Domingo, 25 de Fevereiro de 2024

Recordando... Rui Pires Cabral

MORANGOS

 

No começo do amor, quando as cidades

nos eram desconhecidas, de que nos serviria

a certeza da morte se podíamos correr

de ponta a ponta a veia eléctrica da noite

e acabar na praia a comer morangos

ao amanhecer? Diziam-nos que tínhamos

 

a vida inteira pela frente. Mas, amigos,

como pudemos pensar que seria assim

para sempre? Ou que a música e o desejo

nos conduziriam de estação em estação

até ao pleno futuro que julgávamos

 

merecer? Afinal, o futuro era isto.

Não estamos mais sábios, não temos

melhores razões. Na viagem necessária

para o escuro, o amor é um passageiro

ocasional e difícil. E a partir de certa altura

todas as cidades se parecem.

 

In “Longe da Aldeia”

Editora Aveno

 

Rui Pires Cabral

(N.1967)

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Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2024

Recordando... Sebastião da Gama

PUREZA

 

Vem toda nua

ou, se o não consentir o teu pudor,

vestida de vermelho.

 

Teus tules brancos,

o azul, que desmaia,

de tuas sedas finas,

guarda-os p’ra outros dias.

 

P’ra quando, Amor!, teu ventre, já redondo,

merecer a pureza do azul...

 

In “Cabo da Boa Esperança”

Editora Ática

 

Sebastião da Gama

(1924-1952)

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Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2024

Recordando... Augusto Molarinho de Andrade

O OUTONO…

 

Soltam-se as folhas, que levadas pela brisa

Já atapetam lentamente todo o chão

Sinal seguro de que se foi o Verão

Espera-se a chuva, que este solo bem precisa

 

É o Outono a chegar a toda a brida

Já suas águas nem ao longe se divisam

Minguam os dias mas o que as terras precisam

São as chuvadas, ou a safra está perdida

 

Vai-se despindo o arvoredo da folhagem

E os riachos lentamente vão secando

As trovoadas que por vezes vão rondando

Depressa passam e seguem sua viagem

 

O tempo esfria, o sol deita-se mais cedo

Toldam os céus as névoas de madrugada

As andorinhas vão partindo em debandada

Vai-se esbatendo o descanso e o folguedo

 

Volta a rotina, a balbúrdia costumeira

Pra trás ficaram breves tempos de ripanço

Talvez pró ano haja uns dias de descanso

Está de volta a labuta e a canseira

 

É essa a vida difícil de quem trabalha

Cuja função nunca devem descurar

Há tanta gente à espreita desse lugar

Que preservá-lo é a mais dura batalha

 

Foi-se o Verão! Com ele partiram sonhos

Voltam os dias mais sombrios, mais cinzentos

Não há mais tempo pra lamúrias, pra lamentos

Nem pra esbanjar com pensamentos tristonhos

 

In “Alentejano e Poeta"

 

Augusto Molarinho de Andrade

(N.1948)

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Quarta-feira, 7 de Fevereiro de 2024

Recordando... Egito Gonçalves

FONS VITÆ

 

Dá o sangue mas está suspenso no ar:

venceu a força da gravidade

e ali prossegue, figura de martírio,

sangrando para a vasca. Personagens

em torno dela ajoelham. Não é

para menos: trata-se do Cristo

Redentor. O sangue faz ajoelhar

os poderosos que há séculos

fazem correr sangue alheio

em nome desse Cristo − prática normal

das religiões. Mistério é o modo como

veio sangrar a esta cidade, nas paredes

da Misericórdia. Mistério a que faltam

referências decerto condutoras ao ouro

brasileiro e a papéis perdidos

de doadores soterrados nos desvãos

anónimos da história, um puzzle

a que sempre faltam peças. Ali está ele,

fonte inesgotável na sua cruz,

fonte de vida segundo o título.

No fundo há uma paisagem, mas o Cristo

volta as costas à flora flamenga:

apenas sangra, não se sabe o que vê

suspenso sobre o mundo que não é o seu.

O rei que olha e medita o significado

daquele sangue (se é que é o rei)

irá erguer-se e finalmente assinar

o decreto da Santa Inquisição. Sairá

daquele quadro cheio de dúvidas, mas

o sangue continuará a correr, agora

fonte de morte − mas benzida

pelo selo real do Venturoso.

 

In “Entre Mim e a Minha Morte Há Ainda um Copo de Crepúsculo”

Campo das Letras - 2006

 

Egito Gonçalves

(1920 -2001)

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Quinta-feira, 1 de Fevereiro de 2024

Recordando... António Ramos Rosa

À MORTE DUM POETA

 

Sem ternura

sem pureza

não grito a tua morte apenas violenta

a tua morte apenas violenta ecoa em mim

e já não existo senão escuro e tremo

um pobre corpo atemorizado um coração de vazio

e a vergonha de não ter lágrimas e a ignorância

Estou mais razo do que tu, poeta, a uma mesa de café

mais morto mais falso mais nojento do que tu

e disfarço o silêncio e naturalmente continuo na vida

e rio e fujo e não consigo enterrar-te

não consigo chorar-te

porque o horror violento me desenha o corpo

Tiraste-me a vida e quase te odeio poeta

a minha morte teria sido muito mais insignificante

a minha morte teria sido mais justa

É esta ideia que te não perdoo, esta ideia horrorosa que bebo

esta ideia de que não mereço a tua morte

porque não mereci a tua vida

O que eu odeio é não te ter amado

o que eu odeio é a minha pobre vida e a minha culpa

o que eu odeio é ter ficado

Deixaste-me a responsabilidade tremenda de sobreviver-te

e por isso te amo e por isso descansa, poeta!

 

11 de Fevereiro de 1952

 

In “ÁRVORE ”

Folhas de Poesia

Direcção e Edição de António Luís Moita, António Ramos Rosa,

José Terra, Luís Amaro, Raul de Carvalho

1.º Fascículo - Inverno de 1951-52

Pág. 94

 

António Ramos Rosa

(1924-2013)

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