ROMANCE DE UMA FREIRA INDO ÀS CALDAS
Belisa, aquela beldade,
Cujas perfeições são tais,
Que a formosura e juízo
Vivem nela muito em paz;
Aquela Circe das almas,
Cuja voz sempre será
Encanto dos alvedrios
E o pasmo de Portugal;
Enferma, bem que sublime,
De uns achaques mostras dá,
Pois às deidades também
Os males se atrevem já.
Por se livrar das moléstias
Que a costumam magoar,
Se negou remédio às vidas,
Por remédio às Caldas vai.
Aquele sol escondido
Entre as nuvens de um saial,
Se ocaso faz de um convento,
Do campo eclíptica faz.
Mas, logo que os campos lustra,
Alento e desmaios dá
Ao dia para luzir,
Ao Sol para se eclipsar.
Aos prados, a quem o Estio
Despe a gala natural,
Quando os olhos podem ver,
Flores tornam a enfeitar.
Dando-lhe a música os bosques
Com citara de cristal,
Parece entre os ramos verdes
Cada rouxinol um Brás.
A viração que entre as folhas
Sempre buliçosa está,
Ou já murmure ou suspire,
Faz de cada assopro um ai.
Cuido que, por festejá-la
Com contentamento igual,
As fontes querem tanger
E as plantas querem bailar.
In “Fénix Renascida, V”
Frei António das Chagas **
(1631-1682)
** De seu nome António da Fonseca Soares
CONVÍVIO TRANSMONTANO
Há dias, numa quinta, alegre e fresca,
Aconteceu uma coisa simplesmente bela:
Celebrou-se um aniversário em tom de festa
E houve missa celebrada na capela.
Apareceram joviais e prazenteiros,
Atravessando alguns, até o velho Marão,
Envergando os seus fatos domingueiros,
Trazendo esperança e fé no coração.
Era um grupo onde o estrato social,
Nesse dia, ficou pendurado no armário.
Pois todos comungamos o mesmo ideal,
Vivendo intensamente aquele aniversário.
E assim se fez. O bom repasto serviu,
Para sublimar este encontro anual.
Afinaram-se as gargantas, pois se ouviu,
Felizes transmontanos a cantar.
(Buscando o Amor)
In “União dos Escritores e Artistas
Transmontanos e Altodurienses – UNEARTA”
Revista mensal - N.º 2 - Ano 1 - Janeiro 2002
Manuel Amendoeira
(N.1940)
SONHO COM UMA CASA CLAUSTROFÓBICA
Sonho com uma casa claustrofóbica,
um emprego anónimo e mecânico
numa terra sem presente nem futuro;
sonho ser impotente e já desonerado
de qualquer prova da minha existência;
sonho-me em silêncio, quase pétreo,
e sem ninguém que me trate por tu;
sonho-me a viver apenas para o relógio,
pontualíssimo a abrir e fechar portas
e persianas e caixas e olhos;
sonho-me remediado de dinheiro, à justa,
cozendo cavala, descascando uma maçã,
sem que a maçã seja mais do que uma maçã;
sonho-me a apagar a luz atrás de mim,
tacteando no escuro uma parede escura,
sem memória de qualquer outra parede;
sonho-me a adormecer em Maio e a acordar em Setembro
para escapar à agressão do sol;
sonho-me a beber apenas água
e a tomar comprimidos para os rins
e a urinar dolorosamente pouco;
e sonho mais: sonho que nunca te vi.
In "Quarto de Hóspedes"
Língua Morta
Miguel Martins
(N.1969)
DAMA DE COPAS
Entre ases e manilhas
Duque e terno da sueca
As damas são maravilhas
Quem as tem que as não perca
Diz-lhe lá então ó mesa
Qual o nome de eleição
Eu quero ter a certeza
Da carta em meu coração
Naipe já tu o disseste
E cortar com espadas não
Nem com oiros me fizeste
Nem paus te chegam à mão
São copas, venham mais taças
Vamos pois brindar à dama
Só não quero que o faças
No meio da minha cama
Muito agradecido fico
Pano verde onde joguei
Em dinheiro não sou rico
Mas levo a dama do rei
Tem cuidado com a sorte
Ó jogador afamado
Pode a dama ser a morte
E depois ficas parado
Não te saia pé de cabra
Ó meu cavaleiro andante
Procura a chave que abra
O seu coração de amante
A dama de copas canto
Bem alto os copos erguendo
Cuidado não seja tanto
Que a percas anoitecendo
Dama de copas é amor
Vence a morte em qualquer mesa
Não tenhas medo ou temor
O vinho deu-me a certeza
In “Dama de Copas”
Editora &etc
Eduardo Guerra Carneiro
(1942-2004)
AO MÍNIMO CLARÃO
Talvez seja melhor não nos voltarmos
a ver, ao mínimo clarão
das mãos a pele se desavém com a memória.
As mãos são de qualquer corpo a coroa.
Das dele já nem sequer o itinerário
sei hoje muito bem, onde o horizonte
se desata o mar agora
regressa ao coração de que faz parte.
Ainda é o mar contudo o que se vê
florir onde ele chegar. Chamando a esse
rapaz rebentação,
o céu rasga-se à volta dos seus ombros
In "Poesia completa (1979-1994)”
Publicações Dom Quixote
Luís Miguel Nava
(1957-1995)
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