SILÊNCIO
Nesta memória onde o silêncio fala
a viajar no meu sofá sem rumo,
percorro o mundo, sem sair da sala,
com palavras de fumo.
É o silêncio do musgo preso ao muro
de retardar a infância...
Por isso, ainda hoje me procuro
e perco na distância!
Há silêncios que voam como eu
num espanto de luz e nevoeiro
com uma estrela a navegar no céu
na mão dum marinheiro...
Nesta memória onde o silêncio fala
de lagos azuis ou doutra cor
onde um menino cresce e não se cala
quando fala de amor!
Ainda hoje o lago tem pedaços
com bailados de sombras e penumbra
pra recordar os sonhos onde os lábios
o coração afunda...
A fantasia dorme em teu regaço
e Pã dedica a Ceres o seu regresso
quando o silêncio quebra em mil pedaços
pra renascer num verso!
In “Palavras Com Distância”
Edium Editores
Ulisses Duarte
(1923-2008)
DE BOLORENTOS LIVROS RODEADO
De bolorentos livros rodeado
Moro, Senhor, nesta fatal cadeira
De quinze invernos a voraz carreira
Me tem no mesmo posto sempre achado,
Longo tempo em pedir tenho gastado,
E gastarei talvez a vida inteira;
O ponto está em que quem pode queira,
Que tudo o mais é trabalhar errado.
Príncipe Augusto, seja vossa a glória:
Fazei que este infeliz ache ventura;
Ajuntai mais um facto à vossa história.
Mas, se inda aqui me segue a desventura,
Cedo ao meu fado, e vou co’a palmatória
Cavar num canto da aula a sepultura.
In “Obras Completas”
Nicolau Tolentino de Almeida
(1740-1811)
NAS CIDADES DE ONDE VENHO
Nas cidades de onde venho
secam as árvores ao som das sirenes
e os pássaros, alucinados, buscam direcções
nas pupilas das crianças.
Nessas cidades tudo é pressa e desassossego,
enquanto os homens, imprudentes, desaprendem
a sublime auscultação da terra;
nem sequer o coração dos outros podem ler
ou o rumor inconsolável das águas
– para eles aquilo que apenas vêem!
E com um nó no peito desatado
pintam de harmonia um novo Caos
In “Pelo deserto as minhas mãos”
Editora Coisas de Ler
Victor Oliveira Mateus
(N.1952)
VAZIO
O dia começou cheio de sol,
agora pegou chuva.
Por trás da sua vidraça,
indiferente, um gato
todo estendido dorme.
Da marcenaria lá em baixo
sobe o som intermitente
de um martelo pregando
um móvel qualquer que o mestre
quer talvez aprontar hoje,
Largo o livro que lia
e de novo olho para a rua
onde não passa ninguém.
Por cima de um muro de quintal
as folhas de uma amoreira
tremem devagar, gotejando,
O martelo já se calou.
O gato começou a espreguiçar-se.
Agora é uma frágil música
talvez de flauta de cana,
como cuada pela chuva
que já está estiando.
Ergo-me da cadeira onde lia
enfio o casaco e caminho
direito à porta da rua.
Até à Praça, ou no café,
hei-de encontrar algum amigo
para a conversa desta tarde.
In “Fui ao Mar buscar Laranjas - Poesia reunida”
Editor Instituto Açoriano de Cultura
Pedro da Silveira
(1922-2003)
ESPERO QUE HAJA ALGUÉM QUE RESPEITE
Espero que haja alguém que respeite
a minha solidão
Que me ame no silêncio
Que me deixe enlouquecer só
Enquanto me limpa o pó dos livros
E se perde nos versos dos poemas
Espero que haja alguém que entenda
O quanto o amo sem nada dizer
Simplesmente porque o olho devagar
E o sinto
E o guardo em mim
Espero que haja alguém que perceba
O quanto necessito de passear nos meus
livros
O quanto preciso de amar um livro
E dedicar-me
E fechar-me
Espero que haja alguém
Que perceba que estou cansada
Encurralada
Só
E que parte da minha felicidade existe
nessa obscura dor que me consome
Espero que haja alguém tão subtil
Que exista
Não existindo
Como uma constância e uma partida
Espero que haja alguém que entenda
Que habito o passado não vivido
E que amo o largo caminho desta solidão
Espero
Que
Haja
Alguém...
In “Coreografia do Silêncio” 2018
Teresa Almeida Rocha
HORIZONTE DOS DIAS
1
Deves viver, inesperada, à beira-morte
prendendo teus gestos na curva do silêncio,
tocando a fronte dos deuses mais altos
como tu,
branca geometria de olhos puros,
construindo rosas, indícios, e uma vaga saudade
de noiva não nascida – a única
pelos humanos esperada eternamente
à nocturna varanda dos poemas.
2
O que eu te diria tem o nome dos instantes suspensos
como há depois da música, nas flores,
e no começo da noite...
O que eu te diria só podias ouvi-lo com a última nudez;
minhas palavras têm a claridade dos corpos que se dão
sem pertencerem.
O que eu te diria tem-te esperado muito.
Por isso te sabe de cor e te perco tanto;
e dos longos diálogos que é não chegares
vais morrendo, excessiva, de ti mesma.
Se nalgum lugar do destino nos encontrarmos
olharás em mim o teu rosto com olhos brancos,
como se olhasses tua morte mais pura.
In “ÁRVORE”
Folhas de Poesia
1.º Fascículo - Inverno de 1951-52
Pág. 116
Vítor Matos e Sá
(1927-1975)
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