Quinta-feira, 30 de Setembro de 2021

Recordando... Guilherme de Faria

SERENAMENTE

 

Serenamente, lembro o meu passado:

Das suas esperanças nada espero,

E sorrio ao seu mal desesperado

Como ao bem das promessas, que não quero.

 

Que hoje, da vida, só desejo a calma

Da indiferença, num sorriso aberto…

E na certeza de que tudo é incerto,

Descansa as tuas dúvidas, pobre alma!

 

Do teu cansaço e tua dor, descansa!

É neste brando enlevo que eu te quero,

Sorrindo ao fumo duma nova esperança

Como à ilusão dum novo desespero.

 

In “Desencanto”

 

Guilherme de Faria

(1907-1929)

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Sábado, 25 de Setembro de 2021

Recordando... Edmundo de Bettencourt

NOCTURNO

 

Ao meio do canal submarino

a luz cegante é um anjo.

A suspenção do voo ampara...

Que fluido pelos circulos luminosos parados, correrá?

O sorriso escancarado da esfinge mergulhadora

vai mostrando, distante, a galeria óssea que deita

para as ameias dum castelo

com um deserto sem fim na rectaguarda.

Sentinelas de sangue esperam sempre a

sombra e a morte cobertas de ervas secas.

Na atracção do fundo,

aos pés da escadaria do escuro,

jaz a princesa, de verde, adormecida...

 

1934

 

In Revista “Pirâmide”

Nº 3 – Dezembro.1960 – Ano I

Pág. 44

 

Edmundo de Bettencourt

(1889-1973)

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Domingo, 19 de Setembro de 2021

Recordando... Cristovam Pavia **

REGRESSO AO PARAÍSO

 

Quando o meu sangue correr

Nas ribeiras frescas do mundo,

Descansado o vermelho em água transparente,

Perdida a febre em débeis flores submersas...

 

In “ÁRVORE ”

Folhas de Poesia

1.º Fascículo - Outono de 1951

Pág. 17

 

Cristovam Pavia **

(1933-1968)

 

** Pseudónimo de Francisco António Lahmeyer Flores

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Segunda-feira, 13 de Setembro de 2021

Recordando... António Ferreira

QUANDO ENTOAR COMEÇO COM VOZ BRANDA

Quando entoar começo com voz branda
Vosso nome de amor, doce, e suave,
A terra, o mar, vento, água, flor, folha, ave
Ao brando som se alegra, move, e abranda.

Nem nuvem cobre o céu, nem na gente anda
Trabalhoso cuidado, ou peso grave,
Nova cor toma o Sul, ou se erga, ou lave
No claro Tejo, e nova luz nos manda.

Tudo se ri, se alegra, e reverdece.
Todo mundo parece que renova.
Nem há triste planeta, ou dura sorte.

A minh'alma só chora, e se entristece,
Maravilha de Amor cruel, e nova!
O que a todos traz vida, a mim traz morte.

 

In “Poemas Lusitanos” – 1598

Mandado publicar por seu filho, Miguel Leite Ferreira

 

António Ferreira

(1528-1569)

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Terça-feira, 7 de Setembro de 2021

Recordando... Francisco José Viegas

DESEMBARCAR SUBITAMENTE NO MEIO DO MAR

 

Surpresa e contentamento de te ver e não saber

o teu nome nem a distância que vai dos lábios às rosas,

a sua diferença subtil - desembarcar no mar e

largar os navios à sua longa vagem, porque uma voz

nos chama, e não sabemos que voz nos chama,

e ser a tua voz sem saber que é teu o rasto

dos pássaros, o que resta das marés.

 

In "Metade da Vida"

Quasi Edições

 

Francisco José Viegas

(N.1962)

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Quarta-feira, 1 de Setembro de 2021

Recordando... António Feijó

O LIVRO DA VIDA

 

Absorto, o Sabio antigo, estranho a tudo, lia...

– Lia o «Livro da Vida»,– herança inesperada,

Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria

Ao primeiro clarão da primeira alvorada.

 

Perto d'elle caminha, em ruidoso tumulto,

Todo o humano tropel num clamor ululando,

Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto,

Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.

 

Passa o estio, a cantar; accumulam-se invernos;

E elle sempre, – inclinada a dorida cabeça, –

A ler e a meditar postulados eternos,

Sem um fanal que o seu espirito esclareça!

 

Cada pagina abrange um estádio da Vida,

Cujo eterno segredo e alcance transcendente

Elle tenta arrancar da folha percorrida,

Como de mina obscura a pedra refulgente.

 

Mas o tempo caminha; os annos vão correndo;

Passam as gerações; tudo é pó, tudo é vão...

E elle sem descansar, sempre o seu Livro lendo!

E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão.

 

Nesse eterno scismar, nada vê, nada escuta:

Nem o tempo a dobar os seus annos mais bellos,

Nem o humano soffrer, que outras almas enluta,

Nem a neve do inverno a pratear-lhe os cabellos!

 

Só depois de voltada a folha derradeira,

Já próximo do fim, sobre o livro, alquebrado,

É que o Sábio entreviu, como numa clareira,

A luz que illuminou todo o caminho andado...

 

Juventude, manhãs d'Abril, boccas floridas,

Amor, vozes do Lar, éstos do Sentimento,

– Tudo viu num relance em imagens perdidas,

Muito longe, e a carpir, como em nocturno vento.

 

Mas então, lamentando o seu esteril zêlo,

Quando viu, a essa luz que um instante brilhou,

Como o Livro era bom, como era bom relê-lo,

Sobre elle, para sempre, os seus olhos cerrou...

 

(mantém a grafia original)

 

In “Sol de Inverno”   

Editora Aillaud & Bertrand

 

António Feijó

(1859-1917)

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