Sábado, 31 de Maio de 2025

Recordando... Ulisses Duarte

SILÊNCIO  

 

Nesta memória onde o silêncio fala
a viajar no meu sofá sem rumo,
percorro o mundo, sem sair da sala,
com palavras de fumo.
É o silêncio do musgo preso ao muro
de retardar a infância...
Por isso, ainda hoje me procuro
e perco na distância!
Há silêncios que voam como eu
num espanto de luz e nevoeiro
com uma estrela a navegar no céu
na mão dum marinheiro...
Nesta memória onde o silêncio fala
de lagos azuis ou doutra cor
onde um menino cresce e não se cala
quando fala de amor!
Ainda hoje o lago tem pedaços
com bailados de sombras e penumbra
pra recordar os sonhos onde os lábios
o coração afunda...
A fantasia dorme em teu regaço
e Pã dedica a Ceres o seu regresso
quando o silêncio quebra em mil pedaços
pra renascer num verso!

 

In “Palavras Com Distância”
Edium Editores


Ulisses Duarte

(1923-2008)

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Domingo, 25 de Maio de 2025

Recordando... Nicolau Tolentino de Almeida

DE BOLORENTOS LIVROS RODEADO

 

De bolorentos livros rodeado

Moro, Senhor, nesta fatal cadeira

De quinze invernos a voraz carreira

Me tem no mesmo posto sempre achado,

 

Longo tempo em pedir tenho gastado,

E gastarei talvez a vida inteira;

O ponto está em que quem pode queira,

Que tudo o mais é trabalhar errado.

 

Príncipe Augusto, seja vossa a glória:

Fazei que este infeliz ache ventura;

Ajuntai mais um facto à vossa história.

 

Mas, se inda aqui me segue a desventura,

Cedo ao meu fado, e vou co’a palmatória

Cavar num canto da aula a sepultura.

 

In “Obras Completas”

 

Nicolau Tolentino de Almeida

(1740-1811)

António Silva António Silva às 00:00
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Segunda-feira, 19 de Maio de 2025

Recordando... Victor Oliveira Mateus

NAS CIDADES DE ONDE VENHO

 

Nas cidades de onde venho

secam as árvores ao som das sirenes

e os pássaros, alucinados, buscam direcções

nas pupilas das crianças.

Nessas cidades tudo é pressa e desassossego,

enquanto os homens, imprudentes, desaprendem

a sublime auscultação da terra;

nem sequer o coração dos outros podem ler

ou o rumor inconsolável das águas

– para eles aquilo que apenas vêem!

E com um nó no peito desatado

pintam de harmonia um novo Caos

 

In “Pelo deserto as minhas mãos”

Editora Coisas de Ler

 

Victor Oliveira Mateus

(N.1952)

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Terça-feira, 13 de Maio de 2025

Recordando... Pedro da Silveira

VAZIO

 

O dia começou cheio de sol,

agora pegou chuva.

Por trás da sua vidraça,

indiferente, um gato

todo estendido dorme.

Da marcenaria lá em baixo

sobe o som intermitente

de um martelo pregando

um móvel qualquer que o mestre

quer talvez aprontar hoje,

 

Largo o livro que lia

e de novo olho para a rua

onde não passa ninguém.

Por cima de um muro de quintal

as folhas de uma amoreira

tremem devagar, gotejando,

O martelo já se calou.

O gato começou a espreguiçar-se.

 

Agora é uma frágil música

talvez de flauta de cana,

como cuada pela chuva

que já está estiando.

 

Ergo-me da cadeira onde lia

enfio o casaco e caminho

direito à porta da rua.

Até à Praça, ou no café,

hei-de encontrar algum amigo

para a conversa desta tarde.

 

In “Fui ao Mar buscar Laranjas - Poesia reunida”

Editor Instituto Açoriano de Cultura

 

Pedro da Silveira
(1922-2003)

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Quarta-feira, 7 de Maio de 2025

Recordando... Teresa Almeida Rocha

ESPERO QUE HAJA ALGUÉM QUE RESPEITE

 

Espero que haja alguém que respeite

a minha solidão

Que me ame no silêncio

Que me deixe enlouquecer só

Enquanto me limpa o pó dos livros

E se perde nos versos dos poemas

Espero que haja alguém que entenda

O quanto o amo sem nada dizer

Simplesmente porque o olho devagar

E o sinto

E o guardo em mim

Espero que haja alguém que perceba

O quanto necessito de passear nos meus

livros

O quanto preciso de amar um livro

E dedicar-me

E fechar-me

Espero que haja alguém

Que perceba que estou cansada

Encurralada

E que parte da minha felicidade existe

nessa obscura dor que me consome

Espero que haja alguém tão subtil

Que exista

Não existindo

Como uma constância e uma partida

Espero que haja alguém que entenda

Que habito o passado não vivido

E que amo o largo caminho desta solidão

Espero

Que

Haja

Alguém...

 

In “Coreografia do Silêncio” 2018

 

Teresa Almeida Rocha

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Quinta-feira, 1 de Maio de 2025

Recordando... Vítor Matos e Sá

HORIZONTE DOS DIAS

 

1

 

Deves viver, inesperada, à beira-morte

prendendo teus gestos na curva do silêncio,

tocando a fronte dos deuses mais altos

como tu,

branca geometria de olhos puros,

construindo rosas, indícios, e uma vaga saudade

de noiva não nascida – a única

pelos humanos esperada eternamente

à nocturna varanda dos poemas.

 

2

 

O que eu te diria tem o nome dos instantes suspensos

como há depois da música, nas flores,

e no começo da noite...

 

O que eu te diria só podias ouvi-lo com a última nudez;

minhas palavras têm a claridade dos corpos que se dão

sem pertencerem.

 

O que eu te diria tem-te esperado muito.

Por isso te sabe de cor e te perco tanto;

e dos longos diálogos que é não chegares

vais morrendo, excessiva, de ti mesma.

 

Se nalgum lugar do destino nos encontrarmos

olharás em mim o teu rosto com olhos brancos,

como se olhasses tua morte mais pura.

 

In “ÁRVORE”

Folhas de Poesia

1.º Fascículo - Inverno de 1951-52

Pág. 116

 

Vítor Matos e Sá

(1927-1975)

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