Domingo, 30 de Abril de 2023

Recordando... Lília da Fonseca

Ó TU, QUE VENS DO FUNDO DA NOITE!

 

Quis gritar

e o grito morreu numa floresta de sonho.

 

Quis cantar

e a voz ficou-se no espaço

onde um pássaro voava

(não era azul, nem cinzento, nem verde)

era da cor do pensamento

que é mais vasto do que o espaço,

que é mais vasto do que tudo.

 

Quis chorar

e nas montanhas

das pedras nasceram homens, dos homens nasceram uivos...

e sem gritos, sem Cantos, sem choros

eu encontrei-te, o tu,

que vens do fundo da noite...

 

In “Poemas da Hora Presente”

 

Lília da Fonseca

(1916-1991)

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Terça-feira, 25 de Abril de 2023

Recordando... Alexandre O’Neill

AUTO-RETRATO

 

O’Neill (Alexandre), moreno português,

cabelo asa de corvo; da angústia da cara,

nariguete que sobrepuja de través

a ferida desdenhosa e não cicatrizada.

Se a visagem de tal sujeito é o que vês

(omita-se o olho triste e a testa iluminada)

o retrato moral também tem os seus quês

(aqui, uma pequena frase censurada...)

No amor? No amor crê (ou não fosse ele O’Neill!)

e tem a veleidade de o saber fazer

(pois amor não há feito) das maneiras mil

que são a semovente estátua do prazer.

Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se

do que neste soneto sobre si mesmo disse…

 

In “Poesias Completas”

Assírio & Alvim

 

Alexandre O’Neill

(1924-1986)

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Segunda-feira, 17 de Abril de 2023

Recordando... Camilo Pessanha

VIOLA CHINESA

 

Ao longo da viola morosa
Vai adormecendo a parlenda
Sem que, amadornado, eu atenda
A lenga-lenga fastidiosa.

 

Sem que o meu coração se prenda,
Enquanto, nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a parlenda.

 

Mas que cicatriz melindrosa
Há nele, que essa viola ofenda
E faz que as asitas distenda
Numa agitação dolorosa?

 

Ao longo da viola, morosa…

Clepsidra

 

In ”Ler Por Gosto”

Areal Editores

 

Camilo Pessanha

(1867-1926)

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Quinta-feira, 13 de Abril de 2023

Recordando... Manuel Amendoeira

CONVÍVIO TRANSMONTANO

 

Há dias, numa quinta, alegre e fresca,

Aconteceu uma coisa simplesmente bela:

Celebrou-se um aniversário em tom de festa

E houve missa celebrada na capela.

 

Apareceram joviais e prazenteiros,

Atravessando alguns, até o velho Marão,

Envergando os seus fatos domingueiros,

Trazendo esperança e fé no coração.

 

Era um grupo onde o estrato social,

Nesse dia, ficou pendurado no armário.

Pois todos comungamos o mesmo ideal,

Vivendo intensamente aquele aniversário.

 

E assim se fez. O bom repasto serviu,

Para sublimar este encontro anual.

Afinaram-se as gargantas, pois se ouviu,

Felizes transmontanos a cantar.

 

(Buscando o Amor)

 

In “União dos Escritores e Artistas

Transmontanos e Altodurienses – UNEARTA”

Revista mensal - N.º 2 - Ano 1 - Janeiro 2002

 

Manuel Amendoeira

(N.1940)

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Sexta-feira, 7 de Abril de 2023

Recordando... Judith Teixeira **

O MEU CHINEZ

 

Nos olhos de sêda

traçados em viez,

tem um ar tão sensual

o meu Chinez…

 

Vive sobre uma almofada

de setim bordada,

pintado a côres.

 

Às vezes

numa ansia inquieta

que eu não mitigo,

e que me domina,

num sonho de poeta

ou de heroina,

fujo levando

o meu Chinez comigo!

 

E lá vamos!

Nem eu sei

para que alcovas orientais,

em que paizes distantes,

realisar

as horas sensuaes,

as horas delirantes

com que eu sonhei…

. . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Eu e o meu Chinez

temos fugido tanta, tanta vez!

 

In “Contemporanea”

Ano I – Volume II – Nº.6 - Ano 1922

Pág. 128

 

Mantém a grafia original

 

Judith Teixeira **

(1880-1959)

 

** Judite dos Reis Ramos Teixeira

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Sábado, 1 de Abril de 2023

Recordando... António Maria Eusébio

A QUINTA DA PANASQUEIRA

 

Mote

 

Fui apalpar as gamboas

que a quinteira tem na quinta,

já tem marmelos maduros,

o seu bastardo já pinta.

 

Glosa

 

Sou mestre na agricultura,

meu saber ninguém disputa,

gosto de apalpar a fruta

quando está quase madura…

Gosto do que tem doçura;

quero e gosto das mais pessoas

para apalpar coisas boas

da quinta da Panasqueira,

com licença da quinteira,

fui apalpar as gamboas.

 

Por toda a parte que andei

dei cambalhotas e saltos,

depois de apalpar pêlos altos

pêlos baixos apalpei.

Por toda a parte encontrei

fruta branca e fruta tinta;

para que a dona não se sinta

nunca direi mal da boda,

apalpei a fruta toda

que a quinteira tem na quinta.

 

Neste tão lindo arvoredo

não há fruta como a sua,

foi criada em boa lua

para amadurecer mais cedo.

Menina, não tenha medo

que os seus frutos estão seguros,

ou sejam moles ou duros

todos a têm em estima,

na sua quinta de cima

já tem marmelos maduros.

 

Tem uma árvore escondida

Num regato ao pé de um poço,

que dá fruta sem caroço

chamada gostos da vida.

Dessa fruta pretendida

que a menina tem na quinta,

se acaso tem uva tinta

a menina dê-me um cacho,

que na sua quinta de baixo

o seu bastardo já pinta.

 

In “Antologia de Poesia Erótica e Satírica Portuguesa”

Selecção, prefácio e notas de Natália Correia

5ª Edição - 2008

Antígona - Frenesi

 

António Maria Eusébio

(1819 – 1911)

 

Também conhecido por “Calafate” ou o “Cantador de Setúbal”

 

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