Sexta-feira, 30 de Abril de 2021

Recordando... António Durão

VIRGEM DO CEU!

 

Virgem do Ceu! E a chuva que não pára...

O vento geme e ulula ao desafio.

Anda a morte a rondar-nos... Sinto o frio

Em que a Má-Sombra às vezes se mascara.

 

Olhai, lá foge... És tu que vens. Sorrio.

Teu vulto apenas – ó Piedosa e Rara! –

Eterio luminoso, aquece e aclara

O tempo agreste, glacial, sombrio.

 

Caem do teu olhar bênçãos de Paz.

Toda a dôr, toda a magua se desfaz,

Alva açucena casta e misteriosa...

 

Um extasi de amor raza as montanhas,

Quando as tuas mãos sacramentais, extranhas,

Descem, pairando sobre a terra anciosa!

 

In “Contemporanea”

Ano I – Volume II – Nº.6 - Ano 1922

Pág. 96

 

Mantém a grafia original

 

Américo Durão

(1894-1969)

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Domingo, 25 de Abril de 2021

Recordando... Ruy Belo

CANÇÃO DO LAVRADOR

 

Meus versos lavro-os ao rubro

neste página de terra

que abro em lábios. Descubro-

-lhe a voz que no fundo encerra

 

Os versos que faço sou-os

A relha rasga-me a vida

e amarra os sonhos de voos

que eu tinha à terra ferida

 

Poema que mais que escrevo

devo-te em vida. No húmus

a regos simples eu levo

os meus desvairados rumos

 

Mas mais que poema meu

(que eu nunca soube palavra)

isto que dispo sou eu

Poeta não escrevas lavra

 

In "Aquele Grande Rio Eufrates”  

Assírio & Alvim

 

Ruy Belo

(1933-1978)

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Segunda-feira, 19 de Abril de 2021

Recordando... António Botto

NÃO ME CHAMEM PELO NOME

 

Não me chamem pelo nome

Que me deram ao nascer;

Sou como a folha caída

Que não chegou a viver.

 

Se eu sem riquezas nasci,

Cheguei a sonhar com elas

Na esperança de ser alguém;

Mas bem depressa deixei

A tortura de quem quer

Conquistar o que não tem.

Os nervos mortos, na terra

dos meus planos iludidos,

Mentiram à própria fome!

Por isso nesta indiferença

Peço apenas: - e é tão pouco!,

Não me chamem pelo nome.

 

Sou como a folha caída

Pisada por quem passeia

Alheio à luz e à beleza;

E de todas as venturas,

Só me encontro nos silêncios

Que tem a minha tristeza.

Perdi-me no sofrimento

Que nos dão as aparências

Que julgamos entender...

Da vida não quero nada;

E não me falem no nome

Que me deram ao nascer.

 

Sou como a flor esquecida

Nos canteiros da ilusão

De um jardineiro traidor,

Sou como fonte discreta

Entre folhagens cantando

Tristes cantigas de amor;

Ao fim de tanta vileza

Já não me posso iludir

Com as promessas da vida!

Tudo em mim sabe a derrota,

E até da morte duvido

- Sou como a folha caída.

 

Sou como tudo que passa

No giro do pensamento

De uma criança a brincar;

E os meus mais débeis desejos

Morrem aos ais na lembrança

De quem se esqueceu de amar;

Nada no mundo me prende;

Nem a saudade de um beijo

Num momento de prazer!,

- Pobre corpo sem destino,

Renúncia firme de artista

Que não chegou a viver.

 

In “As Canções de António Botto”

Edições Ática

 

António Botto

(1897-1959)

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Terça-feira, 13 de Abril de 2021

Recordando... Sophia de Mello Breyner Andresen

PRAIA

 

Os pinheiros gemem quando passa o vento

O sol bate no chão e as pedras ardem.

 

Longe caminham os deuses fantásticos do mar

Brancos de sal e brilhantes como peixeis.

 

Pássaros selvagens de repente,

Atirados contra a luz como pedradas

Sobem e morrem no céu verticalmente

E o seu corpo é tomado nos espaços.

 

As ondas marram quebrando contra a luz

A sua fronte ornada de colunas.

 

E uma antiquíssima nostalgia de ser mastro

Baloiça nos pinheiros.

 

In "Mar”

Editorial Caminho

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

(1919 - 2004)

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Quarta-feira, 7 de Abril de 2021

Recordando... Vitorino Nemésio

DEFESA

 

Guarda a manhã como uma rosa,

Molha-a, que a noite vem aí.

Dorme tu nos espinhos; goza

O que é próprio de ti.

 

Não dês flores a ninguém

Que tua mão lhe corte,

E, se puderes,

Leva as mais que puderes à tua morte

Em coroa que te fique bem.

 

Não gastes o jardim puro

De que tu mesmo és terra:

A tua vida, muro,

Teu coração a encerra.

 

Rosas façam de sangue os que as desejam;

Cada um se floresça:

As tuas não se vejam

Quando a roseira cresça.

 

Abre ao lume doído

Os botõezinhos novos.

No ninho despido,

Ave, os teus ovos.

 

Ao frio e ao escuro cria

Larvas de luz compostas

Do que deita alegria

Sobre as coisas que gostas.

 

Mas rosas dadas, não:

Nem que tu fosses flores

E raiz teu destino

Engrossando no chão.

As tuas flores

São do menino

Sempre foste. Não!

 

In “O Bicho Harmonioso”

 

 

(1901-1978)

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Quinta-feira, 1 de Abril de 2021

Recordando... Florbela Espanca

ÀS MÃES DE PORTUGAL

 

Ó mães doloridas, celestiais,

Misericordiosas,

Ó mães d’olhos benditos, liriais,

Ó mães piedosas

Calai as vossas mágoas, vossas dores!

Longe na crua guerra

Vossos filhos defendem, vencedores,

A nossa linda terra!

E se eles defendem a bandeira

Da terra que adorais,

Onde viram um dia a luz primeira

Ó mães, porque chorais?!

Uma lágrima triste, agora é

Cobardia, fraqueza!

Nos campos de batalha cai de pé

A alma portuguesa!

Pela terra de estrela e tomilhos,

De sol, e de luar;

Deixai ir combater os vossos filhos

Ao longe, heróis do mar!

Dum português bendito, sem igual

Eu sigo o mesmo trilho:

Por cada pedra deste Portugal

Eu arriscava um filho!

Por isso ó mãe doloridas, pelo leito

De morte, onde ajoelhais,

Esmagai vossa dor dentro do peito,

Ó mães não choreis mais!

A Pátria rouba os filhos, mas é mãe

A mãe de todos nós

Direito de a trair não tem ninguém

Ó mães nem sequer vós!

 

In “Trocando olhares” 1915-1917

Editora Martin Claret

 

Florbela Espanca

(1894-1930)

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