Sexta-feira, 7 de Outubro de 2022

Recordando... Teixeira de Pascoaes **

ELEGIA DO AMOR

I

 

Lembras-te, meu amor,

Das tardes outonais,

Em que íamos os dois,

Sozinhos, passear,

Para fora do povo

Alegre e dos casais,

Onde só Deus pudesse

Ouvir-nos conversar?

Tu levavas, na mão,

Um lírio enamorado,

E davas-me o teu braço;

E eu, triste, meditava

Na vida, em Deus, em ti…

E, além, o sol doirado

Morria, conhecendo

A noite que deixava.

Harmonias astrais

Beijavam teus ouvidos;

Um crepúsculo terno

E doce diluía,

Na sombra, o teu perfil

E os montes doloridos…

Erravam, pelo Azul,

Canções do fim do dia.

Canções que, de tão longe,

O vento vagabundo

Trazia, na memória…

Assim o que partiu

Em frágil caravela,

E andou por todo o mundo,

Traz, no seu coração,

A imagem do que viu.

Olhavas para mim,

Às vezes, distraída,

Como quem olha o mar,

À tarde, dos rochedos…

E eu ficava a sonhar,

Qual névoa adormecida,

Quando o vento também

Dorme nos arvoredos.

Olhavas para mim…

Meu corpo rude e bruto

Vibrava, como a onda

A alar-se em nevoeiro.

Olhavas, descuidada

E triste… Ainda hoje escuto

A música ideal

Do teu olhar primeiro!

Ouço bem tua voz,

Vejo melhor teu rosto

No silêncio sem fim,

Na escuridão completa!

Ouço-te em minha dor,

Ouço-te em meu desgosto

E na minha esperança

Eterna de poeta!

O sol morria, ao longe;

E a sombra da tristeza

Velava, com amor,

Nossas doridas frontes.

Hora em que a flor medita

E a pedra chora e reza,

E desmaiam de mágoa

As cristalinas fontes.

Hora santa e perfeita,

Em que íamos, sozinhos,

Felizes, através

Da aldeia muda e calma,

Mãos dadas, a sonhar,

Ao longo dos caminhos…

Tudo, em volta de nós,

Tinha um aspecto de alma.

Tudo era sentimento,

Amor e piedade.

A folha que tombava

Era alma que subia…

E, sob os nossos pés,

A terra era saudade,

A Pedra comoção

E o pó melancolia.

Falavas de uma estrela

E deste bosque em flor;

Dos ceguinhos sem pão,

Dos pobres sem um manto.

Em cada tua palavra,

Havia etérea dor;

Por isso, a tua voz

Me impressionava tanto!

E punha-me a cismar

Que eras tão boa e pura,

Que, muito em breve – sim! -,

Te chamaria o céu!

E soluçava, ao ver-te

Alguma sombra escura,

Na fronte, que o luar

Cobria, como um véu.

A tua palidez

Que medo me causava!

Teu corpo era tão fino

E leve (oh meu desgosto!)

Que eu tremia, ao sentir

O vento que passava!

Caía-me, na alma,

A neve do teu rosto.

Como eu ficava mudo

E triste, sobre a terra!

E uma vez, quando a noite

Amortalhava a aldeia,

Tu gritaste, de susto,

Olhando para a serra:

- Que incêndio! – E eu, a rir,

Disse-te: - É a lua cheia!...

E sorriste também

Do teu engano. A lua

Ergueu a branca fronte,

Acima dos pinhais,

Tão ébria de esplendor,

Tão casta e irmã da tua,

Que eu beijei, sem querer,

Seus raios virginais.

E a lua, para nós,

Os braços estendeu.

Uniu-nos num abraço,

Espiritual, profundo;

E levou-nos assim,

Com ela, até ao céu…

Mas, ai, tu não voltaste

E eu regressei ao mundo.

 

II

 

Um raio de luar,

Entrando, de improviso

No meu quarto sombrio,

Onde medito, a sós,

Deixa, a tremer, no ar,

Um pálido sorriso,

Um murmúrio de luz

Que lembra a tua voz.

O Outono, que derrama

Ideal melancolia

Nas almas sem amor,

Nos troncos sem folhagem,

Deixa vibrar, em mim,

Saudosa melodia,

Dolorida canção,

Que lembra a tua imagem.

A noite, que escurece

Os vales e os outeiros,

E que acende, num bosque,

A voz do rouxinol

E a estrela que protege

E guia os pegureiros;

A lágrima do céu

Ao ver morrer o sol,

Acorda, no meu peito,

Infinda e etérea dor,

Que à memória me traz

A luz do teu olhar.

Tudo de ti me fala,

 Ó meu longínquo amor:

As árvores, a névoa,

Os rouxinóis e o mar.

Se passo por um lírio,

Às vezes, distraído,

Chama por mim, dizendo:

“Oh! Não te esqueças dela!”

Diz-mo também, chorando

O vento dolorido.

Diz-mo a fonte, a cantar,

Diz-mo, a brilhar, a estrela.

E vejo, em toda a luz,

Teus olhos a fulgir.

Como adivinho, em tudo,

A alma que perdi!

Não encontro uma flor,

Sem o teu nome ouvir.

Não posso olhar o céu,

Sem me lembrar de ti!

Por isso, eu amo o pobre,

O triste e a Natureza,

A mãe da humana dor,

Da dor de Deus a filha.

Meu coração, ao pé Dum pobrezinho, reza;

Canta, ao lado dum ninho,

Ao pé da estrela, brilha.

O meu amor por ti,

Meu bem, minha saudade,

Ampliou-se até Deus,

Os astros alcançou.

Beijo o rochedo e a flor,

A noite e a claridade.

São estes, sobre o mundo,

Os beijos que te dou.

Hás-de senti-los, sim,

Doce mulher de outrora.

Ó roxo lírio de hoje,

Ó nuvem actual!

Como dantes teu rosto,

A rosa ainda hoje cora;

Beijo-te, sim, beijando

A rosa virginal.

Teu espectro divaga,

Ao longo dos espaços.

Teu amor, feito luz,

Desce do Firmamento.

Se abraço um verde tronco,

Eu sinto, entre os meus braços,

Teu corpo estremecer,

Como uma flor, ao vento.

Soluça a tua dor

Nas infinitas mágoas,

Que, no fumo da tarde,

Eu vejo, além, subir.

E paira a tua voz

No marulhar das águas,

No murmúrio que sai

Das pétalas a abrir.

Se os lábios vou molhar

Nas ondas duma fonte,

Queimam meu coração

Tuas lágrimas salgadas.

E, quando acaricia

O vento a minha fronte

Eu bem sinto, sobre ela,

As tuas mãos sagradas.

Quando a lua, no Outono,

Envolta em luz funérea,

Morta, vai a boiar

Nas águas do Infinito,

Doira meu frio rosto

A palidez etérea,

Que dantes emanava

O teu perfil bendito.

Quando, em manhãs d`Abril,

Acordo, de repente,

E vejo, no meu quarto,

O sol entrar, sorrindo,

Julgo ver, ante mim,

Teu corpo resplendente,

Tua trança de luz,

Teu gesto suave e lindo.

Descubro-te, mulher,

Na Natureza inteira,

Porque entendo a floresta,

A névoa, o céu doirado,

A estrela a arder, no Azul,

A lenha, na lareira

E o lírio que, na cruz

Do outono, está pregado.

Falas comigo, sim,

Da dor, do bem, de Deus.

Repartes o meu pão,

Amor, pelos ceguinhos.

E pelas solidões

Os pobres versos meus,

Como os pobres que vão,

A orar, pelos caminhos.

És a minha ternura,

A minha piedade,

Pois tudo me comove!

O zéfiro mais leve

Acende, no meu peito,

Infinda claridade;

E a brancura do lírio

Enche meu ser de neve.

Todo eu fico a cismar

Na louca voz do vento,

Na atitude serena

E estranha duma serra;

No delírio do mar,

Na paz do Firmamento

E na nuvem, que estende

As asas, sobre a terra.

Todo eu fico a cismar,

Assim como que esquecido,

Ante a flor virginal

E o sol enamorado.

Ante o luar que nasce,

Ao longe, dolorido,

Dando às cousas um ar

Tão triste e macerado.

Todo eu medito e cismo.

Um vago e etéreo laço

Prende-me ao teu imendo

E livre coração,

Que abrange o mundo inteiro

E ocupa todo o espaço,

E que vai povoar

A minha solidão.

Por isso, eu vivo sempre,

Em doce companhia,

Com o pobre que pede

E a estrela que fulgura;

E, assim, a minha alma,

Igual à luz do dia

Derrama-se, no céu,

Em ondas de ternura.

Sou como a chuva e o vento

E a sombra duma cruz!

Lira, que a mais suave

Aragem faz vibrar.

Água que, ao luar brando,

Em nuvens se traduz;

Fruto que amadurece,

À luz dum claro olhar.

Pedra que um beijo funde

E místico vapor,

Que um hálito condensa

Em pura gota de água.

Sou aroma que um ai

Encarna em triste flor;

Riso que muda em choro

A mais pequena mágoa.

Vivo a vida infinita,

Eterna, esplendorosa.

Sou neblina, sou ave,

Estrela, Azul sem fim,

Só porque, um dia, tu,

Mulher misteriosa,

Por acaso, talvez,

Olhaste para mim.

 

In “Poesia de Amor”

Antologia Portuguesa  

Selecção e prefácio de José Régio e Alberto de Serpa,

Livraria Tavares Martins - Porto - 1945

 

Teixeira de Pascoaes **

(1877-1952)

 

** Pseudónimo de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos

 

 

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Recordando... António Gancho

LITERATURA

 

De literalmente aturar

atura a minha literatura

estar entre toda a Literatura que há até hoje e houve

e literatura nenhuma.

Se é surrealista ou não em suma

não sei responder.

Se ela é existencialista

por exemplo que sei eu

entre os franceses por exemplo

dos franceses

André Frénaud

e os esquizofrénicos de Paris

do frio

o frio

não me deixa se calhar ser.

Que eu tanto canto

a existência do frio como do calor

a existência do Verão e do Sol

como da chuva e do Inverno

eu canto qualquer coisa

eterno provedor da minha república

só interior de cantar.

Senão, ó bela, é instaurarem-me

um processo que não dá para o petróleo

cole-o o tempo ao ramo

o amo ao cavalo

que exprimo e falo de mim primeiro

primeiro de mim

depois e só depois dos outros sim

e entre os dois enfim

ganhar qualquer coisinha

para a espinha que dói muito a escrever

senão é ver.

Beber umas coisas

e se ela noutra arte pousar

e cá isso de surrealista ou existencialista

não o sei ainda que a mim não mo disseram.

Só considerar isso das duas coisas.

À parte isso falo de existir

ganhar uns carcanhóis

com a arte de escribir

comer uns caracóis com o dinheiro arranjado

fumar uns cigarróis

beber cá umas coisas

e de artes só há duas.

Sub-reptilmente

ou existencialmente ainda continuar.

Existentivamente.

Comer.

Beber.

Escrever.

Mais umas mulheres nuas.

 

In “O Ar da Manhã”

Assírio & Alvim

 

António Gancho

(1940-2006)

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