Segunda-feira, 30 de Junho de 2025

Recordando... Fernando Pessoa

PASSOS TARDAM NA RELVA

 

Passos tardam na relva

Entre o luar e o luar,

Tudo é eflúvio e selva.

Sente-se alguém passar.

 

Passa, pisando leve

O chão que o luar desmente,

Num pálido hausto leve

De pisar levemente.

 

É elfo, é gnomo, é fada

A forma que ninguém vê?

Oiço: não houve nada.

Sinto, e a saudade crê.

 

5-9-1933

 

In “Poemas Esotéricos - Fernando Pessoa”

Assírio & Alvim

 

Fernando Pessoa

(1888-1935)

António Silva António Silva às 00:00
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Quarta-feira, 25 de Junho de 2025

Recordando... Álvaro de Campos

VILEGIATURA

 

O sossego da noite, na vilegiatura no alto;

O sossego, que mais aprofunda

O ladrar esparso dos cães de guarda na noite;

O silêncio, que mais se acentua,

Porque zumbe ou murmura uma coisa nenhuma no escuro...

Ah, a opressão de tudo isto!

Oprime como ser feliz!

Que vida idílica, se fosse outra pessoa que a tivesse

Com o zumbido ou murmúrio monótono de nada

Sob o céu sardento de estrelas,

Com o ladrar dos cães polvilhando o sossego de tudo!

 

Vim para aqui repousar,

Mas esqueci-me de me deixar lá em casa.

Trouxe comigo o espinho essencial de ser consciente,

A vaga náusea, a doença incerta, de me sentir.

Sempre esta inquietação mordida aos bocados

Como pão ralo escuro, que se esfarela caindo.

Sempre este mal-estar tomado aos maus haustos

Como um vinho de bêbado quando nem a náusea obsta.

Sempre, sempre, sempre

Este defeito da circulação na própria alma,

Esta lipotimia das sensações,

Isto...

 

Tuas mãos esguias, um pouco pálidas, um pouco minhas,

Estavam naquele dia quietas pelo teu regaço de sentada,

Como e onde a tesoira e o dedal de uma outra.

Cismavas, olhando-me, como se eu fosse o espaço.

Recordo para ter em que pensar, sem pensar.

De repente, num meio suspiro, interrompeste o que estavas sendo.

Olhaste conscientemente para mim, e disseste:

«Tenho pena que todos os dias não sejam assim» —

Assim, como aquele dia que não fora nada...

 

Ah, não sabias,

Felizmente não sabias,

Que a pena é todos os dias serem assim, assim;

Que o mal é que, feliz ou infeliz,

A alma goza ou sofre o íntimo tédio de tudo,

Consciente ou inconscientemente,

Pensando ou por pensar —

Que a pena é essa...

Lembro fotograficamente as tuas mãos paradas,

Molemente estendidas.

Lembro-me, neste momento, mais delas do que de ti.

Que será feito de ti?

Sei que, no formidável algures da vida,

Casaste. Creio que és mãe. Deves ser feliz.

Porque o não haverias de ser?

 

Só por maldade...

Sim, seria injusto...

Injusto?

 

(Era um dia de sol pelos campos e eu dormitava, sorrindo).

......

A vida...

Branco ou tinto, é o mesmo: é para vomitar

 

(Poesias de Álvaro Campos)

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” – 3ª. Edição

Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses - Editora Ulisses

 

 

Álvaro de Campos

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

António Silva António Silva às 00:00
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Quinta-feira, 19 de Junho de 2025

Recordando... Alexander Search

EPITÁFIO (1)

 

Aqui jaz A[lexander] S [earch]

De Deus e homens abandonado,

Da natureza troçado em dor;

Não acreditou em igreja ou estado,

Em Deus, homem, mulher ou amor,

Nem na terra aqui ou no céu além.

Do seu saber isto lhe vem:

(...) é rotina o amor,

Nada no mundo há de sincero

Salvo luxúria, ódio, medo e dor

E mesmo estes ultrapassados

Pelos danos por eles causados.

Ele morreu aos vinte e tal anos

Sentindo ao morrer só esta certeza:

Maldito o Homem, Deus e a Natureza.

 

In “Poesia”

Assírio & Alvim – 1999

 

Alexander Search

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

António Silva António Silva às 00:00
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Sexta-feira, 13 de Junho de 2025

Recordando... Fernando Pessoa

TODAS AS COISAS QUE HÁ NESTE MUNDO

 

Todas as coisas que há neste mundo

Têm uma história,

Excepto estas rãs que coaxam no fundo

Da minha memória.

 

Qualquer lugar neste mundo tem

Um onde estar,

Salvo este charco de onde me vem

Esse coaxar.

 

Ergue-se em mim uma lua falsa

Sobre juncais,

E o charco emerge, que o luar realça

Menos e mais.

 

Onde, em que  vida, de que maneira

Fui o que lembro

Por este coaxar das rãs na esteira

Do que deslembro?

 

Nada. Um silêncio entre juncos dorme.

Coaxam ao fim

De uma alma antiga que tenho enorme

As rãs sem mim.

 

13-8-1933

 

In “Poesia 1931-1935 e não datada”

Assírio & Alvim

 

Fernando Pessoa

(1888-1935)

António Silva António Silva às 00:00
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Sábado, 7 de Junho de 2025

Recordando... Alberto Caeiro

PARA ALÉM DA CURVA DA ESTRADA

 

Para além da curva da estrada

Talvez haja um poço, e talvez um castelo,

E talvez apenas a continuação da estrada.

Não sei nem pergunto.

Enquanto vou na estrada antes da curva

Só olho para a estrada antes da curva,

Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.

De nada me serviria estar olhando para outro lado

E para aquilo que não vejo.

Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.

Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.

Se há alguém para além da curva da estrada,

Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.

Essa é que é a estrada para eles.

Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.

Por ora só sabemos que lá não estamos.

Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva

Há a estrada sem curva nenhuma.

 

(Poemas Inconjuntos)

 

In “Poesia”

Ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith

Assírio & Alvim

 

Alberto Caeiro

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Domingo, 1 de Junho de 2025

Recordando... Ricardo Reis

DEIXEMOS, LÍDIA, A CIÊNCIA QUE NÃO PÕE

 

Deixemos, Lídia, a ciência que não põe

Mais flores do que Flora pelos campos,

Nem dá de Apolo ao carro

Outro curso que Apolo.

 

Contemplação estéril e longínqua

Das coisas próximas, deixemos que ela

Olhe até não ver nada

Com seus cansados olhos.

 

Vê como Ceres é a mesma sempre

E como os louros campos entumece

E os cala pràs avenas

Dos agrados de Pã.

 

Vê como com seu jeito sempre antigo

Aprendido no orige azul dos deuses,

As ninfas não sossegam

Na sua dança eterna.

 

E como as heniadríades constantes

Murmuram pelos rumos das florestas

E atrasam o deus Pã.

Na atenção à sua flauta.

 

Não de outro modo mais divino ou menos

Deve aprazer-nos conduzir a vida,

Quer sob o ouro de Apolo

Ou a prata de Diana.

 

Quer troe Júpiter nos céus toldados.

Quer apedreje com as suas ondas

Neptuno as planas praias

E os erguidos rochedos.

 

Do mesmo modo a vida é sempre a mesma. 

Nós não vemos as Parcas acabarem-nos.

Por isso as esqueçamos

Como se não houvessem.

 

Colhendo flores ou ouvindo as fontes

A vida passa como se temêssemos.

Não nos vale pensarmos

No futuro sabido

 

Que aos nossos olhos tirará Apolo

E nos porá longe de Ceres e onde

Nenhum Pã cace à flauta

Nenhuma branca ninfa.

 

Só as horas serenas reservando

Por nossas, companheiros na malícia

De ir imitando os deuses

Até sentir-lhe a calma.

 

Venha depois com as suas cãs caídas

A velhice, que os deuses concederam

Que esta hora por ser sua

Não sofra de Saturno

 

Mas seja o templo onde sejamos deuses

Inda que apenas, Lídia, pra nós próprios

Nem precisam de crentes

Os que de si o foram.

 

In “Poesia”

Ed. Manuela Parreira da Silva

Assírio & Alvim

 

Ricardo Reis

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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