CORPO AUSENTE
Mistério, esse, o da vida...
Aquele que morre nos ponteiros do tempo
Das almas guardadas num oceano sem fundo
Porque os corpos já não comandam
Os dias que passam, inúteis...
Guardei no bolso o sonho
Porque nos olhos já não cabia!
Era grande demais, e os olhos são pequenos...
O bolso, é fundo e escuro
Acomoda a eternidade do que é utópico.
Tomo café, ainda assim, todas as manhãs
Com os raios de sol que cabem nas palmas das minhas mãos
E vêm plantar esperança na seiva que corre em mim.
E na sombra da minha silhueta
Planto o silêncio que o vento afaga
Trémulas, as minhas mãos? Não!
Fazem parte do meu corpo ausente
Que adormeceu, há muito, nos braços da terra.
In “O Eco do Silêncio”
Editora Esfera do Caos
Cecília Vilas Boas
A LÍNGUA SOBRE A PELE O ARREPIO
A língua sobre a pele o arrepio
Os teus dedos nas escadas do meu corpo
As lâminas do amor o fogo a espuma
A transbordar de ti na tua fuga
A palavra mordida entre os lençóis
As cinzas de outro lume à cabeceira
Da mesma esquina sempre o mesmo olhar:
Nada do que era teu vou devolver.
In “Dois corpos tombando na água”
Editorial Caminho
Alice Vieira
(N.1943)
EM DIA DE CINZA, SOBRE AS PALAVRAS: "QUIA PULVIS ES"
Melhor há de mil anos que me grita
Uma voz, que me diz: "És pó da terra!"
Melhor há de mil anos que a desterra
Um sono que esta voz desacredita.
Diz-me o pó que sou pó, e a crer me incita
Que é vento quanto neste pó se encerra;
Diz-me outro vento que esse pó vil erra...
Qual destes a verdade solicita?
Pois, se mente este pó, que foi do mundo?
Que é do gosto? Que é do ócio? Que é da idade?
Que é do vigor constante e amor jocundo?
Que é da velhice? Que é da mocidade?
Tragou-me a vida inteira o mar profundo!
Ora quem diz: - "sou pó" - falou verdade.
In “Antologia da Poesia Barroca Portuguesa”
D. Francisco Manuel de Melo
(1608-1666)
AS PUTAS DA AVENIDA
Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena
vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena
essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena
mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena
In “Variações em Sousa”
Editora Cotovia
Fernando Assis Pacheco
(1937-1995)
ENTARDECER
Sobram dias, faltam noites
Para que a tua voz me detenha
E a tua pele me acenda.
Sobram dias, faltam noites
Para que estes meus olhos
Se libertem desta venda.
A esperança dos dias
O silêncio das noites
São ventos, são murmúrios
Num solitário dizer.
Enquanto a nossa noite não vier
Enquanto não acontecer
Serão apenas mais madrugadas
Serenos dias de mãos dadas
À espera do entardecer.
In “À Sombra do Silêncio”
Mosaico das Palavras Editora
Carlos Campos
INCÊNDIO
se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha – não te assustes
são os teus antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te
diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo – diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas – com eles no chão
In “Horto de Incêndio”
Assírio & Alvim
Al Berto **
(1948-1997)
** Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares
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