BABEL
cidade exaltada pela pobreza
misérias carregadas de nobreza
tudo o que se tem vai depressa
todas as riquezas são miragem
tudo o que se salvou foi a linguagem
que suporta a arte da coragem
que sustenta tantos hábitos desiguais
de quem se recusa a morrer depressa demais
e o sal da terra
é o mar que o traz
mas também o leva
In “Memórias de Sal”
Editora Fonte da Palavra
Ricardo Boléo
(N.1984)
NATAL
Todos os anos, nesta data exacta,
Momentos antes
De fechar o cartório
De poeta
– Um registo civil ultra-real –,
O mago desse arquivo de presságios
Regista de antemão o mesmo nome
No seu livro de assentos:
– Jesus… – repete com melancolia,
A consumar a morte prematura
Do nascituro,
E a lamentar que a mãe, Virgem Maria,
Humana criatura,
Continue a ter filhos no futuro
Condenados à mesma desventura.
Martinho da Anta, 24 de Dezembro de 1973.
In “Poesia Completa” 2 volumes
Publicações Dom Quixote
Miguel Torga **
(1907-1995)
** Pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha
NADA MAIS RESTA
Que mais posso dizer-te
se as palavras se desfazem
contra o muro de cal viva
do teu peito?
que mais te posso dar
nesta certeza de saber
que tudo dei de mim?
trago os olhos cansados
de olhar o horizonte
as mãos dormentes
de as erguer ao céu
os braços doridos
de procurar os teus
a luz apagou-se
o pano caiu
nada mais resta
que cinzas e olvido.
In “Opus - selecta de poesia em língua portuguesa”
Editora Temas Originais - 2018
Clara Maria Barata
O QUE É AMAR?
Amar é ver morrer a cada hora
Um sonho que o Amor crucificou
E vestir-se de luto a cada aurora
Um desejo febril que agonizou...
É lavar toda a dor, toda a amargura
Na fonte de piedade d’um olhar
E ver depois por uma noite escura
Que a dor é imensa e a fonte está a secar...
É ver nos olhos verdes que beijamos
Cair a cinza vá da vida morta...
E quando o tédio bate à nossa porta,
Erguer nas mãos as d’essa que adoramos
É beijá-las pedindo-lhe perdão
De ter a alma morta e morto o coração...
In “Oceano” - 1905
António Patrício
(1878-1930)
À MORTE
Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E, como uma raiz, sereno e forte.
Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.
Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!
Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera... quebra-me o encanto!
(Reliquiæ,1934)
In “Sonetos de Florbela Espanca”
Colecção Autores Portugueses de Ontem
Edição da Livraria Estante – Junho.1988
Florbela Espanca
(1894-1930)
PLENITUDE
Pequena gota feita em oceano...
Seja assim para nós cada segundo,
E cada ideia ou pensamento humano
Um raciocínio lógico e profundo!
Queimar-nos com paixão e esforço insano
E lentamente conquistar o mundo
Que morre dum viver que é só engano.
Seja assim para nós cada segundo...
Viver intensamente, sem receio,
Trazer a transbordar o peito cheio
Dum tal Ideal que nunca nos ilude...
E ao chegar a hora da partida
Que a vida tenha sido sempre...Vida,
E Ela toda...suprema Plenitude!
In “Romagem”
Maria Teresa Andrade Santos
(1917-2006)
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