GOLPE
Por medo da insónia adio o sono
nas noites em que com um golpe frio
a memória levanta a onda morta
do irrecuperável: o que adio?
Estou deitado num tempo muito extenso
entre a luz e o escuro, estou perdido
entre o imaginado e a verdade
de um mundo sem imagens: o que adio
não é o sono de que temo a falta
nem o sonho feroz nele contido
é a história do corpo percutindo
na fundura impiedosa do vazio
In “Existência”
Assírio & Alvim
Gastão Cruz
(1941-2022)
CONSERTO A PALAVRA…
Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
Ilumino-a
Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em exame
Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome
Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela
E ilumino-a
In “Poesia”
Assírio & Alvim
Daniel Faria
(1971-1999)
ANHÉLIA
A tarde finda. O Sol, numa agonia,
Morde a terra co' a boca chamejante...
Na loura paz d'um sonho edulcorante
Feérica a paisagem irradia.
Curvada sobre o peito a fronte mésta,
Branca e radiosa, Anhélia, a peregrina,
Como impelida pela mão da Sina,
Sonâmbula, caminha p’rá floresta.
In “Ave Azul” - Revista de arte e crítica
Fascículo n.º1 - 15.Janeiro.1899
Beatriz Pinheiro
(1872-1922)
CERIMÓNIA FUNESTA
O corpo não responde
às vozes de comando,
como um cão estropiado
já desdenha os apelos
os antigos convites
às funestas moradas,
esqueceu-se do ponto
vai olvidando senhas
os códigos das grutas
acumulando lixos
as servidões austeras
diluem-se num canto
o corpo não atende chamadas
não estremece ao ruído da chave
não suporta
qualquer intromissão
secou num aterro,
os restos à vista
a memória escava
da lembrança os rastos
avidamente suga
de tal fausto os ossos,
de tão vitais cerimónias
nos tão secretos barcos
mesmo o pouco que resta
ainda se mastiga.
In "Vida Extenuada"
& etc Editora
Fátima Maldonado
(N.1941)
PORMENOR
Por não saber o porquê
Eu choro de nostalgia...
… Eu choro mas ninguém vê.
Nem ninguém me entenderia!
Pois eu choro e ninguém vê
Que choro da nostalgia
De não saber o porquê.
In “Altura“
Cadernos de Poesia
N.º 1 de Fevereiro de 1945
Carlos Macedo
SILÊNCIO
Toda a minha vida me escutaste em silêncio.
Tinhas à disposição as vozes enormes
do vento, das águas, do trovão, do pintassilgo -
mas nunca dei por que as usasses comigo.
Envelheci enredado
nas teias dessa mudez.
Ganhei a industriosa astúcia dos velhos
à custa de perder a candura original,
li com cada vez mais desenganada luz
o teu silêncio.
Assim, a princípio achava-o cúmplice,
quente e generoso. Um silêncio
de quem concorda e apoia,
e não acha necessário proclamá-lo.
Com a continuação,
começou-me a parecer o teu silêncio
já só condescendência. O silêncio
de alguém que se dispensa de mostrar
desacordo por simples cortesia.
In “As Têmporas da Cinza”
Editora Cotovia
A. M. Pires Cabral
(N.1941)
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