LINHA DE RUMO
Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Encontro-me parado…
Olho em redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.
Tanto tempo perdido…
Com que saudade o lembro e o bendigo:
Campos de flores
E silvas…
Fonte da vida fui. Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver.
E sigo deslumbrado o pensamento
Que se descobre.
Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Desterrado,
Desterrado prossigo.
E sonho-me sem Pátria e sem Amigos.
Adrede.
In “O Livro do Nómada meu Amigo”
Guimarães Editores
Ruy Cinatti
(1915-1986)
OS FILHOS NASCERAM TODOS NA CASA
os filhos nasceram todos na casa
os gatos morreram noutros gatos
o limoeiro engrossou os sonhos
a bola em aeronáutica cubista
partiu uma jarra
os amigos tinham a estatura
de uma porta aberta
as bonecas sobreviveram à minha
primeira dívida com o amor
o resto não se conta
porque não sei se é por isto
que uma casa É feliz
In “A Impaciência das Cores
seguido de Dicionário das Insignificâncias”
Quasi Edições
João Rios **
(N.1964)
** Pseudónimo de Manuel Vasques
APELO
Dá-me as tuas mãos,
e corramos livres pelas ruas floridas,
como um vento que não tem horizonte definido!
Carregados de perfume e de brancura,
sejamos os audazes caminheiros de todos os rumos e de todos os ritmos,
enfim, senhores dos dias e dos nossos corpos!
Solta o teu cabelo e contempla-me:
não sentes o bater do meu sangue nas tuas veias,
e os lábios nos meus, sequiosos e ardentes?
Porquê então o laço nupcial, a aliança e a data memorável,
as certidões de idade, os brindes e as flores convencionais,
se tudo isso está simplesmente incluso
no nosso passeio pela rua de braço dado,
mudos, em contemplação recíproca,
unidos por dias e árvores,
presos em constelações, lábios e corpos,
ligados a lágrimas, noites de desespero e baladas saudosas?
In “ÁRVORE ”
Folhas de Poesia
1.º Fascículo - Inverno de 1951-52
Pág. 108
Rogério Fernandes
(1933-2010)
SILÊNCIO
No momento exacto
Chegou a tua mão estendida
Coberta de silêncio
A repetir no gesto
O brilho
Que têm as estrelas.
Chamei e ecoou em ti
O grito
Irmã desconhecida.
Afinal
Há fendas
No muro de granito
E há mãos
Sem grades nas janelas.
In “Reduto”
Soledade Martinho Costa
Portugal
MEU CORAÇÃO É COMO UM PEIXE CEGO
Meu coração é como um peixe cego,
Só o calor das águas o orienta,
E por isso me arrasta aonde me nego;
De puros impossíveis me sustenta.
O que eu tenho sentido é mais que mar;
Em força e azul, cinco oceanos soma:
Mas ainda há a tristeza a carregar
E as coisas que só pesam pelo aroma.
Há o país da espera e dos sinais,
Se feitos, apagados na neblina,
E a terra de tudo e muito mais,
Onde a minha alma é quase uma menina.
Sentada no jardim de nunca, a triste!
Se vale a pena em flor, essa ainda rego.
Tudo o mais – nem me agrava, nem existe:
Árida distracção, lânguido apego.
In “Eu, Comovido a Oeste”
Revista de Portugal – 1940
Vitorino Nemésio
(1901-1978)
DESPEDIDA
Amanhece
e no espreguiçar dos olhos
absorvo a tontura do novo dia.
Ao sair do quarto
atravesso o branco sujo da manhã
e vou tomar café com muito açúcar.
Levo um pastel de Tentúgal para a varanda
e mastigo-o ouvindo as harpas da cidade.
E quando tu chegas de roupão
bebendo o teu cacau
explico-te o horizonte com barcos.
In “O Valete do Sétimo Naipe”
Daniel Maia-Pinto Rodrigues
(N.1960)
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