Domingo, 31 de Julho de 2022

Recordando... Cristovam Pavia **

REQUIEM

 

A tarde declina com uma luz ténue.

Estou grave e calmo.

Não preciso de ninguém

Nem a luz da tarde me comove: entendo-a.

Até as imagens me são inúteis porque contemplo tudo.

Os ventos rodam, rodam, gemem e cantam

E voltam. São os mesmos:

Como os conheço desde a infância!

E a terra húmida das tapadas da quinta ...

O estrume da égua morta quando eu tinha seis anos

Gira transparente nesta brisa fria ...

(Na noite gotas de orvalho sumiam-se sob as folhas das ervas ... )

Oh, não há solidão nas neblinas de inverno

Pela erma planície...

E foi engano julgar-te morto e tão só nas tapadas em silêncio ...

Agora sei que vives mais

Porque começo a sentir a tua presença, grande como o silêncio ...

Já me não vem a vaga tristeza do teu chamamento longínquo.

Já me confundo contigo.

 

In “ÁRVORE ”

Folhas de Poesia

Direcção e Edição de António Luís Moita, António Ramos Rosa,

José Terra, Luís Amaro, Raul de Carvalho

1.º Fascículo - Outono de 1951

Pág. 18

 

Cristovam Pavia **

(1933-1968)

 

** Pseudónimo de Francisco António Lahmeyer Flores

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Segunda-feira, 25 de Julho de 2022

Recordando... António Feliciano de Castilho

A FONTE DOS AMORES EM COIMBRA

 

Fonte, mais pura que o lustroso vidro,

mais que o vivo cristal que as rochas veste,

ó de inocentes míseros amores

       outr'ora testemunha;

 

Com que verso, que iguale o que mereces,

cantarei dignamente as águas tuas,

e a relva que te borda a fresca terra,

       e as flores que a matizam?

 

Em que verso melhor folgas que entoe

digno louvor às árvores anosas

que te cercam benéficas, lançando

       amiga sombra aos vates?

 

Se de outras cordas minha lira ornasse

de Maia o filho, o alígero Mercúrio,

se novos sons em minha voz criassem

       as ondas de Aganipe.

 

Então celebraria os nobres seixos,

onde o sangue de Inês o tempo adora,

onde o sangue de Inês inda hoje arranca

       o pranto a Amor e às ninfas.

 

Os zéfiros e as auras n’ este sítio

sem que os ais da infeliz jamais esqueçam

tristes movendo a trémula folhagem

       saudade doce avivam

 

As águas luas, e as vizinhas letras,

sobre as quais cada dia Amor suspira,

o sangue inda recente, os velhos troncos,

       tudo te faz formosa.

 

Corre, ó Fonte das Lágrimas; ah! sempre

aos ternos corações de amantes tristes

corras grata e suave, e tenhas deles

                      os cultos que te sagro!

 

In “Encantada Coimbra”

Adosinda Providência Torgal, Madalena Torgal Ferreira

Publicações Dom Quixote, 2003

 

António Feliciano de Castilho

(1800-1875)

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Terça-feira, 19 de Julho de 2022

Recordando... Camilo Pessanha

QUEM POLUIU…

 

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer - meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou no caminho?

 

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear, – tábua tosca de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
Da minha vinha o vinho acidulado e fresco?

 

Ó minha pobre mãe!... Não te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

 

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais.
Alma da minha mãe... Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.

 

(Clepsidra)

 

In ”Ler Por Gosto”

Areal Editores

 

Camilo Pessanha

(1867-1926)

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Quarta-feira, 13 de Julho de 2022

Recordando... António Franco Alexandre

OLHA-ME AGORA…

 

Olha-me agora, que me tens vencido

e sou nas tuas mãos pobre veludo,

de pele morta e rota mal vestido

e, de sábio que sou, já tartamudo.

Fala-me agora, que não tenho boca.

e sou na tua pele mero ouvido,

diz-me palavras soltas sem sentido

ou pede-me por graça o consentido.

Olha-me só para que veja como

tão claro e fundo olhar me tem mantido

na solidão sem nome deste pranto;

ou escreve em mim com hálito de lume

para que seja eu a enrodilhada chama

que se esquece de si e sonha o fumo.

 

In “Duende”

Assírio & Alvim

 

António Franco Alexandre

(N.1944)

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Quinta-feira, 7 de Julho de 2022

Recordando... Catarina de Lencastre

SAFO

 

Safo ao mar se precipita

Por impulso da paixão,

Vinga em si o alheio crime

Da pérfida ingratidão.

 

Muitos anos respeitado

Foi o penedo fatal,

Mas por força dum exemplo

Logo um mal causa outro mal.

 

Se fizerem assim todas,

Que se vêem desprezadas,

Foram de vítimas tristes

As brancas ondas coalhadas.

 

Sem ti que vale a firmeza,

Ó santa conformidade?

Tu a perdoar ensinas

Loucuras da humanidade.

 

In "Antologia das Mulheres Poetas Portuguesas"

Selecção, prefácio e notas de António Salvado

Editorial Delfos

 

Catarina de Lencastre

(1749-1824)

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Sexta-feira, 1 de Julho de 2022

Recordando... António Botto

A BELEZA

 

A beleza

Sempre foi

Um motivo secundário

No corpo que nós amamos;

A beleza não existe,

E quando existe não dura.

A beleza

Não é mais do que o desejo

Fremente

Que nos sacode...

- O resto, é literatura.

 

In “As Canções de António Botto”

Editorial Presença

 

António Botto

(1897-1959)

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