POENTE
As minhas sensações – barcos sem velas –
Erram de mim. Occaso rôxo. Scismo.
Meus olhos de Não-ver-me são janellas
Dando sobre o abysmo.
Abysmo d'Outro Ser. E a Hora chora
Nostalgica de Si, mas eu de vê-las
Erro de Ser-me, e a noite sem estrellas
Apavora.
Delirio rôxo d'agonia. Prece.
Poente feito noite. Escuridão.
Perturbo-me de mim em sensação
E dentro em mim desfallece
E anoitece
A sombra do meu Ser na solidão
Do dia que morreu
E se perdeu
E jámais amanhece.
Lisboa – 1914
(mantém a grafia da época)
In “ORPHEU”
Revista Trimestral de Literatura
Vol. I – 1915
Armando Côrtes-Rodrigues
(1891-1971)
CANTIGA DE ABRIL
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste país,
e conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raiz.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar!
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Essa paz de cemitério
toda prisão ou censura.
e o poder feito galdério,
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Essas guerras de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por politica demente.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo,
só desespero fatal.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.
Qual a cor da liberdade?
E verde, verde e vermelha.
Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim altiva e nua,
com força que não recua,
a verdade mais veraz.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
In “40 Anos de Servidão”
Lisboa Edições 70
Jorge de Sena
(1919-1978)
NOS TEUS LÁBIOS
Nos teus lábios
as palavras sabem-me húmidas
como frutos matinais.
Quando clamas pelo meu nome
e soletras as suas consoantes e vogais
ele atinge a doçura ébria dum afago.
Às vezes vislumbro a tua língua,
gata dolente e espreguiçada na pronuncia
serpente serpenteando-me de óbvios desejos.
Eu gosto dela.
Viajo nela, cavalgo nela.
Faço amor com ela.
Nela, com ela atinjo os píncaros
das palavras atordoadas
dos gemidos mais gemidos
dos ais mais sentidos.
A tua língua é a minha casa
o meu chão,
a minha lavra.
É nela que aguardo
a rendição
aflita da palavra.
In “O início das águas”
Editora Arandis
Miguel Afonso Andersen **
(N.1950)
** Pseudónimo de Hélder Neves
AVÉ-MARIAS
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.
Batem os carros d'aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.
Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.
E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!
E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.
Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!
Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.
Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.
Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!
(O Sentimento dum Ocidental)
In "O Livro de Cesário Verde: 1873-1886"
Org. Silva Pinto
Typographia Elzeveriana - 1887
Cesário Verde
(1855-1886)
TRADIÇÕES TRANSMONTANAS
Eu dou-te a Gancha, tu dás-me o Pito,
Olá meninos, expliquem lá isso…
Não é asneira, juro que não,
é uma tradição que há nas festas,
dos que vivem para lá do Marão,
são tradições tão naturais,
que vêm vindo de Avós para Pais,
e que nós transmitimos para nossos filhos,
pureza linda que ainda têm estas tradições…
Ela dá-lhe a Gancha pelo S. Brás,
Ele dá-lhe o Pito na Santa Luzia…
E lá vão convivendo no dia a dia,
e no S. Lázaro se já se entendem,
ambos vão comer os Cavacórios,
e vão gozando o Arraial,
e até já nem ligam se há falatório
porque o que é lindo, são as tradições,
e as Procissões de Vila Real…
(Poemas)
In “União dos Escritores e Artistas
Transmontanos e Altodurienses – UNEARTA”
Revista mensal - N.º 2 - Ano 1 - Janeiro 2002
Adelaide Vicente
(N.1950)
QUEM NÃO AMA NÃO VIVE
Já na minha alma se apagam
As alegrias que eu tive;
Só quem ama tem tristezas,
Mas quem não ama não vive.
Andam pétalas e folhas
Bailando no ar sombrio;
E as lágrimas, dos meus olhos,
Vão correndo ao desafio.
Em tudo vejo Saudades!
A terra parece morta.
- Ó vento que tudo levas,
Não venhas á minha porta!
E as minhas rosas vermelhas,
As rosas, no meu jardim,
Parecem, assim caídas,
Restos de um grande festim!
Meu coração desgraçado,
Bebe ainda mais licor!
- Que importa morrer amando,
Que importa morrer d'amor!
E vem ouvir bem-amado
Senhor que eu nunca mais vi:
- Morro mas levo comigo
Alguma cousa de ti.
In “As Canções de António Botto”
Editorial Presença
António Botto
(1897-1959)
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