QUANDO OS DIAS SÃO IGUAIS E TRISTES
Quando os dias são iguais e tristes
gosto de beber
para galgar a distância
que me separa do ser.
As veias levam o álcool
e o álcool embebeda-se no tanto que percorre.
Sabendo no corpo os caminhos todos
mistura-lhes o fora
dos quartos
das salas
da paisagem casa
da atmosfera inteira.
Fico tonta de universo,
e vibro e julgo
que os dias já não são iguais nem tristes.
1.I.1970
In “Obra Poética 1957-1971”
INCM - Imprensa Nacional-Casa da Moeda
Salette Tavares
(1922-1994)
DRAGÃO
a Alcanhões, a minha terra
Nasci guardado por um dragão antigo.
Pedi-lhe que me ensinasse a extrair
todas as profecias do futuro.
E ele falou-me da seiva e das raízes,
legado das oliveiras que herdei,
e de como o azeite nunca cessou nas candeias
ardendo no altar da minha casa.
Perguntei-lhe se me cresceriam asas
para seguir o curso dos rios
e segurar a eternidade das estrelas.
Mas não podendo voar
nem cuspir o fogo que me ardia no peito
bebi da água de todas as fontes
para tocar a mesma luz que há nos astros.
In “Ascensão da água”
Editora Labirinto
Samuel F. Pimenta
(N.1990)
SÓ UM RUMOR
acredita em mim: é só um rumor:
não sei escrever o vento, nem como se nasce outra vez.
nunca soube como se tece no piano a face vazia do tempo.
por favor, não perguntes:
pois eu não sei como germina um poema,
nem quantos dias cabem no teu rosto.
E como se conjuga a cidade e o adeus?
Perguntas, mas eu não sei o que é a morte.
In “Espera Vigilante”
Edições Humus
Ricardo Gil Soeiro
(N.1981)
TARDE QUIETA DE DOMINGO
Tarde quieta de domingo,
quieta, quieta...
Joga ao ar a bola preta
o menino.
Só a música
inquieta um pouco...
(o perpassar talvez do espírito louco
do Músico-Poeta...)
E, na varanda,
as rosas brancas
pendem sobre a estrada.
– Quem acendeu as luzes
em pleno dia?
Tanto de quase nada!...
In “Ainda”
Edições Presença
Saúl Dias **
(1902-1983)
POVOAMENTO
No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera
In "Aquele grande rio Eufrates"
Assírio & Alvim
Ruy Belo
(1933-1978)
INFINITA CONVERSA COM AS NUVENS
Antes de partir para as montanhas espalharei os
poemas pelo chão como quem abre um mapa pela
última vez. Como quem relembra o extenso areal dos
dias, a incansável rotina dos comboios, a infinita
conversa com as nuvens.
Quando partir para as montanhas deixarei os poemas
pelo chão como quem renega todos os mapas. Levarei
apenas o meu corpo para que ele me fale do teu.
In “O Nome das Árvores”
Poética Edições
Rui Miguel Fragas **
** Pseudónimo de Rui Féteira
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