Sábado, 30 de Abril de 2022

Recordando... Lília da Fonseca

CÂNTICO AO AMANHECER

 

Eu já não sou aquele frágil ser

que morria de angústia e desespero

por ir vogando, vogando sem rumo,

vogando, vogando na corrente da vida

para a morte…

 

Chocada,

magoada,

sensitiva…

 

Que formosura na sombra do mundo amanheceu,

que perfume de primavera estua nos caminhos,

que tudo se transforma

e acorda em sobressalto!

Eu dei as minhas mãos às mãos que vi estendidas,

juntei a minha voz ao cântico do amanhecer,

que reboa comovidamente

pleno de esperança e juventude,

e confundi meu coração

com os de todos os irmãos da minha humanidade.

 

E o frágil ser,

Chocado, magoado, sensitivo,

Morreu…

 

E só então pude exclamar:

Vida, vida, como eu te atraiçoava,

esperando tudo de ti

sem nada de mim te dar!

 

Na sombra do mundo estua a primavera

como sinal de um cântico que amanheceu!

 

In “Poemas da Hora Presente”

 

Lília da Fonseca

(1916-1991)

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Segunda-feira, 25 de Abril de 2022

Recordando... Maria Azenha

RECORDAÇÕES

 

Nenhum vestígio

Nenhuma noite impura

Nenhum país de lume

Nenhuma serra ali.

A tua ausência é tão funda

Que não regressa a ti.

 

In “Coração dos relógios”

Editora Pergaminho

 

Maria Azenha

(N.1945)

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Terça-feira, 19 de Abril de 2022

Recordando... Lídia Borges **

DESLIZAR PARA O POEMA E FICAR DE PÉ

 

Deslizar para o poema e ficar de pé,

imóvel sobre as imagens unicolores

dos cansaços,

deslembrados frutos e festas

de junhos calcinados em dispersão

pelas mãos. E os ouvidos atentos

ao murmúrio crescente da noite.

Não fosse oásis o teu olhar,

Cama, teus braços de amparar,

almofada de penas o teu peito.

Não fosses igual a um poema que

nos conduz ao carmim da tarde. Suavemente.

À casa onde se retoma pelos sentidos

na barca perene da memória,

a mesma de ontem, de hoje,

de amanhã ...

 

Não se ensombre o mar em olhos fatigados.

 

In “Garças” 

Poética Edições

 

Lídia Borges **

(N.1956)

 

** Pseudónimo de Olívia Maria Barbosa Guimarães Marques

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Quarta-feira, 13 de Abril de 2022

Recordando... Alice Ogando

QUANDO ME BEIJAS

 

Quando me beijas, sinto o teu olhar

Por vezes vago, estranho, indiferente,

E até já fui forçada a reparar

Que me não olhas franca, lealmente.

 

Qualquer coisa tu tens p’ra me ocultar

Uma razão existe, certamente.

Repara amor, como eu, p’ra te beijar

Olho bem os teus olhos frente a frente.

 

E quando emfim, as nossas duas bocas

Se unem famintas como duas loucas

E vêjo então o quanto me desejas,

 

Fico absorta e penso entristecida,

Em quem será essa desconhecida

Que tu estás a beijar, quando me beijas.

 

(Intimidade)

 

In “Poetisas de Hoje”

Editora Empreza do Díarío de Notícias - 1931

 

Alice Ogando

(1900-1981)

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Quinta-feira, 7 de Abril de 2022

Recordando... Judith Teixeira **

A ESTÁTUA

 

O teu corpo branco e esguio

Prendeu todo o meu sentido...

Sonho que pela noite, altas horas,

Aqueces o mármore frio

Do alvo peito entumecido...

 

E quantas vezes pela escuridão

A arder na febre de um delírio,

Os olhos roxos como um lírio

Venho espreitar os gestos que eu sonhei...

 

- Sinto os rumores duma convulsão,

A confessar tudo que eu cismei

 

Ó Vénus sensual!

Pecado mortal do meu pensamento!

Tens nos seios de bicos acerados,

Num tormento,

A singular razão dos meus cuidados

 

In "Noite luarenta" 1922

 

Judith Teixeira **

(1880-1959)

 

** Pseudónimo de Judite dos Reis Ramos Teixeira

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Sexta-feira, 1 de Abril de 2022

Recordando... Ana Luísa Amaral

TENTO EMPURRAR-TE DE CIMA DO POEMA 

 

Tento empurrar-te de cima do poema

para não o estragar na emoção de ti:

olhos semi-cerrados, em precauções de tempo

a sonhá-lo de longe, todo livre sem ti.

 

Dele ausento os teus olhos, sorriso, boca, olhar:

tudo coisas de ti, mas coisas de partir…

E o meu alarme nasce: e se morreste aí,

no meio de chão sem texto que é ausente de ti?

 

E se já não respiras? Se eu não te vejo mais

por te querer empurrar, lírica de emoção?

E o meu pânico cresce: se tu não estiveres lá?

E se tu não estiveres onde o poema está?

 

Faço eroticamente respiração contigo:

primeiro um advérbio, depois um adjectivo,

depois um verso todo em emoção e juras.

E termino contigo em cima do poema,

presente indicativo, artigos às escuras.

 

In “Coisas de Partir”

Fora do Texto

 

Ana Luísa Amaral

(N.1956)

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