Quinta-feira, 31 de Março de 2022

Recordando... Pedro Homem de Mello

A ORAÇÃO DA MALCASADA

 

Escutai naquela cama

A oração da mal-casada!

 

Dir-se-ia a última chama

Que ainda não foi apagada…

 

Nem se move.

Nem respira.

Não vá a carne acordar!

 

Amor?

- Já não há mentira…

 

Noite?

- Já não há luar…

 

E mais negra de hora a hora

(Negra ou branca, branca e fria?)

É em silêncio que chora

A sua monotonia…

 

In ”Eu desci aos infernos” - 1972

 

Pedro Homem de Mello

(1904-1984)

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Sexta-feira, 25 de Março de 2022

Recordando... Manuel Alegre

NÃO NECESSARIAMENTE UMA PALAVRA

 

Há versos silenciosos ocultos submersos

no sangue no recato no pudor

há versos que quem os sente fica sem saber

se está doente ou tonto e se o melhor

não será disfarçar para que ninguém

repare na mudança

da fala do andar do gesto

ou até do silêncio.

Um poema infiltra-se. Salta por dentro

rompe todos os diques da convenção

ninguém pode conter um poema

mesmo que seja apenas

uma vogal que de repente fica azul

ou uma consoante que desata a rabiar

ninguém pode conter essa toada

esse tremor de terra que sem que se dê por isso

altera subitamente a vida

e acende nas artérias mais obscuras

não necessariamente uma palavra

mas um fogo submerso

uma espécie de pedra cintilante

um fluxo de lava.

 

Ainda que se não saiba é já um verso

algo que bate fundo

como a sílaba cantante

do poema do mundo...

 

In "Doze Naus"

Publicações Dom Quixote

 

Manuel Alegre

(N.1936)

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Sábado, 19 de Março de 2022

Recordando... José Fanha

PARA A CRISTINA COMO TUDO

 

Hás-de chegar com o corpo

Encostado ao rosto

Da cidade.

 

Com teus olhos

Decididamente tristes

Vens tomar a minha mão

Dar-lhe o gosto das cerejas

E levá-la ao teu

Mais secreto descaminho.

 

Hás-de chegar

Nas asas do silêncio

Tão mansa como a tarde

Que se esvai

Entornando sobre o chão

O perfil agudo das paredes.

 

Chegas hoje ou amanhã

Quem sabe?

Hás-de chegar de surpresa

Como sempre

Desviando o sentido dos relógios

E pedindo que o desejo

Se vista de veludo.

 

In “Elogio dos Peixes, das Pedras e dos Simples”

Campo das Letras

 

José Fanha

(N.1951)

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Domingo, 13 de Março de 2022

Recordando... Natália Correia

COMO DIZER O SILÊNCIO?

 

Se em folhagem de poema

me catais anacolutos

é vossa a fraude. A gema

não desce a sons prostitutos.

 

O saltério, diletante,

fere a Musa com um jasmim?

Só daí para diante

da busca estará o fim.

 

Aberta a porta selada,

sou pensada já não penso.

Se a Musa fica calada

como dizer o silêncio?

 

Atirar pérola a porco?

Não me queimo na parábola.

Em mãos que brincam com o fogo

é que eu não ponho a espada.

 

Dos confins, o peristilo

calo com pontas de fogo,

e desse casto sigilo

versos são só desafogo.

 

E também para que me lembrem

deixo-os no mercado negro,

que neles glórias se vendem

e eu não sou só desapego.

 

Raiz de Deus entre os dentes,

aí, pára a transmissão.

Ultrassons dessas nascentes

só aves entenderão.

 

In “O Dilúvio e a Pomba”

Edições Dom Quixote - 1979

 

Natália Correia

(1923-1993)

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Segunda-feira, 7 de Março de 2022

Recordando... Luís Miguel Nava

AS ONDAS QUE SE ENCONTRAM

As ondas que se encontram
ainda agora em formação no espírito
dele já não vêm rebentar ao meu.

Por mim não volto a vê-lo, encontros houve
com ele dos quais a alma ficou cheia de dedadas.
Já nem sequer dele quero ouvir falar,
saber que se ele
fosse uma cama estaria por fazer nada me traz
agora além de desconforto.

In Poemas
Limiar, 1987

Luís Miguel Nava
(1957-1995)

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Terça-feira, 1 de Março de 2022

Recordando... Irene Silva

À NOITE AO LUAR

 

Vem

Vem apenas!

Trás arminhos

Flores silvestres

O aroma da terra

O teu sorriso

A tua brisa

O teu calor

E,

No silêncio deste Luar

Mergulha no habitáculo da tua alma

Vigia a Lua com o mar dentro,

Recolhe a sua magia

Resgatando para sempre

O Homem que em ti mora.

 

In “40 Poetas Transmontanos de Hoje”

Volume I – 2017

Academia de Letras de Trás-os-Montes

Âncora Editora

 

Irene Silva

(N.1954)

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