne, em grandes beijos,

Da luxúria febril na chama intensa...

 

Mas não posso contar: nada há que exceda

A nuvem de desejos que me esmaga,

Quando a vejo, da tarde à sombra vaga,

Passeando sozinha na alameda...

 

In “Clepsidra”

 

Camilo Pessanha

(1867-1926)

António Silva António Silva às 00:00
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Sábado, 19 de Julho de 2025

Recordando... A.M. Pires Cabral

ARTE DE GRITAR

 

Quisera dizer coisas

que ninguém tivesse dito antes de mim.

 

Deixar uma pegada sobre a areia intacta,

não sobre outras pegadas que já houvesse lá.

 

Mas cheguei tarde; os que me precederam

no exercício desta dura arte de gritar

 

amavam a minúcia, a completude,

nunca deixavam uma tarefa a meio.

 

Disseram tudo. Deixaram só migalhas susceptíveis

de glosas rasteiras, para eu me entreter

 

como uma criança pobre brinca com destroços

de brinquedos recuperados do lixo.

 

E eu digo essas migalhas como quem

escreve a terra em laudas rasuradas.

 

E escrevê-las-ei mesmo quando

não tenha língua já para as dizer.

 

(Os poetas entendem-me estes mansos

trocadilhos. Os outros, não importa.)

 

In “Gaveta do Fundo”

Editora Tinta da China

A.M. Pires Cabral

(N.1941)

António Silva António Silva às 00:00
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Domingo, 13 de Julho de 2025

Recordando... Ruy Cinatti

MENINOS TOMARAM CORAGEM

 

Meninos tomaram coragem

Para beberem os rios;

E começaram viagem

Para chegarem aos rios.

 

Manhã de partida,

Tão fria, tão alva.

Horizonte encantado.

“Olhai, que ali nos vamos”.

 

Músculos ainda tenros

Empurraram montanhas.

As fontes da água

Resvalam nos vales.

 

Na foz de todos os rios

Os meninos estão velhos.

A água bebida

Vem do mar profundo.

 

Meninos bailai.

Bebei os soluços,

Mas dançai, dançai…

Até cair de bruços.

 

In "Nós não Somos deste Mundo"

Edições Ática

 

Ruy Cinatti

(1915-1986)

António Silva António Silva às 00:00
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Segunda-feira, 7 de Julho de 2025

Recordando... Vasco Graça Moura

O SONETO ENCONTRADO NA GARRAFA

 

é a ti que eu quero nesta ilha deserta:
livro nenhum, quadro nenhum, nem disco
(gosto de tanta coisa que faísco
mas a escolher assim nunca se acerta).

quero trazer-te a ti, ágil, desperta,
despenteadamente a cada risco,
e viver de algas, peixe e marisco
e nunca mais fazer sinais de alerta

e os navios ao longe ver passar,
enquanto a roupa seca na palmeira
(esta ilha tem uma, de maneira
que não é só rochedo e à roda o mar).

e tu entre corais, náufraga e nua,
a boiar no meu peito à luz da lua.

In “Os dia do Amor, um poema para cada dia do ano”   

Ministério dos Livros

Vasco Graça Moura

(1942-2014)

António Silva António Silva às 00:00
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Terça-feira, 1 de Julho de 2025

Recordando... Alberto de Serpa

UM JOVEM CAMARADA

 

Meu Camarada moço,

– Lidos os teus poemas,

Dizer-te que não temas

Dar-lhes fogo, a morte, o esquecimento,

 

Se queres a Poesia, vai para ela

Puro, desnudo, de ímpeto violento,

Como para a mulher

Em que parou teu sonho, – se és o seu.

Vai, como ela te quer.

 

Mas se outra chama inflama o teu amor,

se outro sonho tão belo te rendeu,

Tem a coragem nobre de depor

Os versos que não são teu instrumento. 

Toma outras armas mais condizentes.

 

Não, a Poesia não a violentes!

Deixa os versos ao vento...

 

In “A poesia de Alberto de Serpa”

Ed. Nova Renascença

 

Alberto de Serpa

(1906-1992)

António Silva António Silva às 00:00
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