MORANGOS
No começo do amor, quando as cidades
nos eram desconhecidas, de que nos serviria
a certeza da morte se podíamos correr
de ponta a ponta a veia eléctrica da noite
e acabar na praia a comer morangos
ao amanhecer? Diziam-nos que tínhamos
a vida inteira pela frente. Mas, amigos,
como pudemos pensar que seria assim
para sempre? Ou que a música e o desejo
nos conduziriam de estação em estação
até ao pleno futuro que julgávamos
merecer? Afinal, o futuro era isto.
Não estamos mais sábios, não temos
melhores razões. Na viagem necessária
para o escuro, o amor é um passageiro
ocasional e difícil. E a partir de certa altura
todas as cidades se parecem.
In “Longe da Aldeia”
Editora Aveno
Rui Pires Cabral
(N.1967)
PUREZA
Vem toda nua
ou, se o não consentir o teu pudor,
vestida de vermelho.
Teus tules brancos,
o azul, que desmaia,
de tuas sedas finas,
guarda-os p’ra outros dias.
P’ra quando, Amor!, teu ventre, já redondo,
merecer a pureza do azul...
In “Cabo da Boa Esperança”
Editora Ática
Sebastião da Gama
(1924-1952)
O OUTONO…
Soltam-se as folhas, que levadas pela brisa
Já atapetam lentamente todo o chão
Sinal seguro de que se foi o Verão
Espera-se a chuva, que este solo bem precisa
É o Outono a chegar a toda a brida
Já suas águas nem ao longe se divisam
Minguam os dias mas o que as terras precisam
São as chuvadas, ou a safra está perdida
Vai-se despindo o arvoredo da folhagem
E os riachos lentamente vão secando
As trovoadas que por vezes vão rondando
Depressa passam e seguem sua viagem
O tempo esfria, o sol deita-se mais cedo
Toldam os céus as névoas de madrugada
As andorinhas vão partindo em debandada
Vai-se esbatendo o descanso e o folguedo
Volta a rotina, a balbúrdia costumeira
Pra trás ficaram breves tempos de ripanço
Talvez pró ano haja uns dias de descanso
Está de volta a labuta e a canseira
É essa a vida difícil de quem trabalha
Cuja função nunca devem descurar
Há tanta gente à espreita desse lugar
Que preservá-lo é a mais dura batalha
Foi-se o Verão! Com ele partiram sonhos
Voltam os dias mais sombrios, mais cinzentos
Não há mais tempo pra lamúrias, pra lamentos
Nem pra esbanjar com pensamentos tristonhos
In “Alentejano e Poeta"
Augusto Molarinho de Andrade
(N.1948)
FONS VITÆ
Dá o sangue mas está suspenso no ar:
venceu a força da gravidade
e ali prossegue, figura de martírio,
sangrando para a vasca. Personagens
em torno dela ajoelham. Não é
para menos: trata-se do Cristo
Redentor. O sangue faz ajoelhar
os poderosos que há séculos
fazem correr sangue alheio
em nome desse Cristo − prática normal
das religiões. Mistério é o modo como
veio sangrar a esta cidade, nas paredes
da Misericórdia. Mistério a que faltam
referências decerto condutoras ao ouro
brasileiro e a papéis perdidos
de doadores soterrados nos desvãos
anónimos da história, um puzzle
a que sempre faltam peças. Ali está ele,
fonte inesgotável na sua cruz,
fonte de vida segundo o título.
No fundo há uma paisagem, mas o Cristo
volta as costas à flora flamenga:
apenas sangra, não se sabe o que vê
suspenso sobre o mundo que não é o seu.
O rei que olha e medita o significado
daquele sangue (se é que é o rei)
irá erguer-se e finalmente assinar
o decreto da Santa Inquisição. Sairá
daquele quadro cheio de dúvidas, mas
o sangue continuará a correr, agora
fonte de morte − mas benzida
pelo selo real do Venturoso.
In “Entre Mim e a Minha Morte Há Ainda um Copo de Crepúsculo”
Campo das Letras - 2006
Egito Gonçalves
(1920 -2001)
À MORTE DUM POETA
Sem ternura
sem pureza
não grito a tua morte apenas violenta
a tua morte apenas violenta ecoa em mim
e já não existo senão escuro e tremo
um pobre corpo atemorizado um coração de vazio
e a vergonha de não ter lágrimas e a ignorância
Estou mais razo do que tu, poeta, a uma mesa de café
mais morto mais falso mais nojento do que tu
e disfarço o silêncio e naturalmente continuo na vida
e rio e fujo e não consigo enterrar-te
não consigo chorar-te
porque o horror violento me desenha o corpo
Tiraste-me a vida e quase te odeio poeta
a minha morte teria sido muito mais insignificante
a minha morte teria sido mais justa
É esta ideia que te não perdoo, esta ideia horrorosa que bebo
esta ideia de que não mereço a tua morte
porque não mereci a tua vida
O que eu odeio é não te ter amado
o que eu odeio é a minha pobre vida e a minha culpa
o que eu odeio é ter ficado
Deixaste-me a responsabilidade tremenda de sobreviver-te
e por isso te amo e por isso descansa, poeta!
11 de Fevereiro de 1952
In “ÁRVORE ”
Folhas de Poesia
Direcção e Edição de António Luís Moita, António Ramos Rosa,
José Terra, Luís Amaro, Raul de Carvalho
1.º Fascículo - Inverno de 1951-52
Pág. 94
António Ramos Rosa
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