Quarta-feira, 30 de Abril de 2025

Recordando... Armando Côrtes-Rodrigues

POENTE

 

As minhas sensações – barcos sem velas –

Erram de mim. Occaso rôxo. Scismo.

Meus olhos de Não-ver-me são janellas

Dando sobre o abysmo.

 

Abysmo d'Outro Ser. E a Hora chora

Nostalgica de Si, mas eu de vê-las

Erro de Ser-me, e a noite sem estrellas

Apavora.

 

Delirio rôxo d'agonia. Prece.

Poente feito noite. Escuridão.

Perturbo-me de mim em sensação

E dentro em mim desfallece

E anoitece

A sombra do meu Ser na solidão

Do dia que morreu

E se perdeu

E jámais amanhece.

 

Lisboa – 1914

 

(mantém a grafia da época)

 

In “ORPHEU”

Revista Trimestral de Literatura

Vol. I – 1915

 

Armando Côrtes-Rodrigues

(1891-1971)

António Silva António Silva às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Sexta-feira, 25 de Abril de 2025

Recordando... Jorge de Sena

CANTIGA DE ABRIL

 

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

 

Quase, quase cinquenta anos

reinaram neste país,

e conta de tantos danos,

de tantos crimes e enganos,

chegava até à raiz.

 

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

 

Tantos morreram sem ver

o dia do despertar!

Tantos sem poder saber

com que letras escrever,

com que palavras gritar!

 

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

 

Essa paz de cemitério

toda prisão ou censura.

e o poder feito galdério,

sem limite e sem cautério,

todo embófia e sinecura.

 

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

 

Esses ricos sem vergonha,

esses pobres sem futuro,

essa emigração medonha,

e a tristeza uma peçonha

envenenando o ar puro.

 

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

 

Essas guerras de além-mar

gastando as armas e a gente,

esse morrer e matar

sem sinal de se acabar

por politica demente.

 

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

 

Esse perder-se no mundo

o nome de Portugal,

essa amargura sem fundo,

só miséria sem segundo,

só desespero fatal.

 

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

 

Quase, quase cinquenta anos

durou esta eternidade,

numa sombra de gusanos

e em negócios de ciganos,

entre mentira e maldade.

 

Qual a cor da liberdade?

E verde, verde e vermelha.

 

Saem tanques para a rua,

sai o povo logo atrás:

estala enfim altiva e nua,

com força que não recua,

a verdade mais veraz.

 

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

 

In “40 Anos de Servidão”

Lisboa Edições 70

 

Jorge de Sena

(1919-1978)

António Silva António Silva às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | ler comentários (1) | favorito
Sábado, 19 de Abril de 2025

Recordando... Miguel Afonso Andersen **

NOS TEUS LÁBIOS

 

Nos teus lábios

as palavras sabem-me húmidas

como frutos matinais.

 

Quando clamas pelo meu nome

e soletras as suas consoantes e vogais

ele atinge a doçura ébria dum afago.

 

Às vezes vislumbro a tua língua,

gata dolente e espreguiçada na pronuncia

serpente serpenteando-me de óbvios desejos.

 

Eu gosto dela.

Viajo nela, cavalgo nela.

Faço amor com ela.

 

Nela, com ela atinjo os píncaros

das palavras atordoadas

dos gemidos mais gemidos

dos ais mais sentidos.

 

A tua língua é a minha casa

o meu chão,

a minha lavra.

É nela que aguardo

a rendição

aflita da palavra.

 

In “O início das águas”

Editora Arandis

 

Miguel Afonso Andersen **

(N.1950)

 

** Pseudónimo de Hélder Neves

António Silva António Silva às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | ler comentários (1) | favorito
Domingo, 13 de Abril de 2025

Recordando... Cesário Verde

AVÉ-MARIAS

 

Nas nossas ruas, ao anoitecer,

Há tal soturnidade, há tal melancolia,

Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia

Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

 

O céu parece baixo e de neblina,

O gás extravasado enjoa-me, perturba;

E os edifícios, com as chaminés, e a turba

Toldam-se duma cor monótona e londrina.

 

Batem os carros d'aluguer, ao fundo,

Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!

Ocorrem-me em revista, exposições, países:

Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

 

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,

As edificações somente emadeiradas:

Como morcegos, ao cair das badaladas,

Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

 

Voltam os calafates, aos magotes,

De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;

Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,

Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

 

E evoco, então, as crónicas navais:

Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!

Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!

Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

 

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

De um couraçado inglês vogam os escaleres;

E em terra num tinir de louças e talheres

Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

 

Num trem de praça arengam dois dentistas;

Um trôpego arlequim braceja numas andas;

Os querubins do lar flutuam nas varandas;

Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

 

Vazam-se os arsenais e as oficinas;

Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;

E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,

Correndo com firmeza, assomam as varinas.

 

Vêm sacudindo as ancas opulentas!

Seus troncos varonis recordam-me pilastras;

E algumas, à cabeça, embalam nas canastras

Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

 

Descalças! Nas descargas de carvão,

Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;

E apinham-se num bairro aonde miam gatas,

E o peixe podre gera os focos de infecção!

 

(O Sentimento dum Ocidental)

 

In "O Livro de Cesário Verde: 1873-1886"

Org. Silva Pinto

Typographia Elzeveriana - 1887

 

Cesário Verde

(1855-1886)

António Silva António Silva às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | ler comentários (2) | favorito
Segunda-feira, 7 de Abril de 2025

Recordando... Adelaide Vicente

TRADIÇÕES TRANSMONTANAS

 

Eu dou-te a Gancha, tu dás-me o Pito,

Olá meninos, expliquem lá isso…

Não é asneira, juro que não,

é uma tradição que há nas festas,

dos que vivem para lá do Marão,

são tradições tão naturais,

que vêm vindo de Avós para Pais,

e que nós transmitimos para nossos filhos,

pureza linda que ainda têm estas tradições…

Ela dá-lhe a Gancha pelo S. Brás,

Ele dá-lhe o Pito na Santa Luzia…

E lá vão convivendo no dia a dia,

e no S. Lázaro se já se entendem,

ambos vão comer os Cavacórios,

e vão gozando o Arraial,

e até já nem ligam se há falatório

porque o que é lindo, são as tradições,

e as Procissões de Vila Real…

 

(Poemas)

 

In “União dos Escritores e Artistas

Transmontanos e Altodurienses – UNEARTA”

Revista mensal - N.º 2 - Ano 1 - Janeiro 2002

 

Adelaide Vicente

(N.1950)

António Silva António Silva às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Terça-feira, 1 de Abril de 2025

Recordando... António Botto

QUEM NÃO AMA NÃO VIVE

 

Já na minha alma se apagam

As alegrias que eu tive;

Só quem ama tem tristezas,

Mas quem não ama não vive.

 

Andam pétalas e folhas

Bailando no ar sombrio;

E as lágrimas, dos meus olhos,

Vão correndo ao desafio.

 

Em tudo vejo Saudades!

A terra parece morta.

- Ó vento que tudo levas,

Não venhas á minha porta!

 

E as minhas rosas vermelhas,

As rosas, no meu jardim,

Parecem, assim caídas,

Restos de um grande festim!

 

Meu coração desgraçado,

Bebe ainda mais licor!

- Que importa morrer amando,

Que importa morrer d'amor!

 

E vem ouvir bem-amado

Senhor que eu nunca mais vi:

- Morro mas levo comigo

Alguma cousa de ti.

 

In “As Canções de António Botto”

Editorial Presença

 

António Botto

(1897-1959)

António Silva António Silva às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito

.Eu

.pesquisar

 

.Janeiro 2026

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
14
15
16
17
18
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.Ano XVIII

.posts recentes

. Recordando... Alexandre O...

. Recordando... Dalila Pere...

. Recordando... Alice Queir...

. Recordando... Ilda Pinto ...

. Recordando... José Blanc ...

. Recordando... David Mourã...

. Recordando... Irene Silva

. Recordando... Fiama Hasse...

. Recordando... Carlos Mace...

. Recordando... Alexandra M...

.arquivos

. Janeiro 2026

. Dezembro 2025

. Novembro 2025

. Outubro 2025

. Setembro 2025

. Agosto 2025

. Julho 2025

. Junho 2025

. Maio 2025

. Abril 2025

. Março 2025

. Fevereiro 2025

. Janeiro 2025

. Dezembro 2024

. Novembro 2024

. Outubro 2024

. Setembro 2024

. Agosto 2024

. Julho 2024

. Junho 2024

. Maio 2024

. Abril 2024

. Março 2024

. Fevereiro 2024

. Janeiro 2024

. Dezembro 2023

. Novembro 2023

. Outubro 2023

. Setembro 2023

. Agosto 2023

. Julho 2023

. Junho 2023

. Maio 2023

. Abril 2023

. Março 2023

. Fevereiro 2023

. Janeiro 2023

. Dezembro 2022

. Novembro 2022

. Outubro 2022

. Setembro 2022

. Agosto 2022

. Julho 2022

. Junho 2022

. Maio 2022

. Abril 2022

. Março 2022

. Fevereiro 2022

. Janeiro 2022

. Dezembro 2021

. Novembro 2021

. Outubro 2021

. Setembro 2021

. Agosto 2021

. Julho 2021

. Junho 2021

. Maio 2021

. Abril 2021

. Março 2021

. Fevereiro 2021

. Janeiro 2021

. Dezembro 2020

. Novembro 2020

. Outubro 2020

. Setembro 2020

. Agosto 2020

. Julho 2020

. Junho 2020

. Maio 2020

. Abril 2020

. Março 2020

. Fevereiro 2020

. Janeiro 2020

. Dezembro 2019

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

.tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds