Segunda-feira, 31 de Março de 2025

Recordando... Lília Tavares

HÁ MULHERES QUE COM LISURA SE LAVAM…

 

Há mulheres que com lisura se lavam, contornando

ao de leve pequenas ilhas no corpo. Aspiram odores antigos,

cerram os olhos como se por acaso

se perdessem em memórias do lado de lá da pele.

Com lágrimas limpas se expiam nas reentrâncias, conchas

seladas para sempre onde guardam velado o sal das marés.

Nasce nelas um prenúncio de noite. A linfa do corpo

é etérea como o perfume antigo da ternura.

 

In “Bailarinas de corda”

Poética Edições

 

Lília Tavares

(N.1961)

António Silva António Silva às 00:00
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Terça-feira, 25 de Março de 2025

Recordando... José de Almada Negreiros

LUÍS, O POETA SALVA A NADO O POEMA

 

Era uma vez

um português

de Portugal.

O nome Luís

há-de bastar

toda a nação

ouviu falar.

Estala a guerra

E Portugal

chama Luís

para embarcar.

Na guerra andou

a guerrear

e perde um olho

por Portugal.

Livre da morte

pôs-se a contar

o que sabia

de Portugal.

Dias e dias

grande pensar

juntou Luís

a recordar.

Ficou um livro

ao terminar

muito importante

para estudar.

Ia num barco

ia no mar

e a tormenta

vá d’estalar.

Mais do que a vida

há-de guardar

o barco a pique

Luís a nadar.

Fora da água

Um braço no ar

na mão o livro

há-de salvar.

Nada que nada

sempre a nadar

livro perdido

no alto mar.

– Mar ignorante

que queres roubar?

a minha vida

ou este cantar?

A vida é minha

ta posso dar

mas este livro

há-de ficar.

Estas palavras

hão-de durar

por minha vida

quero jurar.

Tira-me as forças

podes matar

a minha alma

sabe voar.

Sou português

de Portugal

depois de morto

não vou mudar.

Sou português

de Portugal

acaba a vida

e sigo igual.

Meu corpo é Terra

de Portugal

e morto é ilha

no alto mar.

Há portugueses

a navegar

por sobre as ondas

me hão-de achar.

A vida morta

aqui a boiar

mas não o livro

se há-de molhar.

Estas palavras

vão alegrar

a minha gente

de um só pensar.

À nossa terra

irão parar

lá toda a gente

há-de gostar.

Só uma coisa

vão olvidar:

o seu autor

aqui a nadar.

É fado nosso

é nacional

não há portugueses

há Portugal.

Saudades tenho

mil e sem par

saudade é vida

sem se lograr.

A minha vida

vai acabar

mas estes versos

hão-de gravar.

O livro é este

é este o cantar

assim se pensa

em Portugal.

Depois de pronto

faltava dar

a minha vida

para o salvar.

 

In “Obras Completas - Poesia”

Editora Estampa

 

José de Almada Negreiros

(1893-1970)

António Silva António Silva às 00:00
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Quarta-feira, 19 de Março de 2025

Recordando... Guerra Junqueiro

LAR

 

Ai, há quantos anos que eu parti chorando

Deste meu saudoso, carinhoso lar!...

Foi há vinte?... há trinta?... Nem eu sei já quando!...

Minha velha ama, que me estás fitando,

Canta-me cantigas para me eu lembrar!...

 

Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida...

Só achei enganos, decepções, pesar...

Oh! a ingénua alma tão desiludida!...

Minha velha ama, com a voz dorida,

Canta-me cantigas de me adormentar!...

 

Trago d’amargura o coração desfeito...

Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!

Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...

Minha velha ama que me deste o peito,

Canta-me cantigas para me embalar!...

 

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho

Pedrarias d’astros, gemas de luar...

Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...

Minha velha ama, sou um pobrezinho...

Canta-me cantigas de fazer chorar!

 

Como antigamente, no regaço amado,

(Venho morto, morto!...) deixa-me deitar!

Ai, o teu menino como está mudado!

Minha velha ama, como está mudado!

Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

 

Canta-me cantigas, manso, muito manso...

Tristes, muito tristes, como à noite o mar...

Canta-me cantigas para ver se alcanço

Que a minh’alma durma, tenha paz, descanso,

Quando a Morte, em breve, ma vier buscar!...

 

In “Os Simples”

Lello Editores

 

Guerra Junqueiro

(1850-1923)

António Silva António Silva às 00:00
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Quinta-feira, 13 de Março de 2025

Recordando... Herberto Hélder

HÁ CIDADES COR DE PÉROLA

 

Há cidades cor de pérola onde as mulheres

existem velozmente. Onde

às vezes param, e são morosas

por dentro. Há cidades absolutas,

trabalhadas interiormente pelo pensamento

das mulheres.

Lugares límpidos e depois nocturnos,

vistos ao alto como um fogo antigo,

ou como um fogo juvenil.

Vistos fixamente abaixados nas águas

celestes.

Há lugares de um esplendor virgem,

com mulheres puras cujas mãos

estremecem. Mulheres que imaginam

num supremo silêncio, elevando-se

sobre as pancadas da minha arte interior.

 

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.

Emoções onde vivo sem orelhas

nem dedos. Onde consumo

uma amizade bárbara. Um amor

levitante. Zona

que se refere aos meus dons desconhecidos.

Há fervorosas e leves cidades sob os arcos

pensadores. Para que algumas mulheres

sejam cândidas. Para que alguém

bata em mim no alto da noite e me diga

o terror de semanas desaparecidas.

Eu durmo no ar dessas cidades femininas

cujos espinhos e sangues me inspiram

o fundo da vida.

Nelas queimo o mês que me pertence.

A minha loucura, escada

sobre escada.

 

Mulheres que eu amo com um desespero

fulminante, a quem beijo os pés

supostos entre pensamento e movimento.

Cujo nome belo e sufocante digo com terror,

com alegria. Em que toco levemente

a boca brutal.

Há mulheres que colocam cidades doces

e formidáveis no espaço, dentro

de ténues pérolas.

Que racham a luz de alto a baixo

e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde

a treva, de crime em crime - espero

a felicidade de loucas delicadas

mulheres.

Uma cidade voltada para dentro

do génio, aberta como uma boca

em cima do som.

Com estrelas secas.

Parada. 

 

Subo as mulheres aos degraus.

Seus pedregulhos perante Deus.

É a vida futura tocando o sangue

de um amargo delírio.

Olho de cima a beleza genial

de sua cabeça

ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se

no meu pensamento quente.

 

[Lugar]

 

In “Poesia Toda”

Assírio & Alvim

 

Herberto Hélder

(1930-2015)

António Silva António Silva às 00:00
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Sexta-feira, 7 de Março de 2025

Recordando... Judith Teixeira **

CONTRIÇÃO

 

A minha inteligência absolveu já

a minha culpa, numa lucidez

que me faz medo: Sim, sim, e oxalá

que ela acabe na dor que se desfez!

 

E uma análise fria é que me dá

a certeza da minha pequenez

ante a enormidade onde vergará

a linha nobre e vã desta altivez.

 

Sim, eu sei que se tu hoje pensares

volver-me esse amor rubro e sem beleza,

serei vulgar e igual às mais vulgares...

 

E quanto mais me quero condenar

mais luz se faz, e sinto esta tristeza:

- ser um mísero barro de quebrar!

 

In "Poemas"

Editora &etc

 

Judith Teixeira **

(1880-1959)

 

** Pseudónimo de Judite dos Reis Ramos Teixeira

António Silva António Silva às 00:00
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Sábado, 1 de Março de 2025

Recordando... Maria João Brito de Sousa

CÁ DENTRO E TÃO PERDIDO

 

Sei de um mundo de luz onde os poetas,

Despidos dos humanos preconceitos,

Viajam pelo espaço entre os eleitos

Como estrelas do céu, como cometas...

 

Por esse mundo a alma, essa inquieta,

Etérea como a luz, esquece os defeitos

E rodopia em círculos perfeitos

De fórmula geométrica e secreta...

 

Eu sei de um mundo mágico e seguro

Onde cada presente é um futuro,

Onde a terrena dor não faz sentido...

 

Sei desse mundo porque já lá estive

E a imagem dele ´inda em mim vive

Dentro de mim. Cá dentro e tão perdido...

 

In “Poeta Porque Deus Quer”

1ª Edição – Janeiro.2009

Autores Editora

 

Maria João Brito de Sousa

(N.1952)

António Silva António Silva às 00:00
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