Quarta-feira, 30 de Junho de 2021

Recordando... Alexander Search

EPITÁFIO  

 

Dos poetas do mundo ora aqui jaz

O que se pensou como o melhor deles;

Na vida não teve alegria ou paz.

 

Muitas canções de loucura encheu,

E quando quer que ele tenha morrido

Foi já de mais o tempo que viveu.

 

Num egotismo viveu sem razão,

Na sua alma em tumulto e desordem

Pensar e sentir, perpétua cisão.

 

Um inimigo em cada coisa tida

E, sem coragem, seu papel cumpriu

No penar infindável desta vida.

 

Da dor e do medo um escravo certo,

E pensamentos incoerentes teve

E desejos da loucura perto.

 

Por artes do mal, aqueles que amou

Tratou pior do que seus inimigos;

Mas em si o pior inimigo achou.

 

Só de si mesmo se fez seu cantar,

Sempre incapaz de modesto ser,

Fechado em seu louco imaginar.

 

Todo o seu penar sem esforço ou valia,

Vazios de sentido os receios e dores

Que ignóbeis foram na maioria.

 

Vil e sem valor assim seu pesar;

Embora em versos mais amargos que ódio

A amarga alma não pôde expressar.

 

Embora capaz de chorar de ternura,

Era, contudo, miserável e mau —

Mas ninguém pareceu ver nele a loucura.

 

Que mente saudável não vá poluir

Sua campa; mas, por condizentes,

Traidor e prostituta poderão ir;

 

Ébrio e dissoluto podem passar

Por ali, depressa, não vão supor

Talvez que o prazer é apenas ar.

 

Toda a fraca e execrável mente

Que, em corrupção, torturou o homem

Aqui terá seu mestre consciente,

 

Consciente, pois nele pôde dizer

Que loucura e mal foram o que foram,

Mas que de nenhum se quis desfazer.

 

Passai pois, ali, quem puder chorar;

Que a podridão trabalhe enquanto, forte,

O vento as folhas mortas arrastar.

 

Ao seu irmão na terra a dormitar

Que nem sequer em imaginação

O nome de Deus venha perturbar.

 

Que tenha p'ra sempre a paz conseguido

Longe dos olhos e bocas dos homens

E do que deles o fez dividido.

 

Ele foi um ser por Deus trabalhado

E ao pecado já de ter vivido

Juntou ele o crime de ter pensado.

 

1907

 

In “Poesia”

Edição e tradução de Luísa Freire

Assírio & Alvim – 1999

 

Alexander Search

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Sexta-feira, 25 de Junho de 2021

Recordando... Fernando Pessoa

NO FIM DO MUNDO DE TUDO

 

No fim do mundo de tudo

Há grandes montes que têm

Ainda além para além –

Um grande além mago e mudo.

 

São paisagens escondidas

Que são o que a alma quer.

Ali ser, ali viver

Vale por vidas e vidas.

 

Todos nós, que aqui cansamos

A alma com a negar,

Nesse momento de sonhar

Ali somos, ali estamos.

 

Mas, depois, volvidos onde

Há só a vida que há

Vemos que ante nós está

Só o que vela e que esconde.

 

Só dormindo os horizontes

Se alargam e há a visão

Dos montes que ao fundo estão

E o saber do além dos montes.

 

19-5-1934

 

In “Poemas Esotéricos - Fernando Pessoa” – 1ª edição Abril.2014

Edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith

Assírio & Alvim

Pág.131

 

Fernando Pessoa

(1888-1935)

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Sábado, 19 de Junho de 2021

Recordando... Alberto Caeiro

POUCO A POUCO O CAMPO SE ALARGA E SE DOURA

 

Pouco a pouco o campo se alarga e se doura.

A manhã extravia-se pelos irregulares da planície.

Sou alheio ao espectáculo que vejo: vejo-o,

É exterior a mim. Nenhum sentimento me liga a ele.

E é esse sentimento que me liga à manhã que aparece.

 

[Poemas Inconjuntos]

 

In “Poesia”

Ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith

Assírio & Alvim

 

Alberto Caeiro

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Domingo, 13 de Junho de 2021

Recordando... Fernando Pessoa

FIQUEI DOIDO, FIQUEI TONTO…

 

Fiquei doido, fiquei tonto...

Meus beijos foram sem conto,

Apertei-a contra mim,

Aconcheguei-a em meus braços,

Embriaguei-me de abraços...

Fiquei tonto e foi assim...

 

Sua boca sabe a flores,

Bonequinha, meus amores,

Minha boneca que tem

Bracinhos para enlaçar-me,

E tantos beijos p'ra dar-me

Quantos eu lhe dou também.

 

Ah que tontura e que fogo!

Se estou perto dela, é logo

Uma pressa em meu olhar,

Uma música em minha alma,

Perdida de toda a calma,

E eu sem a querer achar.

 

Dá-me beijos, dá-me tantos

Que, enleado nos teus encantos,

Preso nos abraços teus,

Eu não sinta a própria vida,

Nem minha alma, ave perdida

No azul-amor dos teus céus.

 

Não descanso, não projecto

Nada certo, sempre inquieto

Quando te não beijo, amor,

Por te beijar, e se beijo

Por não me encher o desejo

Nem o meu beijo melhor.

 

s.d.

 

In “Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa”

Teresa Rita Lopes

Editora Estampa - 1990

Pág. 35

 

Fernando Pessoa

(1888-1935)

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Segunda-feira, 7 de Junho de 2021

Recordando... Ricardo Reis

OS DEUSES DESTERRADOS

 

Os deuses desterrados.

Os irmãos de Saturno,

Às vezes, no crepúsculo

Vêm espreitar a vi

 

Vêm então ter connosco

Remorsos e saudades

E sentimentos falsos.

É a presença deles,

Deuses que o destroná-los

Tornou espirituais,

De matéria vencida,

Longínqua e inativa.

 

Vêm, inúteis forças

Solicitar em nós

As dores e os cansaços,

Que nos tiram da mão,

Como a um bêbedo mole,

A taça da alegria.

 

Vêm fazer-nos crer,

Despeitadas ruínas

De primitivas forças,

Que o mundo é mais extenso

Que o que se vê e palpa,

Para que ofendamos

A Júpiter e a Apolo.

 

Assim até à beira

Terrena do horizonte

Hiperion no crepúsculo

Vem chorar pelo carro

Que Apolo lhe roubou.

 

E o poente tem cores

Da dor dom deus longínquo,

E ouve-se soluçar

Para além das esferas...

Assim choram os deuses.

 

12-6-1914

 

In “Odes de Ricardo Reis”

(Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor)

Ática, 1946 (imp.1994)

Pág. 16

 

Ricardo Reis

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

 

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Terça-feira, 1 de Junho de 2021

Recordando... Álvaro de Campos

AH A FRESCURA NA FACE DE NÃO CUMPRIR UM DEVER!  

 

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!  

Faltar é positivamente estar no campo!  

Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!  

Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros,  

Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,  

Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.  

Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.  

Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.  

E tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,  

Deliberadamente à mesma hora...  

Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.  

É tão engraçada esta parte assistente da vida!  

Até não consigo acender o cigarro seguinte...

Se é um gesto,  

Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.

 

17-6-1929

In “Poesias de Álvaro de Campos”
Ática, 1944 (imp. 1993) 
Pág. 40

Álvaro de Campos

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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