Terça-feira, 31 de Janeiro de 2023

Recordando... Almeida Garrett

A BELA INFANTA

 

Estava a bela infanta

No seu jardim assentada,

Com o pente de oiro fino

Seus cabelos penteava

Deitou os olhos ao mar

Viu vir uma nobre armada;

Capitão que nela vinha,

Muito bem que a governava.

- "Dize-me, ó capitão

Dessa tua nobre armada,

Se encontraste meu marido

Na terra que Deus pisava."

- "Anda tanto cavaleiro

Naquela terra sagrada...

Dize-me tu, ó senhora

As senhas que ele levava."

- "Levava cavalo branco,

Selim de prata doirada;

Na ponta da sua lança

A cruz de Cristo levava."

- "Pelos sinais que me deste

Lá o vi numa estacada

Morrer morte de valente:

Eu sua morte vingava."

- "Ai triste de mim viúva,

Ai triste de mim coitada!

De três filhinhas que tenho,

Sem nenhuma ser casada!..."

- "Que darias tu, senhora,

A quem no trouxera aqui?"

- "Dera-lhe oiro e prata fina

Quanta riqueza há por í."

- "Não quero oiro nem prata,

Não nos quero para mi':

Que darias mais, senhora,

A quem no trouxera aqui?"

- "De três moinhos que tenho,

Todos os três tos dera a ti;

Um mói o cravo e a canela,

Outro mói do gerzeli:

Rica farinha que fazem!

Tomara-os el-rei para si."

- "Os teus moinhos não quero,

Não os quero para mi:

Que darias mais, senhora,

A quem to trouxera aqui?"

- "As telhas do meu telhado,

Que são de oiro e marfim."

- "As telhas do teu telhado

Não nas quero para mi":

Que darias mais, senhora,

A quem no trouxera aqui?"

- "De três filhas que eu tenho

Todas três te dera a ti:

Uma para te calçar,

Outra para te vestir

A mais formosa de todas

Para contigo dormir."

- "As tuas filhas, infanta,

Não são damas para mi':

Dá-me outra coisa, senhora,

Se queres que o traga aqui."

- "Não tenho mais que te dar.

Nem tu mais que me pedir."

- "Tudo não, senhora minha.

Que inda não te deste a ti."

- "Cavaleiro que tal pede,

Que tão vilão é de si,

Por meus vilãos arrastado

O farei andar por aí

Ao rabo do meu cavalo

À volta do meu jardim.

Vassalos, os meus vassalos,

Acudi-me agora aqui!"

- "Este anel de sete pedras

Que eu contigo reparti...

Que é dela a outra metade?

Pois a minha, vê-la aí!"

- "Tantos anos que chorei,

Tantos sustos que tremi!...

Deus te perdoe, marido,

Que me ias matando aqui."

 

In “Romanceiro e Cancioneiro Geral”

 

Almeida Garrett

(1799-1854)

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Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2023

Recordando... Ruy Belo

OS ESTIVADORES

 

Só eles suam mas só eles sabem

o preço de estar vivo sobre a terra

Só nessas mãos enormes é que cabem

as coisas mais reais que a vida encerra

 

Outros rirão e outros sonharão

podem outros roubar-lhes a alegria

mas a um deles é que chamo irmão

na vida que em seus gestos principia

 

Onde outrora houve o deus e houve a ninfa

eles são a moderna divindade

e o que antes era pura linfa

é o que sobra agora da cidade

 

Vede como alheios a tudo o resto

compram com o suor a claridade

e rasgam com a decisão do gesto

o muro oposto pela gravidade

 

Ode marítima é que chamo à ode

escrita ali sobre a pedra do cais

A natureza é certo muito pode

mas um homem de pé pode bem mais

 

In “Os Estivadores” 1974

 

Ruy Belo

(1933-1978)

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Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2023

Recordando... António Gedeão **

A UM TI QUE EU INVENTEI

 

Pensar em ti é coisa delicada.

É um diluir de tinta espessa e farta

e o passá-la em finíssima aguada

com um pincel de marta.

 

Um pesar grãos de nada em mínima balança,

um armar de arames cauteloso e atento,

um proteger a chama contra o vento,

pentear cabelinhos de criança.

 

Um desembaraçar de linhas de costura,

um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,

um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

 

Penso em ti com tamanha ternura

como se fosses vidro ou película de loiça

que apenas com o pensar te pudesses partir.

 

[Máquina de Fogo, 1961]

 

In “Poesia Completa - António Gedeão”

Edições João Sá da Costa, Lda.

 

António Gedeão **

(1906-1997)

 

** Pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho

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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2023

Recordando... António de Navarro

POEMA

 

Na tarde,

Aquela flor...

Na tarde,

Aquele mendigo...

Na tarde a sombra das minhas mãos

– Esperando que religião

E que abrigo?!

Na tarde,

A flor cinerária da tarde

A desfolhar-se na vida que me arde.

...Na tarde,

Aquele mendigo...

 

In “Ave de Silêncio”

Editora Portugália

 

António de Navarro

(1902-1980)

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Sábado, 7 de Janeiro de 2023

Recordando... Rosa Lobato de Faria

E DE NOVO A ARMADILHA DOS ABRAÇOS

 

E de novo a armadilha dos abraços.

E de novo o enredo das delícias.

O rouco da garganta, os pés descalços

a pele alucinada de carícias.

 

As preces, os segredos, as risadas

no altar esplendoroso das ofertas.

De novo beijo a beijo as madrugadas

de novo seio a seio as descobertas.

 

Alcandorada no teu corpo imenso

teço um colar de gritos e silêncios

a ecoar no som dos precipícios.

 

E tudo o que me dás eu te devolvo.

E fazemos de novo, sempre novo

o amor total dos deuses e dos bichos.

 

In "Poemas escolhidos e dispersos"

Roma Editora

 

Rosa Lobato de Faria

(1932-2010)

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Domingo, 1 de Janeiro de 2023

Recordando... Reinaldo Ferreira

VISITAÇÃO

 

Que é do anjo das asas rutilantes

Com que lutou Jacob, na madrugada?

Que é desse outro, de falas sussurrantes,

Que surgiu a Maria, a fecundada,

 

Tão casta e sem pecado como dantes?

Que é da estrela, pela mão de Deus lançada

A guiar os incertos caminhantes

Ao colmo da cabana consagrada?

 

Onde estão os sinais que Deus envia?

Onde estão, que os procuro noite e dia

Sem nunca ver cumprido o meu desejo?

 

Não os vejo e não sei se eu, que os procuro,

Os não encontro porque sou impuro,

Ou sou impuro porque os não vejo.

 

(Livro III)

 

In “Poetas de Hoje”

Portugália Editora

 

Reinaldo Ferreira

(1922-1959)

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