OS MESMOS DEUSES SÃO PRECÁRIOS...
Os mesmos deuses são precários...
Ninguém dos homens é alguém.
Passam os Silas e os Mários.
Todos igual a terra tem,
E os mesmos deuses são precários.
Quem sabe se eles são ninguém?
Talvez que tudo, em mal ou bem,
Um nada seja, feito vários,
Para os processos de vaivém
Que fazem mundos, para quem
Os mesmos deuses são precários.
14 - 2 - 1934
In “Poemas Esotéricos - Fernando Pessoa”
Edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith
Assírio & Alvim
Pág. 116
Fernando Pessoa
(1888-1935)
[EPIGRAMA]
«Eu amo os meus sonhos», disse eu para alguém
Prosaico, em manhã de inverno, que com desdém
Replicou: «Não sou escravo de Ideal
E, como gente sensata, amo o Real.»
Pobre tolo, o ser e o parecer trocando -
É que eu amo o Real meus sonhos amando.
In “Poesia”
Edição e tradução de Luísa Freire
Assírio & Alvim – 1999
Alexander Search
Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)
REGRESSO AO LAR
Há quanto tempo não escrevo um soneto
Mas não importa: escrevo este agora.
Sonetos são infância e, nesta hora.
A minha infância é só um ponto preto
Que num imóbil e fútil trajecto
Do comboio que sou me deita fora
E o soneto é como alguém que mora
Há dois dias em tudo que projecto.
Graças a Deus, ainda sei que há
Quatorze linhas a cumprir iguais
Para a gente saber onde é que está...
Mas onde a gente está, ou eu, não sei...
Não quero saber mais de nada mais
E berdamerda para o que saberei.
3/2/1935
In “Álvaro de Campos - Livro de Versos”
Estampa -1993
Pág. 198
Álvaro de Campos
Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)
NÃO TENHO HOJE MEMÓRIA, NESTE SONHO
Não tenho hoje memória, neste sonho
Que sou de mim, de quanto quis ser eu.
Nada de nada surge do medonho
Abismo de quem sou em Deus, do meu
Ser anterior a mim, a me dizer
Quem sou, esse que fui quando no céu,
Ou o que chamam céu, pude querer.
Sou entre mim e mim o intervalo —
Eu, o que uso esta forma definida —
Em outro mundo ulterior resvalo.
Em outro mundo, onde a vontade é lei,
Livremente escolhi aquela vida
Com que primeiro neste mundo entrei.
Livre, a ela fiquei preso e eu a paguei
Com o preço das vidas subsequentes
De que ela é a causa, o deus; e esses entes,
Por ser quem fui, serão o que serei.
[1932?]
In “Poemas Esotéricos - Fernando Pessoa” – 1ª edição Abril.2014
Edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith
Assírio & Alvim
Pág. 96
Fernando Pessoa
(1888-1935)
VOSSA FORMOSA JUVENTUDE LEDA
Vossa formosa juventude leda,
Vossa felicidade pensativa,
Vosso modo de olhar a quem vos olha,
Vosso não conhecer-vos –
Tudo quanto vós sois, que vos semelha
À vida universal que vos esquece
Dá carinho de amor a quem vos ama
Por serdes não lembrando
Quanta igual mocidade a eterna praia
De Cronos, pai injusto da justiça,
Ondas, quebrou, deixando à só memória
Um branco som de espuma.
2-9-1923
In “Odes de Ricardo Reis”
Ática, 1946 (imp.1994)
Pág. 81
Ricardo Reis
Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)
SE O HOMEM FOSSE…
Se o homem fosse, como deveria ser,
Não um animal doente, mas o mais perfeito dos animais,
Animal directo e não indirecto,
Devia ser outra a sua forma de encontrar um sentido às cousas,
Outra e verdadeira.
Devia haver adquirido um sentido do «conjunto»;
Um sentido como ver e ouvir do «total» das cousas
E não, como temos, um pensamento do «conjunto»;
E não, como temos, uma ideia, do «total» das cousas.
E assim – veríamos – não teríamos noção do «conjunto» ou do «total»,
Porque o sentido do «total» ou do «conjunto» não vem de, um total ou de um conjunto
Mas da verdadeira Natureza talvez nem todo nem partes.
1-10-1917
(Poemas Inconjuntos)
In “Obra Poética e em Prosa”
Lello & Irmão
Alberto Caeiro
Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)
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